terça-feira, 29 de dezembro de 2009

o novo ano

As pessoas vêm para São Fransisco Xavier descansar e eu para sair das pequenas encrencas nas quais me meto. No primeiro dia fui ao hospital da cidade para saber se a topada que dei no pé era uma contusão, fratura ou luxação. Era contusão. No segundo dia fui novamente à cidade atrás de um borracheiro para o pneu furado. No terceiro e presente dia, tenho de correr atrás do meu celular que, ou bem ficou esquecido na lojinha de verduras ou se perdeu na ribanceira da casa de um amigo, mesmo lugar onde deixei cair uma garrafa de vinho tinto retinto no tapete novo de algodão branco da sala. Problemas de caráter ameno, doméstico, mas que acabam atormentando meus dias de descanso.

Um grande feito da viagem é a vinda de Romit, meu gato. Como já mencionei anteriormente, Romit é um gato peculiar que ganhei de um cigano lá de Santo André, tem asma, uma orelha quebrada e mia como uma coruja quando cisma de. A questão é que eu não agüento mais sair de São Paulo e deixá-lo trancado no apartamento, sozinho, dependendo das visitas do zelador para se comunicar com o mundo. Toda vez que volto são necessários mais ou menos quinze dias para que ele se recupere da minha ausência. É possível que você esteja pensando “Puta gato chato, se livra logo dele.” Sim, ele de fato é um tanto quanto chato, mas é meu, e não é justo pegar um bicho para criar e fazê-lo infeliz, ou qualquer que seja o adjetivo para denominar um animal judiado. Por isso decidi trazer o Romit para São Fransisco Xavier, e contrariando as expectativas dos especialistas de que ele se meteria embaixo da cama e não sairia mais, ou sairia correndo atrás de um passarinho e se perderia na mata, meu gato está feliz como nunca. Passa o dia estendido no terraço, corre atrás de insetos, volta para fazer suas refeições e dormir no tapete. A asma quase desapareceu e ele parou de miar. Já se vão mais de três anos e só agora descubro que o bicho que mora comigo não é um gato de apartamento como eu pensava, e sim um bom selvagem, adepto a vida do campo e suas vicissitudes.

Romit certamente tem se adaptado melhor do que eu ao ambiente rural, mas não perco a esperança de ainda ter um dia inteiro para mim, na rede, sem ter que resolver nada além da escolha do sabor do bolo que vou assar depois do almoço, se vai ter carne ou peixe no jantar ou se tomo banho de ducha ou rio.

Eu iria ao cinema se estivesse em São Paulo, a um mercado turco se estivesse em Istambul, a nenhum lugar se fizesse o frio de Moscou ou a ponte Pênsil se morasse em Piracicaba. Daqui onde me encontro vou ajeitar oferendas para Iemanjá, tentar terminar o livro que comecei seis meses atrás e esperar o novo ano, que além de ser só mais um, vai ser um grande ano para todos nós.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Feliz Natal




Em cima do piano tem um grande presépio que minha avó monta todo ano. Do lado um estojo com pedaçinhos de palha. Quando eu era bem pequena esmigalhava meu pensamento para encontrar alguma boa ação para fazer e poder colocar uma palhinha na cama do menino Jesus. Essa era a condição, fazer uma boa ação e ter direito a colaborar com o colchão do aniversariante. As opções eram poucas: ser obediente, ajudar a lavar a louça no domingo, deixar alguma prima dormir com minha boneca predileta. Essas coisas. Outra dia fui na casa da minha avó e botei uma palhinha no presépio. Não fiz nenhuma boa ação, porque pensando bem, viver dignamente já é uma bela de uma boa ação.

Não foi um ano fácil, nem glorioso, mas foi um ano maduro. Tenho a sensação de ter plantado mais do que colhido, mas os poucos frutos que deram, tiveram um sabor diferente, um gosto espesso, cores saturadas. As coisas não param de acontecer, as boas e as ruins. Essa foi uma descoberta de 2009, coisas boas e ruins podem acontecer ao mesmo tempo e na mesma intensidade. O natal já significou muitas coisas para mim, uma sacola de presentes, comidas que não acabam mais, ensaios para as montagens dos autos-natalinos ao lado dos meus primos Pedro e Nando, porres de vinho tinto, baladas depois da missa do galo, enfim, é uma pilha de coisa que venho sentindo ao longo dos anos.

Hoje o que eu mais gosto é quando passo o olho na minha agenda e começo a ligar para as pessoas que fazem meu coração esquentar quando penso nelas, e como se o mundo fosse acabar amanhã, tenho vontade de falar com todas. Também adoro quando aqueles amigos que eu vejo pouco durante o ano me telefonam saudosos, emocionados. E nunca deixo de olhar para a cara da minha avó Flora quando começam a cantar Noite Feliz, porque é como se ela estivesse cantando parabéns para o próprio filho.

