Arrasto a mala azul turquesa pela rua puta da vida com o taxi que não veio. Nunca mais chamo naquele ponto. Vejo um outro na esquina, aceno, entro. Explico o endereço, falo da pressa e ele sugere cortar caminho pelo elevado. Depois lembra que a essa hora o elevado ainda não abriu. Ele pega um rua errada, me olha no retrovisor. Perde dois faróis, entra na contramão, ruboriza, faz a volta com o carro. A certa altura do trajeto ele me diz:
"Desculpa moça, mas tá difícil, essa sua vibração negativa tá atrapalhando meu trabalho."
"Oi?"
"Você tá muito ansiosa, eu sou sensível. Assim não consigo dirigir."
"Ah..."
Sigo silenciosa no banco de trás. Polida, felizmente.
Ele me cobra dois reais a menos na corrida, gentileza que aceito sem cerimônia.
"Tem muita gente ansiosa em São Paulo moço."
E desco do carro atrasada.
sábado, 31 de julho de 2010
quarta-feira, 21 de julho de 2010
memória
A gente morava num apartamentinho estreito na Place d’ Italie. Segundo minha irmã mais velha, vivíamos espremidos como sardinha em lata, item, aliás, bastante consumido pela nossa família, já que dividíamos em cinco a igualmente estreita bolsa de estudos do meu pai. Era o ano de 1982 e ele estudava medicina em Paris, no instituto Pasteur. Ano de copa. Eu tinha dois anos, lembro de nada, mas minha mãe conta que estava mais preocupada com os hóspedes que chegariam em breve do que com futebol. Eu morava no andar de cima do beliche e não consigo imaginar como foi que ela conseguiu entulhar tantas pessoas em tão poucos metros quadrados. Só lembro de ficar ao pé do fogão esperando por fatias de berinjela frita, “aubergine!, eu gritava para a Marlene, a babá e empregada que tinha vindo do Brasil conosco.
Na copa de 1986 já tínhamos voltado para o Brasil, morávamos acampados na casa da minha avó Dorina e apesar de pequena, tenho a memória viva do sentimento estranho que tomou conta da casa quando o Brasil foi eliminado. Adultos frustrados, a derrota, camisas azuis claras. Eu ainda misturava o francês com o português, sofria, não gostava da escola, não gostava de dividir o quarto, passava horas olhando para um quadro pintado a óleo, uma ruazinha com casas velhas, atrás uma montanha.
A terceira copa da minha vida foi em 1990, em casa. Tínhamos definitivamente parado de morar na casa dos outros, e quando eu finalmente ia ter um quarto só meu, minha mãe engravidou de novo. Minha irmã caçula nasceu com um olhão azul, vindo lá da minha avó materna, acerto de loteria genética. Nasceu fraquinha, com um quilo e oitocentos gramas. Eu lavava as mãos, toda vez que queria segurá-la no colo. No quintal uma roitweiller chamada Lady Godiva, linda, corria o tempo todo. Eu já tinha comungado pela primeira vez e usava um aparelho horroroso nos dentes, do tipo freio de cavalo. Continuava sofrendo com a escola e com o movimento bandeirante, do qual fui forçada a participar. Eu tinha muita coisa com que lidar, nem lembro da copa. Só da viagem que fizemos para a Itália, assim que os jogos acabaram. Antes de se casar com meu pai, minha mãe foi casada com um italiano. Ele morreu e ela voltou viúva para o Brasil, com minha irmã mais velha no colo. Todo ano minha mãe a levava para visitar a bisavó na Calábria. Neste ano fui junto e dancei a lambada para os italianos. “Chorando se foi, quem um dia só me fez chorar” tocava em todos os lugares do mundo. Eu me apaixonei pelo sorvete italiano, “frágola!” e odiei as praias de pedra.
Foi em 1994 que eu finalmente virei uma brasileira, com quatorze anos e fascinada com a copa do mundo. Participava da conversa dos adultos, perguntava o que era impedimento, pênalti, tiro de meta, e o por que da copa não ser no Brasil. Lembro bem do bolão da família, dos chutes quilométricos do Branco e do pênalti do Baggio, por quem minha irmã era absolutamente apaixonada. Ela tinha um pôster dele no quarto, dele e do Tom Cruise. A gente assistiu a copa na fazenda e eu não perdi um jogo. Uma alegria indescritível tomou conta daquelas férias quando o Brasil ganhou, uma coisa tão maior do que tudo que eu já conhecia, que não sabia ao certo como fazer parte daquilo. As pessoas ficaram felizes por dias. Na tarde que fomos campeões, lembro que peguei um livro do Simenon na estante da sala para ler: “Ainda existem aveleiras”. Era um livro melancólico. Eu lia e ficava triste. Depois lembrava da copa, ficava feliz. Na verdade não entendia bem a história, era muito nova, mas li até o fim, com medo de desapontar meu avô, que lia no sofá ao lado.
Alguns anos depois meus pais se separaram, e como o escritório dele ficou livre, eu finalmente ganhei um quarto só para mim. Mas agora a casa estava triste. E vazia. A Godiva teve que ser sacrificada, um dia de manhã, antes de uma prova difícil de matemática. Eu estudava numa escola forte, a noite fazia o curso profissionalizante de teatro no Célia-Helena. Em 1998 fui para a França, sozinha, e fiquei hospedada na casa de um grego, Kostas, grande amigo do meu pai dos tempos do Instituto Pasteur. O jogo da final assisti com a Julia e Felipe, amigos do colégio que acabei encontrando por lá. Fomos num café, bem parisiense, com muitos parisienses, e a bandeira do Brasil nas costas. O Brasil perdeu. As convulsões. Franceses nos cercando na cabine telefônica que eu tinha entrado para ligar para São Paulo. O metrô quebrou e tivemos que descer na Champs Elysées, no meio de um oceano de patriotas que gritavam e cantavam a marselhesa como se tivessem vencido alguma guerra. Minha bandeira verde amarelo nas costas era uma espécie de Moisés que abria espaço em meio ao mar azul francês campeão. Não havia taxi, nem escapatória. Não conseguíamos chegar em casa, nunca mais chegaríamos em casa. Um desespero. Sentamos desolados na calçada, e ainda com a bandeira nas costas, chorei. E no ápice do pior momento da noite, estaciona a nossa frente um carro velho, amontoado de portugueses, que com seu sotaque típico, assim gritaram para nós: “Brasil, amigo, Portugal está contigo! Brasil, amigo, Portugal está contigo!” Cantaram esses versinhos infames durante alguns minutos e partiram. Nós acabamos conseguindo carona com dois tunisianos e dois dias depois, cansada das piadas que os franceses não perdiam a oportunidade de fazer, peguei um ônibus para Praga.
