sábado, 27 de março de 2010

o buquê


Passei anos sem pegar o buquê da noiva. Um dia minha melhor amiga pegou, no casamento da outra melhor amiga, e sob conselhos maternos levou-o até o pé de Santo Antônio na igreja do bairro. Foi aí que meu calo apertou, e eu também quis um buquê.

Na semana seguinte tinha o casamento de uma prima, tudo bem chique, floral, com camarões empanados para acompanhar.Na hora do buquê, posicionei-me estratégicamente, finquei o pé no chão e disse em voz alta "Este buquê é meu.". Para minha grande surpresa o buquê voou redondo pelo ar, dando uma pirueta em minha direção. "Eu disse que era meu", vangloriei-me, mas não era, caiu nas mãos da minha tia Valéria, que estava meio metro adiante. Ela deve ter sentido as moléculas de frustração que meu corpo exalou em direção ao dela, e imediatamente me repassou o buquê. Foi quase como um toque de vôlei, e como eu já estava de prontidão, com as caneleiras em punho e os olhos atentos, ninguém percebeu. Todos acharam que o buquê tinha caído em minhas mãos, e eu pude desfilar tranquilamente pela festa com meu troféu.

Dia seguinte fui à igreja Nossa Senhora do Brasil levar minha oferenda para o santo. Não satisfeita fui descalça, achando que aquilo poderia funcionar como um bonûs extra. Desci a rua Augusta com uma espécie de farsa entre os dedos: o buquê roubado, ou melhor, o buquê concedido, o buquê da consolação. Ainda assim mantive o enredo e coloquei-o nos pés de porcelana. Por um segundo tive plena consciência de tudo, e quis que houvesse ali alguma câmera atrás de mim, que tudo não passasse de uma grande encenação e que dali a pouco eu tomaria um café açucarado com o foquista. Mas tratando-se de mim, aquilo, na verdade não era nenhum absurdo. Voltei descalça e suada para casa.

Dois anos depois, no meio de uma pista de dança anunciaram novamente a jogada do buquê. Eu corri, desta vez na direção oposta. "Desta vez quem não te quer sou eu."E fui para o canto, bem longe da noiva, para rir e desdenhar das ansiosas e novatas no assunto. "Essa humilhação nunca mais.", pensei. Mas eis que no três, em movimento bumerangue, o buquê pinga na minha cabeça e caí nas minhas mãos. Amanheceu num copo de requeijão, na pia de casa, onde permaneceu durante toda sua vida útil. Muitas coisas aconteceram entre um buquê e outro, mas os detalhes são dispensáveis.

Segunda passada estive em um casamento. Na hora do buquê, a noiva reclamou que havia poucas mulheres na pista e eu tratei de ir ao jardim chamá-las. Quando voltei ao salão, o buquê já tinha sido jogado. E eu gostei de não ter que tomar nenhum tipo de posicionamento espacial na cena. Já estou satisfeita de buquês, dos falsos e verdadeiros, e esta é uma afirmação baseada em fatos reais. Parece que a moça que pegou o dito cujo, tomou um banho de champanhe na hora em que saltou para resgatá-lo. Que daqui para frente, ela sempre tenha uma garrafa de espumate gelada em sua geladeira, e muita sorte, intercalada com algum azar, só para ela poder distinguir melhor uma coisa da outra.

segunda-feira, 15 de março de 2010

cobaia

Quando você é filha de médico, e este médico tem algumas tendências revolucionárias, inevitavelmente você acaba sendo um pouquinho diferente dos outros na hora de se tratar. Eu era uma garota comum, tirando o fato de não ter tomado a maior parte das vacinas que as crianças tomavam, de ingerir uma colher gigante de óleo de fígado de bacalhau por dia e de ter curado a maior parte das minhas febres com suco de pimentão, para horror das professoras, que não entendiam por que simplesmente não me davam uma dose de antibiótico.

Hoje em dia meu pai é bem menos radical, mas continua bem revolucionário. Mistura tratamentos alternativos com pesquisas em laboratório e eu tomo antibióticos e anti-inflamatórios quando preciso, mas continuo tomando minhas bandeja matinal de fitoterápicos. A última vez que terminei um namoro, digo, que terminamos o namoro, bom, na verdade , que terminaram comigo, eu liguei para o meu pai na mesma hora e disse com toda a tranquilidade: "Pai, tô na maior fossa, vou tomar um remédio para dormir, não importa o quanto você seja contra, mas quero saber qual é menos pior: o dormonid, rivotril ou o frontal?"

No que ele me respondeu rapidamente: "Todos são piores, você vai acordar mais deprimida do que está agora."
"Então vou encher a cara de vinho..."
retruquei.

"Martha, vem para cá agora!"


E eu fui, correndo, e ele me deu tanta homeopatia, fitoterapia e outras calmarias, que desabei na cama sem nem lembrar do nome do extinto namorado. Estou contando tudo isso por causa da minha atual infecção do dente. Meu dentista, amigo de faculdade do meu pai, disse que só ia fazer a cirurgia depois que meu pai tratasse com medicação. E após uma semana de muitas injeções, cápsulas, soro e paciência, voltei no consultório. O dentista olhou a chapa do raio-x sorrindo, "É bruxaria mesmo, sumiu tudo, acho que não vamos ter que abrir." Quase explodi de alegria, tenho pavor daquela anestesia na gengiva, daquele bocão pós-cirúrgico. Mas contiuo me tratando, sem poder tomar nem uma cerveja para ajudar a baixar a temperatura do corpo, nesses dias tão quentes que chegam a ser tolos. Mas tudo bem, como diz a avó de alguém, "Saúde e Paz, o resto a gente corre atrás." O que me faz lembrar do meu amigo Marcelo, que um dia soltou este ditadinho popular na sala da casa da namorada uruguaia. Acontece que correr, em espanhol, significa foder, literalmente, e a cara da família da moça, vocês podem imaginar.