Hoje trombei com um cara no trânsito e vi que ele queria me xingar por causa de alguma barberagem que fiz, vi ele segurando um palavrão na ponta da língua. Deve ter pensado “Porra, hoje é natal e eu não posso xingar essa filha da puta.” Eu vi todo o pensamento acontecer dentro dele, foi engraçado. Eu sei que tudo isso faz parte de um espírito natalino arranjado de última hora, de uma catarse coletiva incentivada pelo consumo, de valores que deveriam perdurar durante o ano todo e não perduram etc e tal. Mas eu gosto mesmo assim, da noite de natal.

Logo mais vou visitar o Marião no hospital, depois minha avó Dorina, que também está internada. E depois meu avô Alex, que não consegue visitar minha avó no Oswaldo Cruz porque tem medo que os médicos resolvam internar ele também. E aí corro para a ceia da minha outra avó, louca para ver minha sobrinha, Micaella, a coisa mais tenra e linda deste mundo. Essas coisas ocupam um lugar gigante na minha memória, cada cara esquisita que ela faz. Os que vêm depois de nós, são sempre uma versão melhorada. Hoje tive certeza disso, vendo minha irmã caçula tocar uma valsa húngara no Piano depois de quatro meses de aula.

Para todos aqueles que têm vindo a este modesto, porém honesto e acolhedor como uma manjedoura, espaço virtual, o meu caloroso Feliz Natal, seja lá o que ele signifique para você.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

decupagem

Acordo.
Penso em sair da cama.
Desisto.
Lembro da aula. O trânsito até o Itaim.
Desisto.
Durmo mais um pouco.
Sonho com uma piscina rasa.
Policiais.
E lobos.
Desta vez levanto.
Tomo café preto com adoçante.
Lembro das reportagens sobre aspartame.
Estico os lençóis.
Sinto cheiro de alecrim.
Ácido láctico.
E o forno a lenha na pizzaria da frente.
Ligo o computador.
Tomo banho.
Sinto fome.
Ligo no banco.
Desisto.
Ligo de novo. Pago o aluguel.
Pergunto sobre o sorteio de vinte mil.
Não ganhei.
Lembro da peça para produzir. Almoço.
Compro um biquíni de bolinhas brancas.
Converso com a atendente sobre estampas.
Lembro do delegado.
Ligo para o delegado.
Respondo telefonemas. Pego trânsito. Tenho muito sono.
Arrasto até a lavanderia.
Volto para casa. Tento dormir. O telefone toca.
Desisto.
Decoro um pedaço do texto.
O sono não passa.
Lavo o rosto.
Penso na peça para produzir. No pêlo do gato que cai no tapete.
Empilho jornais.
Penteio o gato.
Começo a ler as notícias de anteontem.
Largo as notícias.
Olho no espelho.
Separo as contas de luz das de gás. Fico feliz.
Sonho com um lugar morno, macio, fresco nas extremidades.
Uma duna.
A polícia chega para me buscar.
Imagino a vizinha na janela. Eu na viatura.
Chego na delegacia. Olho fotos. Suspeitos.
Sitiada de dúvidas.
Canso.
Trânsito.
Tenho fome de novo.
Sempre tenho fome de novo.
Como. Bebo. Como. Paro.
Coloco os cotovelos na mesa.
As mãos na testa.
Os dedos nos olhos.
Fecho.
Abro os olhos.
Falo alguma coisa.
Sobre a mesma coisa.
Desisto.
Vejo uma estrada no final da rua.
Corro.
Entro no carro.
Tiro os sapatos. Dirijo com as solas no pedal. Beijo ele.
Olho insetos na luz do poste antes do dia clarear.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

HOJE

Ontem fui passar o batom e me dei conta de que há uma semana não me maquiava. A última vez que isso aconteceu foi quando passei uma semana no hospital por conta de uma apendicite. Eu sei que desde o sábado passado, às 5:30 da manhã, o mundo tem rodado de um jeito esquisito para muita gente. Mas agora, com nosso querido amigo sentado, desentubado, mau humorado e com sede, nós podemos tentar voltar a normalidade. Tudo está caminhando bem é importante a ajuda de todos:


Estamos organizando uma Expo-Leilão na sexta feira com verba revertida para custos do tratamento do Mário.
E faremos a última apresentação do ano de "Brutal" a meia noite, com verba também destinada ao tratamento do nosso querido.
Quem quiser ajudar diretamente, segue dados bancários da família para contribuições: Cristiane do Carmo Viana Banco Unibanco Agência: 0935 Conta Poupança: 127721-6. CPF da Cris é 004.957.939-81. A direção de Santa Casa também está necessitando de doadores de sangue que devem se dirigir à própria entidade situada à rua Cesário Motta Jr, 112- Vila Buarque. Por favor, ajudem a divulgar esse ato. Neste momento, qualquer ajuda é preciosa.