É o ano de 2002 e eu estou formada em teatro e cinema. Trabalho. Saio da casa da minha mãe, passo uns tempos na casa do meu pai. A copa deste ano foi um grande pretexto para as baladas. Emendava as noitadas com os jogos matinais. Quando o Brasil foi pentacampeão lembro, se é que lembro mesmo, de passar três noites em claro, a base de trigo e cevada. Ia de um canto ao outro da cidade, ziguezagueava pelos botecos e casas de amigos. A impressão de que aquela comemoração não acabaria, de que as pessoas nunca mais sairiam das ruas e de que eu não chegaria mais em casa. Depois passei dias afônicos, muda, exausta. A copa da ressaca.
Um dia recebo o telefonema do meu pai, contando que tinha conseguido ingressos, que ia levar toda a familia para assistir a copa na Alemanha. Era 2006, eu estava em cartaz e não podia ir. A família toda foi na frente e eu passei o começo da copa assistindo os jogos na rua Maceió, apartamento que dividia com uma amiga, enquanto todos eles assistiam os jogos in loco. Minha passagem para Munique ficou marcada para o dia seguinte depois da última apresentação de “Chapa Quente”. Acontece que o Brasil perdeu antes que eu pudesse chegar lá, e eu, consegui a façanha de me apaixonar por um moço numa festa, na véspera da viagem. Cheguei na Alemanha, não vi nenhum mísero jogo e passei a viagem toda comendo schnitzel em família e pensando no moço. Na época pareceu um desperdício, embora hoje seja uma boa lembrança. Percorremos a Alemanha de carro, por estradas inteiras margeadas pelos moinhos de vento. Foi a primeira vez que vi um GPS, e nunca poderia imaginar que hoje, embora eu não saiba usá-lo, existe um modelo disponível no meu celular.
Estamos em 2010. O Brasil foi eliminado da copa. Tenho dois fios de cabelo branco que não ouso arrancar, porque tenho certeza de que eles nascem em dobro. Moro com um gato preto, um namorado e pago muitos impostos. Já não tenho mais um quarto só para mim, mas é por um bom motivo. Enquanto o Brasil durou, a copa roubou parte do público da minha peça e atrapalhou todos os meus compromissos. Ao vivo, num programa de televisão feminino, a apresentadora pergunta para quem eu estou torcendo agora. Respondo que para a Argentina. Todos os câmeras e microfonistas do estúdio voltam-se para mim. A apresentadora sorri amarelo. “Jura?”, “É verdade", replico.
Na copa de 1986 já tínhamos voltado para o Brasil, morávamos acampados na casa da minha avó Dorina e apesar de pequena, tenho a memória viva do sentimento estranho que tomou conta da casa quando o Brasil foi eliminado. Adultos frustrados, a derrota, camisas azuis claras. Eu ainda misturava o francês com o português, sofria, não gostava da escola, não gostava de dividir o quarto, passava horas olhando para um quadro pintado a óleo, uma ruazinha com casas velhas, atrás uma montanha.
A terceira copa da minha vida foi em 1990, em casa. Tínhamos definitivamente parado de morar na casa dos outros, e quando eu finalmente ia ter um quarto só meu, minha mãe engravidou de novo. Minha irmã caçula nasceu com um olhão azul, vindo lá da minha avó materna, acerto de loteria genética. Nasceu fraquinha, com um quilo e oitocentos gramas. Eu lavava as mãos, toda vez que queria segurá-la no colo. No quintal uma roitweiller chamada Lady Godiva, linda, corria o tempo todo. Eu já tinha comungado pela primeira vez e usava um aparelho horroroso nos dentes, do tipo freio de cavalo. Continuava sofrendo com a escola e com o movimento bandeirante, do qual fui forçada a participar. Eu tinha muita coisa com que lidar, nem lembro da copa. Só da viagem que fizemos para a Itália, assim que os jogos acabaram. Antes de se casar com meu pai, minha mãe foi casada com um italiano. Ele morreu e ela voltou viúva para o Brasil, com minha irmã mais velha no colo. Todo ano minha mãe a levava para visitar a bisavó na Calábria. Neste ano fui junto e dancei a lambada para os italianos. “Chorando se foi, quem um dia só me fez chorar” tocava em todos os lugares do mundo. Eu me apaixonei pelo sorvete italiano, “frágola!” e odiei as praias de pedra.
Foi em 1994 que eu finalmente virei uma brasileira, com quatorze anos e fascinada com a copa do mundo. Participava da conversa dos adultos, perguntava o que era impedimento, pênalti, tiro de meta, e o por que da copa não ser no Brasil. Lembro bem do bolão da família, dos chutes quilométricos do Branco e do pênalti do Baggio, por quem minha irmã era absolutamente apaixonada. Ela tinha um pôster dele no quarto, dele e do Tom Cruise. A gente assistiu a copa na fazenda e eu não perdi um jogo. Uma alegria indescritível tomou conta daquelas férias quando o Brasil ganhou, uma coisa tão maior do que tudo que eu já conhecia, que não sabia ao certo como fazer parte daquilo. As pessoas ficaram felizes por dias. Na tarde que fomos campeões, lembro que peguei um livro do Simenon na estante da sala para ler: “Ainda existem aveleiras”. Era um livro melancólico. Eu lia e ficava triste. Depois lembrava da copa, ficava feliz. Na verdade não entendia bem a história, era muito nova, mas li até o fim, com medo de desapontar meu avô, que lia no sofá ao lado.