Daqui do meu apartamento encalorado e cheio de vitaminas, desejo boa semana para todos, apesar de todas as tritezas que andam diluídas no ar da cidade. Saúde e paz e uma boa corrida atrás do que falta.

sábado, 6 de março de 2010

os embalos da vida adulta

Foi um sonho que tive. O carro emperrava. Eu viro a chave e dou nova partida, mas as rodas não giram. Então eu olho para baixo, e vejo que estou no carro dos Flintstones, que o que está emperrado, na verdade, são minhas pernas. Acordo e resolvo abrir uma empresa, tentar entender sobre impostos, sobre siglas de impostos, todas essas transações que são para mim, tão abstratas como a bolsa de valores ou a localização exata do espaço virtual no mundo. E diante dessa decisão, do medo da receita federal e das notificações que podem vir a chegar embaixo da minha porta, minhas rodas andam, mas é aí que minhas costas travam, durante uma semana, e depois delas, uma inflamação nos dentes. Em seguida uma febre, uma caixa de antibióticos no valor de cento e dezesseis reais, que é quase o valor dos honorários mensais do contador. Ontem uma noite de pequenos delírios febris. Hoje uma manhã comum, sem dor e a notícia de que minha sobrinha conseguiu dar sozinha, seus cinco primeiros passos em direção a vida adulta. Depois caiu com a bunda no chão.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

diário do carnaval em Berlim


(a neve e eu)

quinta-feira de carnaval

Chego atrasada, ironica e distraidamente carregando um copo de coca-cola do Mac Donalds na Bertolt Bretch Platz. A estátua do autor em questão tem gelo até as canelas. Assisto "Mutter Courage" e mais uma vez chego a conclusão de que algumas peças, ainda que universais, fazem mais sentido na língua mãe. Se um alemão assiste uma versão de "Morte e vida severina" em Berlim e depois assiste no Brasil, por exemplo, ele provavelmente terá a mesma sensação que eu tenho assistindo B. B, numa montagem do Berliner Ensemble depois de ter visto dezenas de vezes em outros lugares. É como apertar a tecla sap. Depois volto para casa de metrô e, pela primeira vez, sem comprar o bilhete.

sexta-feira de carnaval

O dia do nu. Vou ao museu Helmut Newton e vejo aqueles nus maravilhosos em tamanho quase real. Milhares de fotos, mulheres lindas, dos anos 60,70,80,90. Uma depilação quase demodé e a fixação pelos saltos. Me arrumo bastante neste dia, sei que a possibilidade de me sentir menos bonita do que todas as mulheres do mundo é real. Saio de lá e vamos para a sauna, um barco flutuante no canal congelado. É proibido entrar entrar em trajes de banho, ou qualquer peça de roupa que não seja a própria pele. Diante da ameaça de um funcionário tatuado com cara de bravo, que joga eucalipto nas pedras como se estivesse no cirque du soliel, tiro a parte de cima do biquini. Nunca vi tantos homens pelados por metro quadrado, uma avalanche quase claustrofóbica. Por alguns minutos o João vai para sauna de 60 graus enquanto que fico na de 90. Eis então que recebo uma paquera, na cara dura. Definitivamente, ser assediada em trajes, digo, não trajes de banho, as três da manhã, em uma sauna berlinense, é uma coisa bem esquisita. Não sei se recomendo.

(eu e a neve)

sábado de carnaval

A cidade está cheia por causa da Berlinale, tem até um pouco de trânsito. Berlim pode ser uma grande metrópole, mas tem, ao mesmo tempo, uma calma interiorana. Dou uma volta pelo frio, saio para comer com as crianças e o dia escurece. Tomo uma becks na banheira quente e vou para cama cedo.

domingo de carnaval

Hoje é estréia do filme do Esmir Filho no festival. A sessão está cheia, equipe no palco. Depois assisto um espetáculo de dança-teatro com tudo que menos gosto do teatro associado ao que mais me aborrece na dança; apesar da qualidade do trabalho dos bailarinos. Enfim, foi chato. Mas as festas do festival, que vieram em seguida, foram bacanas. Eu até pude dançar umas marchinhas, o que me faz lembrar, no meio da madrugada, que é carnaval no Brasil.

(eu, a champanhe e a neve ao fundo)

segunda-feira de carnaval

Uma ressaca absurda, neva lá fora eu acordo suando frio na cama. Pegamos um taxista árabe, o cara fala sobre a colônia árabe no Brasil, pergunta sobre um tal de Maluf. Me arrasto do banco do carro até um cinema enorme, uma mistura de maracanã, com teatro municipal. A sessão lotada de "Exit through the gift shop", um filme bom, sobre um cara que que quer fazer um documentário sobre o Banksy. Imagino se ele não está por lá, a paisana. Começo a me despedir da cidade. Encontro com a Guta Ruiz, recém-chegada na Alemanha, odiando a Alemanha, os alemães, os taxistas. Tento contar que também passei por isso, que vai melhorar, mas ela parece não querer dar mais uma chance a cidade.

terça-feira de carnaval

Meu último dia em Berlim. Saio para almoçar no asiático com Camila, brasileira residente na cidade, e Guta, que resolveu espremer uma espinha na cara e agora, além de estar odiando a Alemanha, tem o lábio superior ligeiramente inchado. Depois vou tomar um lanche de despedida com as crianças, fico um pouco triste. Assistimos Bob Wilson no Berliner Ensemble e gosto tanto da comida do almoço que resolvo repetir no jantar. Uma overdose. Durmo em cima das malas.

quarta-feira de cinzas

O único engarrafamento que presenciei na cidade aconteceu bem na hora que eu ia para o aeroporto. O João me lembra que não comi salsichas durante a viagem. "Meu Deus, eu na Alemanha sem comer nenhuma salsicha, que pecado." E corro para o balcão das salsichas no aeroporto de Tegel, e quase me puno por não ter comido esta maravilha antes. Como uma, duas, e só não como a terceira porque chamam meu vôo para Frankfurt. O João fica mais uns dias na cidade com os filhos. Já no avião, derrubo, juro, um copo de suco de tomate em cima de mim e do alemão no lado. Passo todo o vôo no banheiro lavando minha camisa e a dele. Na segunda parte da viagem o avião chacoalha muito.

quinta-feira dia 18

Chego viva em São Paulo. Penso no absurso que é a mudança físico-espacial para um corpo que atravessa o globo em doze horas. Meus pés estão inchados. Conto para minha mãe que só fui comer salsichas no último minuto da viagem e estou inconformada com isso. Ela ri de mim, diz que foi melhor assim, pelo menos para minha saúde. São Paulo é cara, e como é cara. Me dou conta de que São paulo é uma cidade que você dificilmente consegue se divertir com pouco dinheiro, ao contrário da Europa. Chego a conclusão de que preciso ganhar mais, e já chego trabalhando, quarta-feira de cinzas pós meio-dia, como boa paulista que sou. Assim esqueço a saudade.