APAREÇAM!

domingo, 6 de dezembro de 2009

Mário

Entraram no castelo e atiraram no coração do rei. Mas o rei é forte, e está se recuperando.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Caro tataravô Maximilian,

É uma pena não termos nos conhecido, mas onde quer que você esteja, ou não, já deve ter percebido que minha constituição portuguesa não deixou nenhum espaço para que qualquer resquício da minha ascendência alemã pudesse se manifestar.

Ontem fui a praça da Sé e como sempre parei para admirar a Catedral que o senhor projetou. Confesso que me sinto um tanto importante quando passeio pelas ruas do centro e penso que sou tataraneta do homem que construiu a Catedral da cidade. Tive até vontade de contar para uma das moças que me atendeu no PoupaTempo, mas acho que ela ficaria mais animada se eu dissesse que era prima da prima da irmã, da última vencedora do Big Brother Brasil. O senhor nem imagina o que é um reality show, e é bom que nem imagine mesmo.

Outro dia li uns artigos sobre sua obra arquitetônica, que foi bastante criticada por ser uma mistura de muitos estilos e não ter estilo nenhum; acho que era isso que dizia o crítico. Já eu vovô, adoro ver aquela cúpula verde dos vários pontos de São Paulo e sei de muita gente que gosta também. Te juro, Max, gostaria de colocar o sujeito que inventou o nome PoupaTempo, para passar o dia olhando um painel de senhas como eu passei. Aí sim, eu queria ver se ele não se sentiria ridículo por ter escolhido um nome tão infame e enganoso. Sete horas de fila para renovar uma habilitação, acredita? E eu sem nenhum livro, jornal, ou terço para rezar. Falando em terço, bom, o senhor já deve saber que minha tia avó, sua neta Alba, morreu sábado passado. Ela sempre me mandou cartas do convento onde morava, as quais eu respondia com imensa alegria no coração. Já foi em algum enterro de freira Max? É leve, bonito, para elas, que rezam a vida toda para encontrar Deus, a morte é um momento sublime. Foi o que me pareceu, quando as outras freiras colocaram nela o manto branco de festa. Pois é, as pessoas se vão para algum lugar neutro, pior ou melhor do que aqui, e nós ficamos com a árdua tarefa de pensar sobre nossa finitude.

Sabe que ela morreu num sábado e vovó me disse com grande entusiasmo que Tia Alba tinha usado um escapulário a vida toda e que Nossa Senhora do Carmo prometeu que quem o usasse e morresse em estado de graça, ela viria buscar no primeiro sábado depois da morte. Minha avó, irmã de Tia Alba, estava feliz porque já que ela tinha morrido num sábado, nem precisaria esperar muito. Ela estava triste também, o que me deixou de coração partido. As pessoas que foram no enterro, lá no Carmelo de Cotia, consideravam Tia Alba uma espécie de santa e vinham de todos os lugares passar objetos em seu corpo, tirar fotos e deixar mensagens em seu caixão. Me senti numa pequena procissão em terra santa. Eu mesma, fui até o corpo e coloquei minha mão em cima da dela. Não sei se foi a ocasião, o calor, ou o quê, mas senti uma tontura e formigamento dos pés a cabeça. Uma sensação forte, sem nome. Talvez ela seja mesmo uma santa.

Saudades.

No mais a vida, que vive entrando e saindo dos eixos. Caro Max, talvez não exista nada além do pó, ou talvez o senhor seja um arquiteto de nuvens, nomeado por Deus e tenha os tetos de suas obras celestes pintados por Michelângelo. Ou então, o senhor é uma dessas almas que pairam sobre a órbita terrestre rindo de uns e ajudando outros. Caso seja este o caso, dê uma força aqui para sua tataraneta, porque este final de ano, vou te contar, está bravo. Talvez você me diga o mesmo que vive me dizendo meu pai, toda vez que reclamo da grana. "É filha, eu te falei que você estava escolhendo uma profissão difícil." A questão Maximilian, é que eu não escolhi esta profissão, foi ela que me escolheu. Eu sei, pode parecer uma resposta excessivamente poética e clichê, mas é a pura verdade. Por isso me ajude a encontrar algum trabalho, além dos meus milhares de projetos pessoais ainda não remunerados. Algo para cobrir o final de 2009 e começo de 2010, seja atuando, escrevendo ou pintando rodapés. Isso se o senhor estiver sem muito o que fazer por aí. De qualquer forma é estranho estar no mundo e é bom ter tido a ideia de escrever para o senhor.