Alguns anos depois meus pais se separaram, e como o escritório dele ficou livre, eu finalmente ganhei um quarto só para mim. Mas agora a casa estava triste. E vazia. A Godiva teve que ser sacrificada, um dia de manhã, antes de uma prova difícil de matemática. Eu estudava numa escola forte, a noite fazia o curso profissionalizante de teatro no Célia-Helena. Em 1998 fui para a França, sozinha, e fiquei hospedada na casa de um grego, Kostas, grande amigo do meu pai dos tempos do Instituto Pasteur. O jogo da final assisti com a Julia e Felipe, amigos do colégio que acabei encontrando por lá. Fomos num café, bem parisiense, com muitos parisienses, e a bandeira do Brasil nas costas. O Brasil perdeu. As convulsões. Franceses nos cercando na cabine telefônica que eu tinha entrado para ligar para São Paulo. O metrô quebrou e tivemos que descer na Champs Elysées, no meio de um oceano de patriotas que gritavam e cantavam a marselhesa como se tivessem vencido alguma guerra. Minha bandeira verde amarelo nas costas era uma espécie de Moisés que abria espaço em meio ao mar azul francês campeão. Não havia taxi, nem escapatória. Não conseguíamos chegar em casa, nunca mais chegaríamos em casa. Um desespero. Sentamos desolados na calçada, e ainda com a bandeira nas costas, chorei. E no ápice do pior momento da noite, estaciona a nossa frente um carro velho, amontoado de portugueses, que com seu sotaque típico, assim gritaram para nós: “Brasil, amigo, Portugal está contigo! Brasil, amigo, Portugal está contigo!” Cantaram esses versinhos infames durante alguns minutos e partiram. Nós acabamos conseguindo carona com dois tunisianos e dois dias depois, cansada das piadas que os franceses não perdiam a oportunidade de fazer, peguei um ônibus para Praga.
É o ano de 2002 e eu estou formada em teatro e cinema. Trabalho. Saio da casa da minha mãe, passo uns tempos na casa do meu pai. A copa deste ano foi um grande pretexto para as baladas. Emendava as noitadas com os jogos matinais. Quando o Brasil foi pentacampeão lembro, se é que lembro mesmo, de passar três noites em claro, a base de trigo e cevada. Ia de um canto ao outro da cidade, ziguezagueava pelos botecos e casas de amigos. A impressão de que aquela comemoração não acabaria, de que as pessoas nunca mais sairiam das ruas e de que eu não chegaria mais em casa. Depois passei dias afônicos, muda, exausta. A copa da ressaca.
Um dia recebo o telefonema do meu pai, contando que tinha conseguido ingressos, que ia levar toda a familia para assistir a copa na Alemanha. Era 2006, eu estava em cartaz e não podia ir. A família toda foi na frente e eu passei o começo da copa assistindo os jogos na rua Maceió, apartamento que dividia com uma amiga, enquanto todos eles assistiam os jogos in loco. Minha passagem para Munique ficou marcada para o dia seguinte depois da última apresentação de “Chapa Quente”. Acontece que o Brasil perdeu antes que eu pudesse chegar lá, e eu, consegui a façanha de me apaixonar por um moço numa festa, na véspera da viagem. Cheguei na Alemanha, não vi nenhum mísero jogo e passei a viagem toda comendo schnitzel em família e pensando no moço. Na época pareceu um desperdício, embora hoje seja uma boa lembrança. Percorremos a Alemanha de carro, por estradas inteiras margeadas pelos moinhos de vento. Foi a primeira vez que vi um GPS, e nunca poderia imaginar que hoje, embora eu não saiba usá-lo, existe um modelo disponível no meu celular.
Estamos em 2010. O Brasil foi eliminado da copa. Tenho dois fios de cabelo branco que não ouso arrancar, porque tenho certeza de que eles nascem em dobro. Moro com um gato preto, um namorado e pago muitos impostos. Já não tenho mais um quarto só para mim, mas é por um bom motivo. Enquanto o Brasil durou, a copa roubou parte do público da minha peça e atrapalhou todos os meus compromissos. Ao vivo, num programa de televisão feminino, a apresentadora pergunta para quem eu estou torcendo agora. Respondo que para a Argentina. Todos os câmeras e microfonistas do estúdio voltam-se para mim. A apresentadora sorri amarelo. “Jura?”, “É verdade", replico.
quarta-feira, 14 de julho de 2010
casa camarim
o teatro: um negócio que você constrói, sempre do zero, do solo. Ergue as paredes, passa os fios, coloca as tomadas.Quando a casa fica pronta, você entra e sai dela, milhares de vezes, até dominar, ou achar que domina, cada pedaço do trajeto. Dentro da casa uma familia, os barulhos, cheiros, a torneira quebrada, coisas com as quais você se habitua por gosto ou osmose. Um dia você estaciona seu carro, maquia, dá um gole no café, ouve atentamente o trecho inicial da trilha, pensa que deve pedir para alguém gravar um cd, entra em cena, faz a peça. Sai de cena. Na platéia uma moça, parecida comigo, me avisa que é o último dia de peça, pelo menos desta temporada. Que depois de tudo, da casa erguida, da maquiagem limpa, dos varais estendidos, o espetáculo acaba. Como todos os outros. "Já?", pergunto. Ela mostra os dentes, ri. Se abaixa para buscar um batom que rolou por baixo das cadeiras. "Você nunca vai se acostumar?".
Nunca.
------------------------última semana/ainda dá tempo--------------------------------------------