(eu, a salsicha e não se vê, mas lá fora, a neve)

ps: não tenho autorização de imagem dos outros personagens, por isso o álbum é um pouco egocentrado.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010


Já não neva mais.

A temperatura caiu e o gelo endurece quase como se calcificasse, o que deixa as ruas mais lisas que pistas de patinação no gelo, com o detalhe que você está sem os patins. Vimos no jornal outro dia "Muitas pessoas com costelas quebradas chegam aos hospitais de Berlim". Eu mesma levei um tombo feio ontem, correndo para pegar o ônibus das 15:07 minutos. Rasguei a calça nova, esfolei a pele e ganhei um galo nos joelhos.

O frio é uma coisa acumulativa, você sai de casa encapotado e pensa "Ah, não está tão frio...". Cinco minutos se passam e o frio atravessa seu casaco sem pedir licença, e este é o momento que você pensa "Nossa, na verdade está meio frio...". Mais dez minutos e o frio alcança seus músculos e você chega a conclusão de que realmente deveria ter posto aquela meia-calça extra. No fim de meia hora o frio já alcançou seus ossos, você não sente as extremidades, maldiz o momento em que resolveu sair do seu país e só te resta procurar abrigo.

Além de levar um tombo fiz algumas coisas interessantes estes dias. Vi a exposição de um desenhista muito bom chamado Walton Ford, essa imagem aí de cima é dele, tudo em telas gigantes. Também fui à Filarmônica e vi um concerto clássico lindo, no meio uma performance moderna do Ligeti, o mesmo cara que compôs a música do 2001. Paguei 10 euros e sentei no melhor lugar da casa. Sorte de principiante. Já comi no indiano, no turco, no árabe, tailandês, chinês, alemão, italiano e cozinhei um arroz com peixe só com alho e cebola em casa, numa tentativa de fugir deste tempero todo.O pão aqui é de primeiríssima qualidade e outro dia ouvi um brasileiro dizendo que um dos motivos dele morar aqui era por causa do pão. Teve também as baladas, as pesadas e as leves. Caí num lugar onde as pessoas entram sexta à noite e saem domingo fim de tarde, Panorama. Depois de alguns drinks venenosos de vodka com melância fui levada à força para casa, coisa que detestei na hora mas agradeci muito no dia seguinte. Conheci o mercado de pulgas, os brechós, especialmente um que vende roupa a quilo chamado Garage, as galerias de arte da LinienStrasser e a catedral. Passei por muitas ruas que não sei pronunciar o nome, entrei em muitos cafés, cinemas e mercadinhos de esquina. Também devo confessar, já fui algumas vezes na H&M, garimpar peças de fim de liquidação, o que para mim é fácil, porque ao contrário do Brasil onde as lojas só tem P e M, e o G mais parece um P, as mulheres aqui são grandes, por isso não faltam tamanhos reais nas araras.

É uma cidade moderna, jovem. Se toda a cidade estivesse pixada, não seria algo muito berrante. Exceto na Filarmônica, eu quase não vejo gente mais velha por aqui, parece que todo mundo tem dezessete ou trinta e quatro anos de idade. Talvez seja por issso que eu não tenha gostado de Berlim à primeira vista, ou talvez porque os alemães podem ser bem grossos de vez em quando.

Mas depois de um tempo Berlim parece mais acolhedora e eu já tenho vontade de esticar a viagem. Especialmente porque agora, depois de dias de martírio e pé gelado, encontrei a bota perfeita: é bonita, não escorrega tanto, não aperta, relativamente impermeável, é comprida e deixa o pé aquecido. Se você está lendo este texto num país tropical, estas informações podem não parecer relevantes, mas para mim, foi quase uma guerra encontrar estas botas. As lojas de sapato não estavam preparadas para o frio que fez algumas semanas atrás e o estoque esgotou em poucos dias, em quase todos os lugares. Entrei em quase todas as lojas de sapato da cidade, e depois disso, posso dizer com convicção que meu namorado é o homem mais paciente do mundo. Pelo menos no inverno.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

tema

neva dentro das casas
gavetas
e nos bolsos

neva nas óperas
onde se espera
para tossir
entre uma peça
e outra

neva nos arcos
dos violinos
nas testas
dos operários
do som
neva na fúria
e na doçura
dos meninos
meninas
e nos tolos

nas televisões de plasma
vasos
trilhos
em alguma coxa tenra
de mulher
ave
ou sonho

neva nos pensamentos recorrentes

entre os dentes
no rouge
cílios,
neva neve fresca
no gelo antigo
sujo de lama
e pedregulhos
que a terra rejeita
ou absorve

neva na terra
pelo ar
sobre a água
para o fogo

domingo, 31 de janeiro de 2010

primeiras e terceiras impressões de Berlim

São quase duas da tarde em Treptow e tem um pimpolho assistindo uma versão dublada, em alemão, de Hobin Hood na minha sala. Na janela, cubos de gelo derretem por causa do sol e eles dizem que isso é quase verão por essas bandas.

Eu não vim para cá por causa de nenhum curso, trabalho ou férias, vim, na verdade, conhecer os três filhos do João, meu namorado. Não, ele não é alemão, mas teve a proeza de fazer três filhos aqui. Do menor para o maior: Cauê, Gil e Clara; sete, doze e quinze. Graças a Deus não são nenhuma dessas pestinhas que a gente vê por aí, pelo contrário, mas são crianças, adolescentes e eu ainda não entendi se vim para cá para que eu os aprove ou o contrário. De qualquer forma, a vida de "madrasta" requer uma doze extra de jogo de cintura e afeto, e eu ainda questiono se estou bem preparada para tal.