Te mando um grande beijo,
da sua quarta geração,
de sangue e aspirações,

Martha

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Vá ao teatro,

mas não me convide. Não é a toa que as pessoas adoram jogar essa frase na nossa cara quando as convidamos para assistirem uma peça. Eu já falei aqui e repito, pessoas de teatro podem ser muito inconvenientes.

Outro dia a Marina, minha irmã caçula, mais conhecida como O Blim, por motivos que não tenho tempo de explicar agora, enfim, O Blim estava atravessando a Avenida Paulista para ir ao cinema.

Era uma tarde qualquer e minha irmã, que descobriu recentemente que a faculdade que ela esta fazendo não é exatamente o que ela quer fazer, estava matando aula. Um pouco sensível, talvez uma TPM. O Blim atravessou correndo o farol do Conjunto Nacional para não ficar presa na ilha e estava prestes a entrar no Bristol quando ouviu pelas costas a frase que tenho pavor de ouvir.

-Gosta de teatro?

O Blim gentilmente respondeu.
-Gosto. Tenho até uma irmã atriz.
-Que ótimo, então não quer colaborar com a nossa campanha do
Vá ao teatro?

O moço tanto fez que convenceu Marina a preencher uma ficha e desembolsar trinta e cinco reais para assinar a tal da revista. Quando o Blim pegou o formulário nas mãos, já sabia que estava se metendo numa roubada, mas não teve coragem de pular fora, porque pelo entusiasmo do sujeito ela devia ser a única do dia a cair naquela conversa. Aquela seria a boa ação do semestre, só que a coisa piorou quando ela descobriu que só tinha um cartão de débito na carteira.

-E agora, acho que vamos ter que deixar para uma próxima...


Mas o moço rapidamente tirou uma solução da cartola.

-Vamos fazer o seguinte, eu e meu amigo tamo com fome, a senhora acompanha a gente no Mac, paga nosso lanche e a gente deposita depois o seu dinheiro com a ficha no banco.
-Ah tá, então vamos.


Naquela altura, realmente, nada poderia reverter o absurdo da situação. O Blim entrou na fila e eles se fartaram com tudo que tinham direito. Dos lanches aos Nuggets, dos sundaes às fritas. A conta deu trinta e oito reais.

-A senhora não se incomoda de pagar três reais a mais, né?
-Imagina, tô aqui mesmo.


Fiquei chocada com a cara de pau deles e ela me disse depois: "Martha, eu tava achando aquilo tão surreal, já tinha perdido meu cinema, que resolvi que era aquilo mesmo que tava acontecendo e eu não ia contrariar."

Depois ela me mostrou os benefícios do negócio que tinha feito; ingressos para "As Encalhadas", peças espíritas e outras comédias ordinárias.

-Acho que vou tentar "As Encalhadas", da Bibi Ferreira, o que você acha?
-Sei lá Blim, acho que é uma questão de honra, agora você vai ao teatro.
-Tem também um desconto para comer no Piolim, conhece esse lugar.
-Ah legal, conheço, de quanto é o desconto, cinquenta porcento?
-Não, dez.
-É Marina, realmente, você foi uma presa fácil.


Lembrei que dez anos atrás, sem querer e tentando ajudar uma moça a conseguir bolsa na faculdade, fiz uma assinatura de um ano da revista Gula. É a velha história, "me passa o número do seu cartão, só para a gente te dar um brinde" e quando você vê, está dividindo o prejuízo em doze parcelas. Toda vez que aquela revista chegava eu ficava puta por ter sido enganada e principalmente por estar de regime e não poder usufruir das receitas.

Só espero que O Blim não fique com o mesmo sentimento em relação ao teatro. Prometo que te dou convite para a próxima, tá?

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Rehab

É impressionante como acompanhar uma novela pode fazer com que você compreenda e participe de conversas para as quais nunca foi chamada antes.

Faz três anos que moro sozinha, dois deles sem televisão. Eu tinha uma antena que comprei na loja de construção aqui do bairro, cheguei a colocar bombril na ponta dela, mas a imagem nunca deixou de ser dupla. Então eu nunca mais tinha visto tv e vivia bem assim. Até o belo dia que liguei para resolver um problema na internet e a moça me convenceu de que eu estaria fazendo um excelente negócio se adquirisse o Combo Triplo.

No começo eles te dão todos os canais para você pegar gosto, depois vão tirando, aos poucos, um telecine aqui, uma gnt ali, e quando você vê, está apenas com o Animal Planet e a Universal pegando, já que o meu Combo é dos mais vagabundos. Isso quer dizer que posso escolher entre o Law and Order ou os programas de redecoração de casas de casais em crise.