Caco. Muito obrigada. Fê... Chris, Cynthia, Mari, parceiras, amigas de cena e coxia, meninas e meninos, Simone, Ofélia, Rey, Ju, Fabi, Guilherme, Carca, Arara, Fred, Erika, a todos, muito obrigada, a cada um de vocês. Sei que voltaremos em breve, com essa e com outras! Valeu.


Nunca.
------------------------última semana/ainda dá tempo--------------------------------------------

Caco. Muito obrigada. Fê... Chris, Cynthia, Mari, parceiras, amigas de cena e coxia, meninas e meninos, Simone, Ofélia, Rey, Ju, Fabi, Guilherme, Carca, Arara, Fred, Erika, a todos, muito obrigada, a cada um de vocês. Sei que voltaremos em breve, com essa e com outras! Valeu.


quarta-feira, 30 de junho de 2010
mudar
Só quando se muda, é que se percebe a quantidade de livros inúteis que ocupam lugar na estante. Só quando se muda é que se dá conta do peso de um livro, de um garfo, dos vasos. E é quando se muda que é possível notar a quantidade de pó que vive entre as coisas. As coisas. Quando se começa a colocar sua vida em caixotes, é que fica claro o número de coisas, peças, objetos que acumulamos. E como é difícil jogá-los fora! Uma pequena anta de cerâmica, uma baianinha com a saia quebrada, a pasta de papéis de carta da adolescência. E ao desmontar num dia, o que você organizou nos últimos anos, é que fica nítida a presença de uma lógica particular e absurda na forma como se guarda as coisas. Como uma gaveta de chaves perdidas que eu encontrei embaixo da cômoda, chaves e mais chaves que eu não consigo jogar fora, por pensar que em algum momento da vida, alguém vai me ligar e dizer: " Sabe aquela chave que eu pedi para você guardar? Então, preciso dela agora." Aliás, é quando se muda e se digladia com as coisas que você carrega e com a dificuldade de se lembrar ao certo de como e por que aquelas coisas vieram parar na sua casa, é que você entende que os espaços do cérebro dedicados a guardar lembranças são curtos e preciosos. Embora infinitamente maiores do que qualquer casa que possamos vir a morar. E é quando se muda, e mais, se reforma o lugar no qual você pretende morar, é que "metros quadrados", um taco original, a diferença entre o mármore importado e o granito nacional, um sifão, enfim, essas questões passam a fazer parte do seu vocabulário e interesse. Sem contar o olhar clínico que adquirimos e podemos usar cada vez que entramos na casa de alguém. Qualquer lugar do mundo, que tenha um teto e quatro paredes, é um lugar perfeito para se utilizar o conhecimento adquirido: se o local está bem acabado, se o azulejo é pintado, quanto custou aquela pia de pedra, se as lâmpadas em questão são de 20 ou 60 volts. É possível até calcular o orçamento da reforma ou construção. E é por estar com a cabeça tomada por tantas coisas cruciais, é que não se tem tempo de parar, postar, comer coisas mais nutritivas que nuggets em tapewares e tirar o resto de esmalte lilás que está na unha há vinte e sete dias.
domingo, 13 de junho de 2010
perucas
Numa manhã mal dormida, não lembro se pela ressaca ou pelos miados insistentes no vão da porta, saí em busca da moldura perfeita para minha personagem. Segue abaixo as tentativas, exceto a escolhida. Esta vocês terão de ir ao teatro para conferir.
esta sou eu, de cabelo molhado, com um chope turvo na mão

acaju, fora de moda

preto básico

que passa desapercebida

nojenta

decadence avec elegance

tentativa mal aparada de moderninha

adolescente que se acha

adolescente sem turma

argentina?

sinhá moça
esta sou eu, de cabelo molhado, com um chope turvo na mão

acaju, fora de moda

preto básico

que passa desapercebida

nojenta

decadence avec elegance

tentativa mal aparada de moderninha

adolescente que se acha

adolescente sem turma

argentina?

sinhá moça
terça-feira, 1 de junho de 2010
pi
O mundo é um lugar bambo. Não conheço nada mais instável do que a terra. Blocos de continente boiando em oceanos, que por sua vez bóiam no magma e sabe se lá em mais o quê. E é este mesmo globo de terra, água, rocha e lava que flutua a esmo pelo espaço. Até onde o segundo grau me ensinou sobre física, tudo coordenado pela força da gravidade, que nos faz ainda mais graves, agudos e aterrados. Não fosse o atrito, uma bola de bilhar nunca pararia de rolar. Saio de manhã para a ginástica, com a vontade de exigir garantias do mundo. "O senhor garante que meu carro vai estar aqui em meia hora?" "Acha que ela ainda vai estar viva em uma semana?" "A reforma fica mesmo pronta em quinze dias?" "E o dinheiro cai na minha conta amanhã?" "E você garante gostar de mim até lá?". E nada. A essa altura o universo se expande ou retrai distraidamente para algum lugar misterioso e eu implorando por garantias. Também o ar, células e fibras correm perfeitamente desatinados pelo corpo. Corpo?
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
e quinta continua a temporada da peça meninas da loja, que eu produzo e atuo com mais algumas feras. Garanto que vou estar lá.
Autor – Caco Galhardo
Direção – Fernanda D’Umbra
Elenco – Martha Nowill, Chris Couto, Cynthia Falabella e Mari Nogueira.
Direção de arte – Simone Mina
Cenário e figurino- Simone Mina e Ofélia Lott
Iluminação – Guilherme Bonfanti
Trilha Sonora – Carcarah
Edição e Sonoplastia- Sérgio Arara
Assistente de Produção – Fabiana Vajman
Estagiária e contra-regra- Juliana Gori
Operação de som e luz- Reynaldo Thomaz
Arte Gráfica- Caco Galhardo
fotografia- Bob Sousa
Direção de Produção – Martha Nowill
Realização – Mil Folhas Produções Artísticas