No primeiro dia eles me fizeram atravessar um canal congelado quando eu ainda estava vestida em botas cauboi. Foi como sair do aeroporto para um gincana: as botas deslizando, o medo do gelo quebrar em baixo de mim e eu afundar como sardinha água abaixo.

Sinceramente, tenho me sentido um pouco velha, ajudando o João a administrar uma adolescente que conhece todos os lugares da moda por aqui, enquanto que eu, há meses longe da solteirice, não caio numa balada mais arrojada. A idade anda me pegando desprevenida, assim como o frio.

Fora isso, o que mais vejo por aqui são turcos, bom, evidente, já que estou hospedada num bairro turco. Os kebabs são maravilhosos, as palmilhas térmicas funcionam, embora deixem a bota um pouco apertada.

O apartamento onde estou, em Berlim oriental, foi construído em 1901, provavelmente para operários morarem. Tem um pé direito altíssimo, palha entre os tijolos e um cômodo gelado para entulhos atrás do banheiro, único lugar sem calefação da casa. Um prédio bem alemão, daqueles que você imaginava na época do muro, pois então, é aqui. Claro que passou por reformas e adaptações e é atualmente um lugar charmoso, onde tenho tomado longos banhos quentes de banheira, sabendo que lá fora neva.

Venho para Berlim achando que é lugar do momento na Europa, enquanto que eles tem certeza que o Brasil é o país do futuro. Engraçado. Ontem encontrei um casal de amigos que conheci por acaso nas ruas de Moscou, ano passado, e que, por acaso, também estão na cidade. Fomos a um concerto. Eles estão indo para o Brasil amanhã, fazer uma mostra de cinema russo na cinemateca.

Atravessar o mundo, às vezes, é como ir até a esquina.

sábado, 23 de janeiro de 2010

set


O set é uma espécie de Vaticano, tem leis próprias que independem do mundo lá fora, uma hierarquia absolutamente necessária, visível e uma espécie de áurea sagrada em volta dele. Quando você está num set todas as outras coisas da sua vida parecem estar fora de foco, nubladas e distantes. E lá dentro você faz coisas como fumar prestando atenção em não mostrar a marca do cigarro, fica atenta na posição dos seus cotovelos antes de desmanchar uma postura, tem olhos em voltas do pescoço, equilibra microfones no sutiã, dá suas falas nos intervalos de aviões, olha para pedaços de fita crepe como se olhasse o horizonte, se equilibra em saltos apertados, almoça com espartilhos ou outros figurinos bizarros, comuns, enfim, cada set é um set, mas em todos você invariavelmente espera e toma café sem parar. Agora tudo isso é perfumaria, porque o que você de fato foi fazer ali é uma coisa maior. É como se você fizesse toda a trilha para Machu Pichu a pé, passasse dias esperando, andando com os pés calejados e uma mochila carregada nas costas, tudo, tudo para chegar no lugar onde a vista é mais bonita e ter cinco minutos de deslumbramento.

Cinema é mais ou menos isso, você espera, ensaia, maquia, espera, entra na luz, sai da luz, espera, retoca a maquiagem, passa o texto, espera, fica imóvel, concentra, perde a concentração, retoma, espera, olha ao redor, respira e finalmente toda aquela parafernália de luz, gente e som silencia para que você possa dar vida a um personagem que nasceu por acaso na cabeça de alguém, talvez numa tarde chuvosa como esta. E nestes poucos minutos em que a cena é o centro do mundo, alguma coisa acontece, uma coisa que eu não sei direito explicar, mas que justifica todo resto.

Eu estive "presa" num set semana passada e por isso não estive aqui, e estive feliz, porque adoro fazer cinema, gosto de toda essa confusão, essa meticulosidade, tudo em volta, quando tudo começa e finalmente termina.

Terça parto para Berlim e volto na quarta-feira de cinzas, que me pareceu um bom dia para marcar a passagem de volta. Parece que é o inverno mais frio dos últimos trinta anos, parece que venta muito. Mas, bom, como já tenho meu casaco da viagem para a Rússia, me sinto um pouco menos apavorada. Se alguém estiver a passeio pela região me avise, vamos falar português e comer algo estranho e apimentado juntos. Menos chucrute. Então tá, escrevo de lá!

Lá em cima na foto, eu e Cynthia Falabella, parceira adorável de cena, no set. A foto é do Ravel Cabra e Jorge, que também acabou passando por lá.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

estrelas


Antigamente férias era um lugar grande, amplo, uma espécie de galpão onde São Paulo cabia vazia num canto e a fazenda Santa Maria ocupava todos os centímetros restantes. Lá onde eu passei quase todos os janeiros da minha infância, torcendo para que o mês de fevereiro daquele ano tivesse mais de vinte e oito dias, e esperando aparentar quatorze anos para não ser barrada no baile de carnaval. Férias era um tempo que durava desde o último sinal da última sexta-feira de aula, até a arrumação dos cadernos na mochila, véspera do primeiro dia. Era um retrato onde meus avós eram velhinhos, mas nem tanto e minha mãe desfilava pelos cômodos como se tivesse acabado de sair de um filme de Eric Romher. Um lugar onde meu pai dormia e acordava com uma raquete de tênis na mão direita e eu vestia as mesmas roupas até encardir. Cada ano que passava era um dente que trocava ou uma nova cicatriz, como uma enorme na coxa direita, mal costurada por algum enfermeiro do posto de saúde de Cafelândia, lembro até hoje dos pontos apertados com linha preta.

Ontem vi um filme onde o Omar Sharif dizia para um menino: “Felicidade é fazer as coisas lentamente.” É o que tenho feito neste mês de janeiro aqui em São Paulo, trabalhado como se o sol batesse nas costas, bem lentamente. Talvez seja só uma reminiscência dos dias que passei no campo. Talvez na primeira semana de março todo este discurso já tenha ido por água abaixo e eu esteja em algum farol da Brasil com a Rebouças, com gotas de suor na testa, maldizendo o sujeito da saveiro da frente, placa de São José dos Campos, que parou no farol amarelo.