Eu acabei descobrindo o poder analgésico, desinflamatório e aparentemente adstringente das novelas. Sim, eu deito no sofá, fecho as cortinas, ligo a TV e me torno, durante algumas horas uma espécie de ameba, esponja marítima, uma cadeia de aminoácidos primitivos. O mundo vai se distanciando, o corpo amolecendo e aquela voz padrão dos atores e locutores da Rede Globo vai agindo como uma espécie de mantra no meu cérebro.

No começo tudo bem, eu pensei, porque se existe no mundo alguma coisa que faça desacelerar o meu pensamento por alguns instantes e não cause danos irreversíveis nos meus neurônios, por que não fazer uso dela? Acontece que com essa desculpa, "Preciso descansar a cabeça", eu me viciei. Quando vi, estava assistindo o fim da novela das seis, o meio da das sete e a das oito inteirinha, inclusive comerciais. Claro, não é toda vez que estou em casa dando sopa nesse horário, porque afinal, apesar do meu novo vício, continuo sendo uma moça muito trabalhadora.

Mas eu não tenho certeza se quero realmente entender e fazer parte do diálogo da maioria. É que quando você acompanha uma novela, percebe que aqueles nomes que as pessoas viviam falando no elevador, na aula de ginástica, no balcão da padaria, nomes como Helena, Marcos, Luciana, Tereza, não se referiam a parentes ou amigos das pessoas que os pronunciavam, você descobre, que aqueles nomes todos sempre foram nomes dos personagens das novelas que você nunca assistiu. Só que agora você assiste, e pior, você agora não só entende o que as pessoas estão falando, como também opina, defende um, xinga outro e descobre que na verdade, o público não quer ser surpreendido, já que as revistas especializadas contam quase a novela toda antes dela começar. O público quer virar uma ameba depois do trabalho e ter assunto para o dia seguinte, basicamente isso. Não pega bem , eu sei, tornar pública a condição na qual me encontro, é horrível mesmo, fico olhando para os meus livros e pedindo que eles me resgatem dessa areia movediça que é a tele-dramaturgia. Espero ansiosa que eles me lancem um pedaço de cabide ou corda na qual eu possa me segurar, e assim que isso acontecer, juro, caio fora dessa lama e volto a não ter assunto com as ascensoristas.



(Eu e meus livros, agora empoeirados.)

sábado, 14 de novembro de 2009

a vista daqui, que a gente tem de lá

Perto do fim do ano parece que uma ressaca emenda na outra. Ressaca do álcool, do apagão, do calor, das notícias. Por isso decidi viajar e fugir das dezenas de festas que insistem em acontecer sempre que eu resolvo sair da cidade. Eu vou mesmo assim, acumular uns créditos para as futuras ressacas, (que ando em débito comigo mesma) e ver se a distância, São Paulo parece menos espinhosa.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

É uma locução, mas parece um poema e

fazia tempo que eu não via um tão bonito. Deus, tudo bem, se eu não puder fazer todas coisas que faço tão bem quanto o jogador, que eu pelo menos faça com a emoção deste locutor.

relato radiofônico de Victor Hugo Morales, copa do México de 86

Lá vai passar para Diego
aí a tem Maradona
dois o marcam
pisa na bola Maradona
arranca pela direita o gênio do futebol mundial
e deixa os adversários para trás
e vai passar para Burruchaga
sempre Maradona
gênio gênio gênio
ta ta ta ta
gooool goool
quero chorar
Deus santo viva o futebol
golaaaço
diegoool
Maradona é para chorar perdoem-me
Maradona, em uma corrida memorável
na jogada de todos os tempos
barrilete cósmico
de qual planeta vem?
para deixar no caminho tanto inglês
para que o país seja um punho apertado
gritando por Argentina
Argentina 2 Inglaterra 0
diegol diegol
Diego Armando Maradona
obrigada Deus pelo futebol, por Maradona
por estas lágrimas
por este Argentina 2 Inglaterra 0

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

se você me ama, por que não se concentra?


foto de Carlos Bozelli

Não, não é um recado. É que hoje fui ver "Pixo" do João Wainer e Roberto P. Oliveira e lembrei desse muro que pixei com o poema da Ana Cristina Cesar. Ideia da Fernanda, que gritava em plenos pulmões "Corta! porque junto na interrogação, erro crasso da língua portuguesa, Martha!". E lá ia eu com a lata de tinta branca, repintar o muro pela terceira vez. Eu sabia disso, sabia o poema de cor, das regras gramaticais, mas na hora saía errado. O sol rebatendo no branco do muro, o nervoso, a válvula emperrada do spray, o take único. Nunca diga para um ator que o take é único, melhor falar que é ensaio que ele vai acertar. Nesse dia descobri que é muito difícil pixar um muro, pixar com categoria. Hoje, assistindo o filme, descobri outras coisas. Vale a pena ver, é um puta filme triste, bonito, vivo, você certamente nunca mais vai olhar uma pixação com os mesmos olhos. Anarquia era só uma palavra a léguas de distância e eu lembrei porque só consegui pixar direito aquele poema na hora em que a Fernanda disse "Abre o quadro Edinho, a gente tá prendendo ela..."