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
e quinta continua a temporada da peça meninas da loja, que eu produzo e atuo com mais algumas feras. Garanto que vou estar lá.
Autor – Caco Galhardo
Direção – Fernanda D’Umbra
Elenco – Martha Nowill, Chris Couto, Cynthia Falabella e Mari Nogueira.
Direção de arte – Simone Mina
Cenário e figurino- Simone Mina e Ofélia Lott
Iluminação – Guilherme Bonfanti
Trilha Sonora – Carcarah
Edição e Sonoplastia- Sérgio Arara
Assistente de Produção – Fabiana Vajman
Estagiária e contra-regra- Juliana Gori
Operação de som e luz- Reynaldo Thomaz
Arte Gráfica- Caco Galhardo
fotografia- Bob Sousa
Direção de Produção – Martha Nowill
Realização – Mil Folhas Produções Artísticas

terça-feira, 18 de maio de 2010
Abri o jornal e tinha a notícia sobre um acordo nuclear. O algodão do seridó é o melhor do mundo? Que nos importa, madrugada passada perdemos o Cesana. Grande em todos os sentidos, grande de corpo, de alma, coração, grande ator, criador, amigo, escritor, grande risada. O Cesana sempre foi nossa risada companheira na platéia, em alto e nítido som, você sabia quando ele estava lá te assistindo. Era bom. Também era fácil rir com ele. Um dia, no Rio de Janeiro, encontramos o Cesana, em plena tarde do dia 31 de dezembro a espera de um reveillon solitário. Tinha ido fazer algum trabalho e não podia sair da cidade. Ele se juntou a nossa turma e foi uma virada inesquecível. Foi a partir daí que o conheci melhor. Hoje fiquei falando dele para minha mãe, e ela me lembrou que anos atrás o Cesana foi em casa e eu disse. "Mãe, este é o Cesana, puta ator." Ela se lembra bem disse porque quando voltou para casa, encontrou a louça toda lavada e chegou a conclusão que só o Cesana poderia ter limpado tudo aquilo, já que ela jamais esperaria isso de mim, e com razão. Engraçado ela lembrar disso. Não tenho certeza de que foi ele quem lavou aquele monte de pratos, mas é provavel, porque o Cesana era um cara gentil, especialmente com as mulheres.
Ontem foi fomos nos despedir do Marquinhos, que foi como a monja Cohen o chamou. Entre outras coisas ela disse algo parecido com "é como se um amigo fosse fazer uma viagem, você não ia desejar que tudo corresse bem para ele? Que ele fosse em paz? Ou você ia ficar reclamando, pedindo para ele voltar? Pois então, é isso que devemos desejar a ele, que ela vá em paz, que faça uma boa viagem."
Eu não via o Cesana há algum tempo e dói pensar nisso, embarga os olhos, congestiona a garganta. A sensação de ter perdido tempo, de ter faltado a própria festa de aniversário. Não ver os amigos é um pecado. Muitos que estavam no velório, eu também só tenho visto em ocasiões difíceis, de onde tiro a sábia, se me permitem, e óbvia conclusão, que devemos fazer mais festas, tomar mais cafés, vinhos, o que for, com as pessoas que gostamos, admiramos ou amamos. Só isso.
Boa viagem querido. Pode deixar que por aqui vamos continuar fazendo bobagens. Tentaremos sempre estar por perto dos seus filhos e da sua mulher. No final das contas, somos mesmo uma grande familia.
Ontem foi fomos nos despedir do Marquinhos, que foi como a monja Cohen o chamou. Entre outras coisas ela disse algo parecido com "é como se um amigo fosse fazer uma viagem, você não ia desejar que tudo corresse bem para ele? Que ele fosse em paz? Ou você ia ficar reclamando, pedindo para ele voltar? Pois então, é isso que devemos desejar a ele, que ela vá em paz, que faça uma boa viagem."
Eu não via o Cesana há algum tempo e dói pensar nisso, embarga os olhos, congestiona a garganta. A sensação de ter perdido tempo, de ter faltado a própria festa de aniversário. Não ver os amigos é um pecado. Muitos que estavam no velório, eu também só tenho visto em ocasiões difíceis, de onde tiro a sábia, se me permitem, e óbvia conclusão, que devemos fazer mais festas, tomar mais cafés, vinhos, o que for, com as pessoas que gostamos, admiramos ou amamos. Só isso.
Boa viagem querido. Pode deixar que por aqui vamos continuar fazendo bobagens. Tentaremos sempre estar por perto dos seus filhos e da sua mulher. No final das contas, somos mesmo uma grande familia.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
da série CARACTERÍSTICAS
MULHER número: 1
solitária e mandona
Se tivesse alguém para jantar comigo, tirava aquelas ervilhas do congelador, aquela massa folhada que está para vencer, e junto com uma gorda fatia de queijo, colocava tudo para gratinar. Não tem erro, gratinada, até pedra de construção fica boa. Depois enchia a banheira, pois claro, se houver uma cadeira a mais na mesa da cozinha, há de haver uma banheira no lugar do bidê. Aliás, teria mesa de jantar. Uma bem lisa, de madeira lixada, lustrada, a salvo da gordura do fogão , com um lustre de vidro polido em cima para enfeitar. E bem, já que há um lustre, melhor mesmo que seja de cristal. Com lâmpadas quentes, que estou farta de economizar em luz fria. Dói a vista. Neguinho construindo arma nuclear e eu economizando com lâmpadas frias. Quero mais é luz de abat-jour na casa toda, dentro do box do banheiro. Box de vidro, porque cortina de plástico enfeitada com peixinho colorido, já torrou a minha paciência. A minha e a do rodo, que tenho que passar cada vez que se liga o chuveiro. Nem banho de beija-flor estas fajutas seguram. E boiler, com água quente até na fonte japonesa. Para o