Talvez, mas por enquanto, o céu preto com milhões de pontos brancos, espetáculo noturno diário na fazenda da minha infância, pode estar a quatrocentos e cinqüenta quilômetros de distância, não importa, férias é abrir o livro, bem lentamente, e ter tempo para gostar de um poema tão simples como este:


Há estrelas brancas, verdes, azuis, vermelhas.
Há estrelas-peixes, estrelas-pianos, estrelas-meninas,
Estrelas-voadoras, estrelas-flores, estrelas-sabiás.
Há estrelas que vêem, que ouvem,
Outras surdas e outras cegas.
Há muito mais estrelas que máquinas, burgueses e operários:
Quase que só há estrelas.


do Murilo Mendes

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

o novo ano

As pessoas vêm para São Fransisco Xavier descansar e eu para sair das pequenas encrencas nas quais me meto. No primeiro dia fui ao hospital da cidade para saber se a topada que dei no pé era uma contusão, fratura ou luxação. Era contusão. No segundo dia fui novamente à cidade atrás de um borracheiro para o pneu furado. No terceiro e presente dia, tenho de correr atrás do meu celular que, ou bem ficou esquecido na lojinha de verduras ou se perdeu na ribanceira da casa de um amigo, mesmo lugar onde deixei cair uma garrafa de vinho tinto retinto no tapete novo de algodão branco da sala. Problemas de caráter ameno, doméstico, mas que acabam atormentando meus dias de descanso.

Um grande feito da viagem é a vinda de Romit, meu gato. Como já mencionei anteriormente, Romit é um gato peculiar que ganhei de um cigano lá de Santo André, tem asma, uma orelha quebrada e mia como uma coruja quando cisma de. A questão é que eu não agüento mais sair de São Paulo e deixá-lo trancado no apartamento, sozinho, dependendo das visitas do zelador para se comunicar com o mundo. Toda vez que volto são necessários mais ou menos quinze dias para que ele se recupere da minha ausência. É possível que você esteja pensando “Puta gato chato, se livra logo dele.” Sim, ele de fato é um tanto quanto chato, mas é meu, e não é justo pegar um bicho para criar e fazê-lo infeliz, ou qualquer que seja o adjetivo para denominar um animal judiado. Por isso decidi trazer o Romit para São Fransisco Xavier, e contrariando as expectativas dos especialistas de que ele se meteria embaixo da cama e não sairia mais, ou sairia correndo atrás de um passarinho e se perderia na mata, meu gato está feliz como nunca. Passa o dia estendido no terraço, corre atrás de insetos, volta para fazer suas refeições e dormir no tapete. A asma quase desapareceu e ele parou de miar. Já se vão mais de três anos e só agora descubro que o bicho que mora comigo não é um gato de apartamento como eu pensava, e sim um bom selvagem, adepto a vida do campo e suas vicissitudes.

Romit certamente tem se adaptado melhor do que eu ao ambiente rural, mas não perco a esperança de ainda ter um dia inteiro para mim, na rede, sem ter que resolver nada além da escolha do sabor do bolo que vou assar depois do almoço, se vai ter carne ou peixe no jantar ou se tomo banho de ducha ou rio.

Eu iria ao cinema se estivesse em São Paulo, a um mercado turco se estivesse em Istambul, a nenhum lugar se fizesse o frio de Moscou ou a ponte Pênsil se morasse em Piracicaba. Daqui onde me encontro vou ajeitar oferendas para Iemanjá, tentar terminar o livro que comecei seis meses atrás e esperar o novo ano, que além de ser só mais um, vai ser um grande ano para todos nós.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natal




Em cima do piano tem um grande presépio que minha avó monta todo ano. Do lado um estojo com pedaçinhos de palha. Quando eu era bem pequena esmigalhava meu pensamento para encontrar alguma boa ação para fazer e poder colocar uma palhinha na cama do menino Jesus. Essa era a condição, fazer uma boa ação e ter direito a colaborar com o colchão do aniversariante. As opções eram poucas: ser obediente, ajudar a lavar a louça no domingo, deixar alguma prima dormir com minha boneca predileta. Essas coisas. Outra dia fui na casa da minha avó e botei uma palhinha no presépio. Não fiz nenhuma boa ação, porque pensando bem, viver dignamente já é uma bela de uma boa ação.

Não foi um ano fácil, nem glorioso, mas foi um ano maduro. Tenho a sensação de ter plantado mais do que colhido, mas os poucos frutos que deram, tiveram um sabor diferente, um gosto espesso, cores saturadas. As coisas não param de acontecer, as boas e as ruins. Essa foi uma descoberta de 2009, coisas boas e ruins podem acontecer ao mesmo tempo e na mesma intensidade. O natal já significou muitas coisas para mim, uma sacola de presentes, comidas que não acabam mais, ensaios para as montagens dos autos-natalinos ao lado dos meus primos Pedro e Nando, porres de vinho tinto, baladas depois da missa do galo, enfim, é uma pilha de coisa que venho sentindo ao longo dos anos.

Hoje o que eu mais gosto é quando passo o olho na minha agenda e começo a ligar para as pessoas que fazem meu coração esquentar quando penso nelas, e como se o mundo fosse acabar amanhã, tenho vontade de falar com todas. Também adoro quando aqueles amigos que eu vejo pouco durante o ano me telefonam saudosos, emocionados. E nunca deixo de olhar para a cara da minha avó Flora quando começam a cantar Noite Feliz, porque é como se ela estivesse cantando parabéns para o próprio filho.

Hoje trombei com um cara no trânsito e vi que ele queria me xingar por causa de alguma barberagem que fiz, vi ele segurando um palavrão na ponta da língua. Deve ter pensado “Porra, hoje é natal e eu não posso xingar essa filha da puta.” Eu vi todo o pensamento acontecer dentro dele, foi engraçado. Eu sei que tudo isso faz parte de um espírito natalino arranjado de última hora, de uma catarse coletiva incentivada pelo consumo, de valores que deveriam perdurar durante o ano todo e não perduram etc e tal. Mas eu gosto mesmo assim, da noite de natal.