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

meu aniversário

Dizem que é a mão que denuncia nossa idade, a cara da mulher pode estar linda, o corpo enxuto, mas se você olhar para as mãos, vai saber a verdade. Na véspera de completar vinte e nove anos, resolvi olhar para as minhas.
É quase imperceptível, nenhuma mancha, vinco, nada parecido. É mais como se ela estivesse um pouco mais altiva, menos falastrona, o tempo. Eu sempre achei bobagem quando minhas amigas diziam, quando você chegar perto dos trinta, vai entender. Não estou entendendo nada muito bem, na verdade, acho que melhorei com a idade. No colégio eu era só uma menina extrovertida, que gostava de poesia, era meio amiga de todo mundo, meio sem turma, meio cdf, pecando na matemática, um pouco nerd, talvez. Quando meus pais se separaram eu caí no mundo. Foi uma queda desajeitada, comecei a fazer teatro profissional quando a maioria dos meus colegas nem sabia direito qual vestibular prestar, faltava nos eventos escolares para ensaiar e caía na balada. Era colégio de manhã, Célia-Helena fim de tarde-noite e a noite madrugada adentro. Nem sei como aguentei, minhas notas caíram, eu comprei um dicionário mundial de citações para dar conta das redações, adquiri olheiras, parei com os esportes, lia sem parar e me apaixonava pelos homens errados. Lembro que o Marcelo Paiva foi dar uma palestra na escola e eu me apaixonei por ele. Fiz um pedido de namoro, mas ele não aceitou, preferiu a Marina, minha amiga. Agora somos bons amigos e rimos do episódio. Como eu disse, acho que o tempo é meu aliado, com dez anos olhava aquelas meninas populares jogando handball como profissionais e sabia que era por pouco tempo que eu ia continuar fugindo da bola, sabia que ia ser por outro caminho. Naquela época eu tinha a impressão de que tinham me colocado na quadra errada, com as pessoas erradas. Depois encontrei o teatro, e achei que era um bom lugar para fixar residência no mundo, mas aos poucos, aconteceu de tudo ir ficando apertado e eu passei a ir atrás de outras vistas. Então acabei sentindo que estava em muitos cantos e talvez em canto algum. Hoje decidi que não existem lugares, mas onde quer que eu esteja, tento ser a melhor companhia para mim mesma e para minhas mãos.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

fim de noite



Esta foto é um tiro no pé, eu sei, mas quando a festa é boa, o fim de noite corre o risco de ser na sarjeta. Descalça.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

vai ser legal!

É uma festa para arrecadar fundos para a peça, e de quebra, é meu aniversário. A peça é do Caco Galhardo, a direção da Fernanda D Umbra e eu produzo e atuo. A música vai ser boa.

Até já.


segunda-feira, 19 de outubro de 2009

DER EDUCATOR

Depois da novela japonesa, foi a coisa mais trash que já fiz diante das câmeras.




ps: trash é bom.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

só uma lista

-vinho barato dá dor de cabeça
-champanhe barata dá dor de cabeça
-misturar marca de cerveja dá dor de cabeça
-produtos light engordam
-chocolate suíço tem muita manteiga
-ninguém escapa das oralidades
-nem dos clichês
-gente atrasada nunca muda
-o tamanho da insegurança é proporcional ao da beleza
-meus pais nunca vão se entender
-não existe ressaca a toa
-o barato sai caro
-a Rebouças está sempre engarrafada
-no jantar de estreia de uma peça só se fala da peça
-eles sempre cobram a mais na conta de telefone
-eles podem cortar sua luz sem te avisar
-eu não consigo mentir nem para o cara do seguro
-eu não devo falar ao telefone dirigindo
-poesia ruim constrange
-poesia boa aplaca
-o poema feito em sua homenagem não se avalia
-fumar faz mal a saúde
-torpedos de amor somem do aparelho junto com as mensagens da operadora
-eu sempre pego a ponte errada na Marginal
-sei que estou prestes a cometer um erro segundos antes de cometê-lo
-romantismo não tem cura
-evitar consultar o saldo bancário só piora a situação
-uma faxina bem feita não resiste ao pó da cidade
-pensar na próxima cena, durante a cena, é a pior vala onde se pode cair
-pensar na cena que não foi boa, durante a cena, é na verdade a pior
-não importa o quanto isso incomode alguns, vou continuar sublinhando meus livros a caneta
-orquídeas só devem ser regadas a cada sete dias
-arruda todos
-uma coleção de caixinhas, é uma coleção de vazios
-rezar antes de sair da cama
-cortar as unhas do gato antes que elas cortem as almofadas
-não escrever no blog alcoolizada
-não mandar e-mails de madrugada
-fechar as gavetas antes de dormir
-descongelar a geladeira uma vez ao mês
-guardar comprovantes de residência de dois anos atrás
-não deixar cds originais no carro
-anotar o número do pis em algum lugar
-ligar para minhas avós
-olhar a janela de casa de fora da casa
-ir para cama no primeiro momento de sono
-não pedir conselhos sobre o mesmo assunto para mais de duas pessoas
-não responder ao taxista se é aqui que você mora
-sempre ter uma folha de cheque na carteira
-o rodízio do carro é na segunda
-eu devia ter feito aquele back-up