lixo com essas duchas elétricas. Na infância me davam choque, agora nem nisso. Antes tomava banho de chinelos, passava o tempo todo olhando para os pés, para a tira elástica que feria de leve entre o dedão e dedo da mulher mandona. Sabe que quem tem o segundo dedo maior que o dedão, vai ser uma esposa mandona? Eu tenho. Se viesse alguém para o jantar, eu bem que poderia fazer uso deste artifício. A vida toda com este dedo olhando para mim, me chamando de mandona, é só o que me resta. Mandar. Por enquanto mando na casa, nas paredes, derrubo uma parede se quiser, uma sem cano. Mando nos azulejos se precisar. Pinto, troco, arranco. E saio mandando, da hora que acordo , até voltar para a cama. Mando no moço da padaria, mando ele colocar orégano no queijo quente, sem cobrar em cima. Ele obedece. Eu também obedeço quando mandam em mim no trabalho. Um vai obedecendo o outro, até chegar lá em cima, num topo de montanha coberto com neblina, um homem bem rico, com vinte faqueiros de prata na casa e armários embutidos talhados em pau-brasil. Um homem feliz, com um charuto na boca e um escalda pés na bacia de cobre, sempre, na hora em que ele quiser. Um homem que ninguém manda, ninguém manda nele, ele manda em todo mundo. Mas se ele descesse aqui em casa, um dia, te garanto, ia ter que tirar os sapatos antes de entrar. Aí ele ia saber o que é alguém mandando nele. Eu lhe faria este favor, só a título de experimento. Para este homem, eu prepararia uma refeição fria, porém honesta. Só para ele saber como as coisas andam por aqui.
solitária e mandona
Se tivesse alguém para jantar comigo, tirava aquelas ervilhas do congelador, aquela massa folhada que está para vencer, e junto com uma gorda fatia de queijo, colocava tudo para gratinar. Não tem erro, gratinada, até pedra de construção fica boa. Depois enchia a banheira, pois claro, se houver uma cadeira a mais na mesa da cozinha, há de haver uma banheira no lugar do bidê. Aliás, teria mesa de jantar. Uma bem lisa, de madeira lixada, lustrada, a salvo da gordura do fogão , com um lustre de vidro polido em cima para enfeitar. E bem, já que há um lustre, melhor mesmo que seja de cristal. Com lâmpadas quentes, que estou farta de economizar em luz fria. Dói a vista. Neguinho construindo arma nuclear e eu economizando com lâmpadas frias. Quero mais é luz de abat-jour na casa toda, dentro do box do banheiro. Box de vidro, porque cortina de plástico enfeitada com peixinho colorido, já torrou a minha paciência. A minha e a do rodo, que tenho que passar cada vez que se liga o chuveiro. Nem banho de beija-flor estas fajutas seguram. E boiler, com água quente até na fonte japonesa. Para o lixo com essas duchas elétricas. Na infância me davam choque, agora nem nisso. Antes tomava banho de chinelos, passava o tempo todo olhando para os pés, para a tira elástica que feria de leve entre o dedão e dedo da mulher mandona. Sabe que quem tem o segundo dedo maior que o dedão, vai ser uma esposa mandona? Eu tenho. Se viesse alguém para o jantar, eu bem que poderia fazer uso deste artifício. A vida toda com este dedo olhando para mim, me chamando de mandona, é só o que me resta. Mandar. Por enquanto mando na casa, nas paredes, derrubo uma parede se quiser, uma sem cano. Mando nos azulejos se precisar. Pinto, troco, arranco. E saio mandando, da hora que acordo , até voltar para a cama. Mando no moço da padaria, mando ele colocar orégano no queijo quente, sem cobrar em cima. Ele obedece. Eu também obedeço quando mandam em mim no trabalho. Um vai obedecendo o outro, até chegar lá em cima, num topo de montanha coberto com neblina, um homem bem rico, com vinte faqueiros de prata na casa e armários embutidos talhados em pau-brasil. Um homem feliz, com um charuto na boca e um escalda pés na bacia de cobre, sempre, na hora em que ele quiser. Um homem que ninguém manda, ninguém manda nele, ele manda em todo mundo. Mas se ele descesse aqui em casa, um dia, te garanto, ia ter que tirar os sapatos antes de entrar. Aí ele ia saber o que é alguém mandando nele. Eu lhe faria este favor, só a título de experimento. Para este homem, eu prepararia uma refeição fria, porém honesta. Só para ele saber como as coisas andam por aqui.
sábado, 24 de abril de 2010
zen?
Foi ainda na escola de teatro que eu peguei este livrinho na mão, "A arte cavalheiresca do arqueiro zen". Com dezessete anos, e a ânsia de alcançar na interpretação algo parecido com a profundidade e a seriedade de um arqueiro oriental, devorei as poucas páginas do relato. Tudo que me lembro na verdade, é de me deparar pela primeira vez com a palavra "feericamente", dentro da frase, "O local de exercícios estava feericamente iluminado." Lembro que fiquei encantada com ela, de como uma palavra combinava com a outra e de como eu gostaria de estar naquela sala, junto com o arqueiro e seu discípulo, só para poder entender como seria um local feericamente iluminado. Qual seria a sensação de entrar naquela cúpula de luz, aparentemente sagrada. Lembro de mais uma coisa: a flecha é a extensão do braço e a atenção deve estar no alvo. Mas como vocês podem verificar na fotonovela abaixo, o local estava bastante iluminado; e meus trajes eram ocidentais demais para a prática, mas ainda que estivesse vestida feerica e corretamente, eu, na qualidade de arqueira, estou longe de ser zen.
(o alvo)