Logo mais vou visitar o Marião no hospital, depois minha avó Dorina, que também está internada. E depois meu avô Alex, que não consegue visitar minha avó no Oswaldo Cruz porque tem medo que os médicos resolvam internar ele também. E aí corro para a ceia da minha outra avó, louca para ver minha sobrinha, Micaella, a coisa mais tenra e linda deste mundo. Essas coisas ocupam um lugar gigante na minha memória, cada cara esquisita que ela faz. Os que vêm depois de nós, são sempre uma versão melhorada. Hoje tive certeza disso, vendo minha irmã caçula tocar uma valsa húngara no Piano depois de quatro meses de aula.

Para todos aqueles que têm vindo a este modesto, porém honesto e acolhedor como uma manjedoura, espaço virtual, o meu caloroso Feliz Natal, seja lá o que ele signifique para você.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

decupagem

Acordo.
Penso em sair da cama.
Desisto.
Lembro da aula. O trânsito até o Itaim.
Desisto.
Durmo mais um pouco.
Sonho com uma piscina rasa.
Policiais.
E lobos.
Desta vez levanto.
Tomo café preto com adoçante.
Lembro das reportagens sobre aspartame.
Estico os lençóis.
Sinto cheiro de alecrim.
Ácido láctico.
E o forno a lenha na pizzaria da frente.
Ligo o computador.
Tomo banho.
Sinto fome.
Ligo no banco.
Desisto.
Ligo de novo. Pago o aluguel.
Pergunto sobre o sorteio de vinte mil.
Não ganhei.
Lembro da peça para produzir. Almoço.
Compro um biquíni de bolinhas brancas.
Converso com a atendente sobre estampas.
Lembro do delegado.
Ligo para o delegado.
Respondo telefonemas. Pego trânsito. Tenho muito sono.
Arrasto até a lavanderia.
Volto para casa. Tento dormir. O telefone toca.
Desisto.
Decoro um pedaço do texto.
O sono não passa.
Lavo o rosto.
Penso na peça para produzir. No pêlo do gato que cai no tapete.
Empilho jornais.
Penteio o gato.
Começo a ler as notícias de anteontem.
Largo as notícias.
Olho no espelho.
Separo as contas de luz das de gás. Fico feliz.
Sonho com um lugar morno, macio, fresco nas extremidades.
Uma duna.
A polícia chega para me buscar.
Imagino a vizinha na janela. Eu na viatura.
Chego na delegacia. Olho fotos. Suspeitos.
Sitiada de dúvidas.
Canso.
Trânsito.
Tenho fome de novo.
Sempre tenho fome de novo.
Como. Bebo. Como. Paro.
Coloco os cotovelos na mesa.
As mãos na testa.
Os dedos nos olhos.
Fecho.
Abro os olhos.
Falo alguma coisa.
Sobre a mesma coisa.
Desisto.
Vejo uma estrada no final da rua.
Corro.
Entro no carro.
Tiro os sapatos. Dirijo com as solas no pedal. Beijo ele.
Olho insetos na luz do poste antes do dia clarear.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

HOJE

Ontem fui passar o batom e me dei conta de que há uma semana não me maquiava. A última vez que isso aconteceu foi quando passei uma semana no hospital por conta de uma apendicite. Eu sei que desde o sábado passado, às 5:30 da manhã, o mundo tem rodado de um jeito esquisito para muita gente. Mas agora, com nosso querido amigo sentado, desentubado, mau humorado e com sede, nós podemos tentar voltar a normalidade. Tudo está caminhando bem é importante a ajuda de todos:


Estamos organizando uma Expo-Leilão na sexta feira com verba revertida para custos do tratamento do Mário.
E faremos a última apresentação do ano de "Brutal" a meia noite, com verba também destinada ao tratamento do nosso querido.
Quem quiser ajudar diretamente, segue dados bancários da família para contribuições: Cristiane do Carmo Viana Banco Unibanco Agência: 0935 Conta Poupança: 127721-6. CPF da Cris é 004.957.939-81. A direção de Santa Casa também está necessitando de doadores de sangue que devem se dirigir à própria entidade situada à rua Cesário Motta Jr, 112- Vila Buarque. Por favor, ajudem a divulgar esse ato. Neste momento, qualquer ajuda é preciosa.





APAREÇAM!

domingo, 6 de dezembro de 2009

Mário

Entraram no castelo e atiraram no coração do rei. Mas o rei é forte, e está se recuperando.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Caro tataravô Maximilian,

É uma pena não termos nos conhecido, mas onde quer que você esteja, ou não, já deve ter percebido que minha constituição portuguesa não deixou nenhum espaço para que qualquer resquício da minha ascendência alemã pudesse se manifestar.

Ontem fui a praça da Sé e como sempre parei para admirar a Catedral que o senhor projetou. Confesso que me sinto um tanto importante quando passeio pelas ruas do centro e penso que sou tataraneta do homem que construiu a Catedral da cidade. Tive até vontade de contar para uma das moças que me atendeu no PoupaTempo, mas acho que ela ficaria mais animada se eu dissesse que era prima da prima da irmã, da última vencedora do Big Brother Brasil. O senhor nem imagina o que é um reality show, e é bom que nem imagine mesmo.

Outro dia li uns artigos sobre sua obra arquitetônica, que foi bastante criticada por ser uma mistura de muitos estilos e não ter estilo nenhum; acho que era isso que dizia o crítico. Já eu vovô, adoro ver aquela cúpula verde dos vários pontos de São Paulo e sei de muita gente que gosta também. Te juro, Max, gostaria de colocar o sujeito que inventou o nome PoupaTempo, para passar o dia olhando um painel de senhas como eu passei. Aí sim, eu queria ver se ele não se sentiria ridículo por ter escolhido um nome tão infame e enganoso. Sete horas de fila para renovar uma habilitação, acredita? E eu sem nenhum livro, jornal, ou terço para rezar. Falando em terço, bom, o senhor já deve saber que minha tia avó, sua neta Alba, morreu sábado passado. Ela sempre me mandou cartas do convento onde morava, as quais eu respondia com imensa alegria no coração. Já foi em algum enterro de freira Max? É leve, bonito, para elas, que rezam a vida toda para encontrar Deus, a morte é um momento sublime. Foi o que me pareceu, quando as outras freiras colocaram nela o manto branco de festa. Pois é, as pessoas se vão para algum lugar neutro, pior ou melhor do que aqui, e nós ficamos com a árdua tarefa de pensar sobre nossa finitude.