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

para onde?

É interessante ver a cidade mudando, na sua fuça, como um bicho de estimação crescendo entre aqueles que você ama. Essa mãe infiel, que muda de cara toda vez que você se distrai. Primeiro foi o Vegas, acho, depois o Inferno , outras casas noturnas, lugares descolados para se comer e quando a gente viu, a antiga Vila Madalena, na época em que era legal ir à Vila Madalena, mudou-se para a rua Augusta, lado centro. A mesma rua que, nos tempos da minha mãe, era um lugar chiquérrimo para se desfilar os cabelos alisados com a toca noturna. A rua mais democrática do lado Jardins, a rua que não tenho dúvidas em pegar se tenho de voltar a pé na madrugada, a rua para onde meus amigos solteiros estão se mudando. Até onde sei, as putas saíram da zona para a boca e da boca, (a boca ainda existe?) para alguns lugares, inclusive a rua Augusta. E agora todos convivem harmoniosamente: quem quer balada pesada, as moças de vida fácil, os artistas que tocam no Studio SP, os salões de beleza onde você vê todo tipo de gente fazendo a unha, as academias vinte e quatro horas, os puteiros, saunas, livrarias, meus amigos e eu no bar Bahia, os atores habitués do Piolim, os playboys, teatros, sinucas ou apenas andarilhos de passagem à Praça Roosevelt. Enfim, de tudo um pouco, um pouco de tudo. É uma delícia passear por lá, é como tomar uma brisa em Copacabana. Alguns puteiros desapareceram, viraram bares de moderninhos e o trânsito continua ruim. Eu fiquei pensando, até quando? Posso estar enganada, muitos devem manjar muito mais desse assunto do que eu, e só me arrisco a dizer (porque estou vendo a coisa de perto) que este parece ser um período de transição, ( bom, claro, todo período é uma transição), enfim, parece que a rua Augusta vai voltar a ser um endereço exclusivamente frequentado por uma classe social abastada. Será? ou será que é justamente por causa dessa "diversidade", dessa fauna excêntrica misturada que ela vem chamando a atenção daquelas pessoas que até poucos anos tinham medo de ir ao centro depois que o sol se pusesse. E se isso acontecer, quem vive e trabalha por lá, vai para onde? A longo prazo, é possível a convivência desses universos tão diferentes? Quando eu era pequena e passava as férias na fazenda, ouvi uma vez algum tio dizer para o outro que não era bom arrendar a fazenda para plantação de cana. Eu perguntei por que e ele me explicou que a cana é um tipo de plantação que suga tudo da terra até não sobrar mais nada, até a terra falir, e que depois, são necessários muitos anos para ela voltar a ser produtiva. É um pouco essa imagem que eu tenho da gente no mundo, a gente vai tomando conta de um lugar, uma área, vai sugando tudo que tem de bom alí até esgotar. Daí a gente procura um lugar novo. Mas acho que sempre foi assim, não? Desde os tempos de nossos ancestrais nômades. A diferença é que no campo, depois da colheita vem a queimada, que deixa tudo com cara de nada e na cidade vem o que a gente chama de decadência, depois a xêpa.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009


( Eu, Maria Manoella, Caca Manica, Erika Puga, Lu Caruso e os homens, Laerte Mello e Batata em foto de Renato parada)