(a preparação da preparação)

(presença firme e compenetrada)

(a intolerância da lei da gravidade)
( triste fim da primeira e última tentativa)
_________________________________________________________________________________
e por falar em frio, segunda feira vou lá no masp, ler um conto do homem que escreveu a personagem que me levou até a Rússia. Estão todos convidados.
(o alvo)

(a preparação da preparação)

(presença firme e compenetrada)

(a intolerância da lei da gravidade)

( triste fim da primeira e última tentativa)
_________________________________________________________________________________
e por falar em frio, segunda feira vou lá no masp, ler um conto do homem que escreveu a personagem que me levou até a Rússia. Estão todos convidados.
terça-feira, 13 de abril de 2010
making off

(entre um fotograma e outro, Mari Nogueira, Chris Couto, Martha Nowill e Cynthia Falabella)
Produzir ou não produzir, eis a questão. Atuar e produzir são definitivamente duas estradas paralelas, nas quais você tem que pedalar ao mesmo tempo, contrariando todas as leis da física. Dá trabalho, uma certa irritação e uma baita satisfação quando as coisas começam a acontecer. Eu sempre odiei esperar o telefone tocar, tanto nas questões amorosas quanto nas profissionais. Produzir é um jeito de driblar o deserto da espera e dos hiatos da vida de uma atriz. Se os convites para atuar, e somente atuar, aparecem no meio do caminho, tanto melhor.
A gente estréia no dia 27 de maio, "Meninas da Loja", de Caco Galhardo, com direção da minha multitalentosa amiga Fernanda D Umbra, direção de arte da Simone Mina!, trilha sonora do Carcarah e produção minha. No elenco Chris Couto, Cynthia Falabella, Mari Nogueira e esta que vos fala. Fabiana Vajman é minha nova velha super parceira de produção. Com esta equipe da pesada, vai ser legal.
As fotos da peça são do Bob Sousa, mas estas vieram da máquina fotográfica da Janaína, maquiadora.
(praticando o autoritarismo)
sábado, 27 de março de 2010
o buquê