Sabe que ela morreu num sábado e vovó me disse com grande entusiasmo que Tia Alba tinha usado um escapulário a vida toda e que Nossa Senhora do Carmo prometeu que quem o usasse e morresse em estado de graça, ela viria buscar no primeiro sábado depois da morte. Minha avó, irmã de Tia Alba, estava feliz porque já que ela tinha morrido num sábado, nem precisaria esperar muito. Ela estava triste também, o que me deixou de coração partido. As pessoas que foram no enterro, lá no Carmelo de Cotia, consideravam Tia Alba uma espécie de santa e vinham de todos os lugares passar objetos em seu corpo, tirar fotos e deixar mensagens em seu caixão. Me senti numa pequena procissão em terra santa. Eu mesma, fui até o corpo e coloquei minha mão em cima da dela. Não sei se foi a ocasião, o calor, ou o quê, mas senti uma tontura e formigamento dos pés a cabeça. Uma sensação forte, sem nome. Talvez ela seja mesmo uma santa.

Saudades.

No mais a vida, que vive entrando e saindo dos eixos. Caro Max, talvez não exista nada além do pó, ou talvez o senhor seja um arquiteto de nuvens, nomeado por Deus e tenha os tetos de suas obras celestes pintados por Michelângelo. Ou então, o senhor é uma dessas almas que pairam sobre a órbita terrestre rindo de uns e ajudando outros. Caso seja este o caso, dê uma força aqui para sua tataraneta, porque este final de ano, vou te contar, está bravo. Talvez você me diga o mesmo que vive me dizendo meu pai, toda vez que reclamo da grana. "É filha, eu te falei que você estava escolhendo uma profissão difícil." A questão Maximilian, é que eu não escolhi esta profissão, foi ela que me escolheu. Eu sei, pode parecer uma resposta excessivamente poética e clichê, mas é a pura verdade. Por isso me ajude a encontrar algum trabalho, além dos meus milhares de projetos pessoais ainda não remunerados. Algo para cobrir o final de 2009 e começo de 2010, seja atuando, escrevendo ou pintando rodapés. Isso se o senhor estiver sem muito o que fazer por aí. De qualquer forma é estranho estar no mundo e é bom ter tido a ideia de escrever para o senhor.

Te mando um grande beijo,
da sua quarta geração,
de sangue e aspirações,

Martha

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Vá ao teatro,

mas não me convide. Não é a toa que as pessoas adoram jogar essa frase na nossa cara quando as convidamos para assistirem uma peça. Eu já falei aqui e repito, pessoas de teatro podem ser muito inconvenientes.

Outro dia a Marina, minha irmã caçula, mais conhecida como O Blim, por motivos que não tenho tempo de explicar agora, enfim, O Blim estava atravessando a Avenida Paulista para ir ao cinema.

Era uma tarde qualquer e minha irmã, que descobriu recentemente que a faculdade que ela esta fazendo não é exatamente o que ela quer fazer, estava matando aula. Um pouco sensível, talvez uma TPM. O Blim atravessou correndo o farol do Conjunto Nacional para não ficar presa na ilha e estava prestes a entrar no Bristol quando ouviu pelas costas a frase que tenho pavor de ouvir.

-Gosta de teatro?

O Blim gentilmente respondeu.
-Gosto. Tenho até uma irmã atriz.
-Que ótimo, então não quer colaborar com a nossa campanha do
Vá ao teatro?

O moço tanto fez que convenceu Marina a preencher uma ficha e desembolsar trinta e cinco reais para assinar a tal da revista. Quando o Blim pegou o formulário nas mãos, já sabia que estava se metendo numa roubada, mas não teve coragem de pular fora, porque pelo entusiasmo do sujeito ela devia ser a única do dia a cair naquela conversa. Aquela seria a boa ação do semestre, só que a coisa piorou quando ela descobriu que só tinha um cartão de débito na carteira.

-E agora, acho que vamos ter que deixar para uma próxima...


Mas o moço rapidamente tirou uma solução da cartola.

-Vamos fazer o seguinte, eu e meu amigo tamo com fome, a senhora acompanha a gente no Mac, paga nosso lanche e a gente deposita depois o seu dinheiro com a ficha no banco.
-Ah tá, então vamos.


Naquela altura, realmente, nada poderia reverter o absurdo da situação. O Blim entrou na fila e eles se fartaram com tudo que tinham direito. Dos lanches aos Nuggets, dos sundaes às fritas. A conta deu trinta e oito reais.

-A senhora não se incomoda de pagar três reais a mais, né?
-Imagina, tô aqui mesmo.


Fiquei chocada com a cara de pau deles e ela me disse depois: "Martha, eu tava achando aquilo tão surreal, já tinha perdido meu cinema, que resolvi que era aquilo mesmo que tava acontecendo e eu não ia contrariar."

Depois ela me mostrou os benefícios do negócio que tinha feito; ingressos para "As Encalhadas", peças espíritas e outras comédias ordinárias.

-Acho que vou tentar "As Encalhadas", da Bibi Ferreira, o que você acha?
-Sei lá Blim, acho que é uma questão de honra, agora você vai ao teatro.
-Tem também um desconto para comer no Piolim, conhece esse lugar.
-Ah legal, conheço, de quanto é o desconto, cinquenta porcento?
-Não, dez.
-É Marina, realmente, você foi uma presa fácil.


Lembrei que dez anos atrás, sem querer e tentando ajudar uma moça a conseguir bolsa na faculdade, fiz uma assinatura de um ano da revista Gula. É a velha história, "me passa o número do seu cartão, só para a gente te dar um brinde" e quando você vê, está dividindo o prejuízo em doze parcelas. Toda vez que aquela revista chegava eu ficava puta por ter sido enganada e principalmente por estar de regime e não poder usufruir das receitas.