Tem muita gente por aí com quem eu ainda quero trabalhar e tem gente com quem eu quero sempre continuar trabalhando. Uma dessas pessoas é o Mário, o Bortolotto. O Mário não é um diretor de processo, como ele mesmo costuma dizer. Por isso tem muita gente que, equivocadamente, acha que ele não é muito de dirigir ator. É verdade que se você propuser um ensaio-laboratório, exercícios de improvisação com o texto que ele escreveu cirurgicamente, adaptou ou simplesmente está encenando, ou ainda, se você quiser propor um jogo de expressão corporal, qualquer atividade do gênero ou dar um grito de guerra antes do espetáculo, é capaz que ele te mande sair andando, gentilmente, claro. Mas tem uma coisa, entre muitas, que ele faz com maestria: te ajuda a construir a linha de pensamento do seu personagem como ninguém. E isso é raro. Não estou dizendo que todas essas outras possibilidades de trabalho que citei acima, sejam inúteis ou menores, mas diretor é como namorado, você não acha tudo em um parceiro só. Você escolhe as qualidades das quais não pode abrir mão, e no resto, você faz sua parte e tenta se garantir. Hoje a Manu me disse na coxia "Essa peça precisava de mais uma semana...", e eu respondi, "Você pode ensaiar durante um ano, que na véspera de uma estreia, uma peça sempre precisa de mais uma semana.". Não temos uma semana, aliás, temos pouco mais que 24 horas, já que amanhã, meia-noite, nos Parlapatões, estreiamos "Brutal". Ficamos por lá todas as sextas até final de novembro, neste horário, que vai me obrigar a pedir cafés duplos, fortes e entrar em cena na hora em que o resto do mundo já está na terceira latinha de cerveja. E eu vou estar sóbria e feliz. E este post todo é para dizer que venham!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

pelas ruas de Londrina


A gente estava procurando uma sorveteria, café, algo assim. Mas não havia nada na avenida que saía do hotel. Passamos por lojas de pneus, estações de tratamento de água, gráficas, escritórios e quando achávamos que se tratava de um passeio perdido, eu vi isso no chão. Voltei, parei, olhei e chamei a turma. Não tivemos dúvida, nos jogamos no asfalto na mesma hora. Quem cliquou a foto foi o Edinho e a companheira ao lado todos sabem quem é: Fernanda D'umbra. Agora resta saber quem foi. Foi você Chacal?

domingo, 20 de setembro de 2009

mind the gap

Eu sei do que estou falando, eu já passei por isso, várias vezes. Já fiz todas as dietas do mundo, já passei três dias tomando a sopa do Vigilantes do Peso, bati o recorde de colesterol na dieta do Dr. Atkins, tentei enganar meu apetite fingindo que era de batata o purê de couve-flor da dieta de South Beach, decorei a tabela de pontos, conheci todas as marcas de shakes e não foram poucos os finais de semana que passei me alimentando de cevada. Acredite, também já saltitei frente à tv com os vídeos de ginástica da Cindy Crawford em meados dos anos 90. Tudo isso funciona, mas há muito não passo por isso. A coisa chegou num ponto honesto em minha vida, o peso, medidas, espelho. Sei que outro dia fui fazer uma prova de roupa para um longa e a calça não entrou. A menina nada gentil do figurino ficou olhando para minha cara como quem diz "Você deveria ter passado suas medidas certas" e eu fiquei encarando ela como quem diz "Querida, não sei do que você está falando, sempre vesti esse número..." Não sei se por causa do assalto ou por conta de um homem que vem repetidamente me dizendo o quanto sou linda, o fato é que pareço ter engordado. E isso é um saco. Fatalmente comecei um regime e começar um regime significa pensar mais em comida do que se pensa normalmente, significa folhear com mau-humor os guias quando se passa pela parte de gastronomia, analisar descaradamente o prato de pessoas magras e voltar do mercado com sacolas de tofu, cogumelo e iogurtes cheios de aspartame. A vida é mesmo um castelinho de cartas, você ajeita de um lado e quando vê, o outro está prestes a desmoronar. Outro dia vi um documentário sobre o Chico Buarque, e em determinado momento o Tom Jobim dizia algo como "'é difícil administrar a vida, eu sou meu próprio síndico, tenho um monte de coisas para cuidar...". Claro que ele disse isso de forma mais poética, mas eu não tenho capacidade agora de repetir, só sei que por aqui, além de síndica, tenho exercido outras funções como as de zeladora, porteira, faxineira, contadora, agente e adestradora de animais, como a maioria, na verdade. Não é uma queixa, só constatação. Quando eu era criança, meus pais me diziam que eu deveria aproveitar enquanto podia, que a vida adulta seria bem mais difícil. Nunca concordei com eles, sempre achei a infância e adolescência bem mais cruéis que a fase adulta. E continuo achando. Mas às vezes me pego com saudade dos tempos em que eu não sabia o valor do condomínio ou das calorias de uma bolacha Bono. Espero que a correria dos próximos dias me ajude na empreitada: esta semana vou para Londrina fazer Ana C. e dia dois de outubro estreiamos Brutal. E vou ajeitando meu castelinho, andando de um lado para o outro com meus textos, tamancos e saindo do regime uma vez por dia. E só para reparar o exagero textual, nunca fiz a dieta do Dr. Atkins. Isso é coisa para meninos.


(e só para ninguém achar que sou uma moça muito acima do peso, aí vai uma foto bem bonita)