Só espero que O Blim não fique com o mesmo sentimento em relação ao teatro. Prometo que te dou convite para a próxima, tá?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Rehab

É impressionante como acompanhar uma novela pode fazer com que você compreenda e participe de conversas para as quais nunca foi chamada antes.

Faz três anos que moro sozinha, dois deles sem televisão. Eu tinha uma antena que comprei na loja de construção aqui do bairro, cheguei a colocar bombril na ponta dela, mas a imagem nunca deixou de ser dupla. Então eu nunca mais tinha visto tv e vivia bem assim. Até o belo dia que liguei para resolver um problema na internet e a moça me convenceu de que eu estaria fazendo um excelente negócio se adquirisse o Combo Triplo.

No começo eles te dão todos os canais para você pegar gosto, depois vão tirando, aos poucos, um telecine aqui, uma gnt ali, e quando você vê, está apenas com o Animal Planet e a Universal pegando, já que o meu Combo é dos mais vagabundos. Isso quer dizer que posso escolher entre o Law and Order ou os programas de redecoração de casas de casais em crise.

Eu acabei descobrindo o poder analgésico, desinflamatório e aparentemente adstringente das novelas. Sim, eu deito no sofá, fecho as cortinas, ligo a TV e me torno, durante algumas horas uma espécie de ameba, esponja marítima, uma cadeia de aminoácidos primitivos. O mundo vai se distanciando, o corpo amolecendo e aquela voz padrão dos atores e locutores da Rede Globo vai agindo como uma espécie de mantra no meu cérebro.

No começo tudo bem, eu pensei, porque se existe no mundo alguma coisa que faça desacelerar o meu pensamento por alguns instantes e não cause danos irreversíveis nos meus neurônios, por que não fazer uso dela? Acontece que com essa desculpa, "Preciso descansar a cabeça", eu me viciei. Quando vi, estava assistindo o fim da novela das seis, o meio da das sete e a das oito inteirinha, inclusive comerciais. Claro, não é toda vez que estou em casa dando sopa nesse horário, porque afinal, apesar do meu novo vício, continuo sendo uma moça muito trabalhadora.

Mas eu não tenho certeza se quero realmente entender e fazer parte do diálogo da maioria. É que quando você acompanha uma novela, percebe que aqueles nomes que as pessoas viviam falando no elevador, na aula de ginástica, no balcão da padaria, nomes como Helena, Marcos, Luciana, Tereza, não se referiam a parentes ou amigos das pessoas que os pronunciavam, você descobre, que aqueles nomes todos sempre foram nomes dos personagens das novelas que você nunca assistiu. Só que agora você assiste, e pior, você agora não só entende o que as pessoas estão falando, como também opina, defende um, xinga outro e descobre que na verdade, o público não quer ser surpreendido, já que as revistas especializadas contam quase a novela toda antes dela começar. O público quer virar uma ameba depois do trabalho e ter assunto para o dia seguinte, basicamente isso. Não pega bem , eu sei, tornar pública a condição na qual me encontro, é horrível mesmo, fico olhando para os meus livros e pedindo que eles me resgatem dessa areia movediça que é a tele-dramaturgia. Espero ansiosa que eles me lancem um pedaço de cabide ou corda na qual eu possa me segurar, e assim que isso acontecer, juro, caio fora dessa lama e volto a não ter assunto com as ascensoristas.



(Eu e meus livros, agora empoeirados.)

sábado, 14 de novembro de 2009

a vista daqui, que a gente tem de lá

Perto do fim do ano parece que uma ressaca emenda na outra. Ressaca do álcool, do apagão, do calor, das notícias. Por isso decidi viajar e fugir das dezenas de festas que insistem em acontecer sempre que eu resolvo sair da cidade. Eu vou mesmo assim, acumular uns créditos para as futuras ressacas, (que ando em débito comigo mesma) e ver se a distância, São Paulo parece menos espinhosa.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

É uma locução, mas parece um poema e

fazia tempo que eu não via um tão bonito. Deus, tudo bem, se eu não puder fazer todas coisas que faço tão bem quanto o jogador, que eu pelo menos faça com a emoção deste locutor.

relato radiofônico de Victor Hugo Morales, copa do México de 86

Lá vai passar para Diego
aí a tem Maradona
dois o marcam
pisa na bola Maradona
arranca pela direita o gênio do futebol mundial
e deixa os adversários para trás
e vai passar para Burruchaga
sempre Maradona
gênio gênio gênio
ta ta ta ta
gooool goool
quero chorar
Deus santo viva o futebol
golaaaço
diegoool
Maradona é para chorar perdoem-me
Maradona, em uma corrida memorável
na jogada de todos os tempos
barrilete cósmico
de qual planeta vem?
para deixar no caminho tanto inglês
para que o país seja um punho apertado
gritando por Argentina
Argentina 2 Inglaterra 0
diegol diegol
Diego Armando Maradona
obrigada Deus pelo futebol, por Maradona
por estas lágrimas
por este Argentina 2 Inglaterra 0

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

se você me ama, por que não se concentra?


foto de Carlos Bozelli

Não, não é um recado. É que hoje fui ver "Pixo" do João Wainer e Roberto P. Oliveira e lembrei desse muro que pixei com o poema da Ana Cristina Cesar. Ideia da Fernanda, que gritava em plenos pulmões "Corta! porque junto na interrogação, erro crasso da língua portuguesa, Martha!". E lá ia eu com a lata de tinta branca, repintar o muro pela terceira vez. Eu sabia disso, sabia o poema de cor, das regras gramaticais, mas na hora saía errado. O sol rebatendo no branco do muro, o nervoso, a válvula emperrada do spray, o take único. Nunca diga para um ator que o take é único, melhor falar que é ensaio que ele vai acertar. Nesse dia descobri que é muito difícil pixar um muro, pixar com categoria. Hoje, assistindo o filme, descobri outras coisas. Vale a pena ver, é um puta filme triste, bonito, vivo, você certamente nunca mais vai olhar uma pixação com os mesmos olhos. Anarquia era só uma palavra a léguas de distância e eu lembrei porque só consegui pixar direito aquele poema na hora em que a Fernanda disse "Abre o quadro Edinho, a gente tá prendendo ela..."