Passei anos sem pegar o buquê da noiva. Um dia minha melhor amiga pegou, no casamento da outra melhor amiga, e sob conselhos maternos levou-o até o pé de Santo Antônio na igreja do bairro. Foi aí que meu calo apertou, e eu também quis um buquê.
Na semana seguinte tinha o casamento de uma prima, tudo bem chique, floral, com camarões empanados para acompanhar.Na hora do buquê, posicionei-me estratégicamente, finquei o pé no chão e disse em voz alta "Este buquê é meu.". Para minha grande surpresa o buquê voou redondo pelo ar, dando uma pirueta em minha direção. "Eu disse que era meu", vangloriei-me, mas não era, caiu nas mãos da minha tia Valéria, que estava meio metro adiante. Ela deve ter sentido as moléculas de frustração que meu corpo exalou em direção ao dela, e imediatamente me repassou o buquê. Foi quase como um toque de vôlei, e como eu já estava de prontidão, com as caneleiras em punho e os olhos atentos, ninguém percebeu. Todos acharam que o buquê tinha caído em minhas mãos, e eu pude desfilar tranquilamente pela festa com meu troféu.
Dia seguinte fui à igreja Nossa Senhora do Brasil levar minha oferenda para o santo. Não satisfeita fui descalça, achando que aquilo poderia funcionar como um bonûs extra. Desci a rua Augusta com uma espécie de farsa entre os dedos: o buquê roubado, ou melhor, o buquê concedido, o buquê da consolação. Ainda assim mantive o enredo e coloquei-o nos pés de porcelana. Por um segundo tive plena consciência de tudo, e quis que houvesse ali alguma câmera atrás de mim, que tudo não passasse de uma grande encenação e que dali a pouco eu tomaria um café açucarado com o foquista. Mas tratando-se de mim, aquilo, na verdade não era nenhum absurdo. Voltei descalça e suada para casa.
Dois anos depois, no meio de uma pista de dança anunciaram novamente a jogada do buquê. Eu corri, desta vez na direção oposta. "Desta vez quem não te quer sou eu."E fui para o canto, bem longe da noiva, para rir e desdenhar das ansiosas e novatas no assunto. "Essa humilhação nunca mais.", pensei. Mas eis que no três, em movimento bumerangue, o buquê pinga na minha cabeça e caí nas minhas mãos. Amanheceu num copo de requeijão, na pia de casa, onde permaneceu durante toda sua vida útil. Muitas coisas aconteceram entre um buquê e outro, mas os detalhes são dispensáveis.
Segunda passada estive em um casamento. Na hora do buquê, a noiva reclamou que havia poucas mulheres na pista e eu tratei de ir ao jardim chamá-las. Quando voltei ao salão, o buquê já tinha sido jogado. E eu gostei de não ter que tomar nenhum tipo de posicionamento espacial na cena. Já estou satisfeita de buquês, dos falsos e verdadeiros, e esta é uma afirmação baseada em fatos reais. Parece que a moça que pegou o dito cujo, tomou um banho de champanhe na hora em que saltou para resgatá-lo. Que daqui para frente, ela sempre tenha uma garrafa de espumate gelada em sua geladeira, e muita sorte, intercalada com algum azar, só para ela poder distinguir melhor uma coisa da outra.
segunda-feira, 15 de março de 2010
cobaia
Quando você é filha de médico, e este médico tem algumas tendências revolucionárias, inevitavelmente você acaba sendo um pouquinho diferente dos outros na hora de se tratar. Eu era uma garota comum, tirando o fato de não ter tomado a maior parte das vacinas que as crianças tomavam, de ingerir uma colher gigante de óleo de fígado de bacalhau por dia e de ter curado a maior parte das minhas febres com suco de pimentão, para horror das professoras, que não entendiam por que simplesmente não me davam uma dose de antibiótico.
Hoje em dia meu pai é bem menos radical, mas continua bem revolucionário. Mistura tratamentos alternativos com pesquisas em laboratório e eu tomo antibióticos e anti-inflamatórios quando preciso, mas continuo tomando minhas bandeja matinal de fitoterápicos. A última vez que terminei um namoro, digo, que terminamos o namoro, bom, na verdade , que terminaram comigo, eu liguei para o meu pai na mesma hora e disse com toda a tranquilidade: "Pai, tô na maior fossa, vou tomar um remédio para dormir, não importa o quanto você seja contra, mas quero saber qual é menos pior: o dormonid, rivotril ou o frontal?"
No que ele me respondeu rapidamente: "Todos são piores, você vai acordar mais deprimida do que está agora."
"Então vou encher a cara de vinho..." retruquei.
"Martha, vem para cá agora!"
E eu fui, correndo, e ele me deu tanta homeopatia, fitoterapia e outras calmarias, que desabei na cama sem nem lembrar do nome do extinto namorado. Estou contando tudo isso por causa da minha atual infecção do dente. Meu dentista, amigo de faculdade do meu pai, disse que só ia fazer a cirurgia depois que meu pai tratasse com medicação. E após uma semana de muitas injeções, cápsulas, soro e paciência, voltei no consultório. O dentista olhou a chapa do raio-x sorrindo, "É bruxaria mesmo, sumiu tudo, acho que não vamos ter que abrir." Quase explodi de alegria, tenho pavor daquela anestesia na gengiva, daquele bocão pós-cirúrgico. Mas contiuo me tratando, sem poder tomar nem uma cerveja para ajudar a baixar a temperatura do corpo, nesses dias tão quentes que chegam a ser tolos. Mas tudo bem, como diz a avó de alguém, "Saúde e Paz, o resto a gente corre atrás." O que me faz lembrar do meu amigo Marcelo, que um dia soltou este ditadinho popular na sala da casa da namorada uruguaia. Acontece que correr, em espanhol, significa foder, literalmente, e a cara da família da moça, vocês podem imaginar.
Daqui do meu apartamento encalorado e cheio de vitaminas, desejo boa semana para todos, apesar de todas as tritezas que andam diluídas no ar da cidade. Saúde e paz e uma boa corrida atrás do que falta.
Hoje em dia meu pai é bem menos radical, mas continua bem revolucionário. Mistura tratamentos alternativos com pesquisas em laboratório e eu tomo antibióticos e anti-inflamatórios quando preciso, mas continuo tomando minhas bandeja matinal de fitoterápicos. A última vez que terminei um namoro, digo, que terminamos o namoro, bom, na verdade , que terminaram comigo, eu liguei para o meu pai na mesma hora e disse com toda a tranquilidade: "Pai, tô na maior fossa, vou tomar um remédio para dormir, não importa o quanto você seja contra, mas quero saber qual é menos pior: o dormonid, rivotril ou o frontal?"
No que ele me respondeu rapidamente: "Todos são piores, você vai acordar mais deprimida do que está agora."
"Então vou encher a cara de vinho..." retruquei.
"Martha, vem para cá agora!"
E eu fui, correndo, e ele me deu tanta homeopatia, fitoterapia e outras calmarias, que desabei na cama sem nem lembrar do nome do extinto namorado. Estou contando tudo isso por causa da minha atual infecção do dente. Meu dentista, amigo de faculdade do meu pai, disse que só ia fazer a cirurgia depois que meu pai tratasse com medicação. E após uma semana de muitas injeções, cápsulas, soro e paciência, voltei no consultório. O dentista olhou a chapa do raio-x sorrindo, "É bruxaria mesmo, sumiu tudo, acho que não vamos ter que abrir." Quase explodi de alegria, tenho pavor daquela anestesia na gengiva, daquele bocão pós-cirúrgico. Mas contiuo me tratando, sem poder tomar nem uma cerveja para ajudar a baixar a temperatura do corpo, nesses dias tão quentes que chegam a ser tolos. Mas tudo bem, como diz a avó de alguém, "Saúde e Paz, o resto a gente corre atrás." O que me faz lembrar do meu amigo Marcelo, que um dia soltou este ditadinho popular na sala da casa da namorada uruguaia. Acontece que correr, em espanhol, significa foder, literalmente, e a cara da família da moça, vocês podem imaginar.
Daqui do meu apartamento encalorado e cheio de vitaminas, desejo boa semana para todos, apesar de todas as tritezas que andam diluídas no ar da cidade. Saúde e paz e uma boa corrida atrás do que falta.
sábado, 6 de março de 2010
os embalos da vida adulta
Foi um sonho que tive. O carro emperrava. Eu viro a chave e dou nova partida, mas as rodas não giram. Então eu olho para baixo, e vejo que estou no carro dos Flintstones, que o que está emperrado, na verdade, são minhas pernas. Acordo e resolvo abrir uma empresa, tentar entender sobre impostos, sobre siglas de impostos, todas essas transações que são para mim, tão abstratas como a bolsa de valores ou a localização exata do espaço virtual no mundo. E diante dessa decisão, do medo da receita federal e das notificações que podem vir a chegar embaixo da minha porta, minhas rodas andam, mas é aí que minhas costas travam, durante uma semana, e depois delas, uma inflamação nos dentes. Em seguida uma febre, uma caixa de antibióticos no valor de cento e dezesseis reais, que é quase o valor dos honorários mensais do contador. Ontem uma noite de pequenos delírios febris. Hoje uma manhã comum, sem dor e a notícia de que minha sobrinha conseguiu dar sozinha, seus cinco primeiros passos em direção a vida adulta. Depois caiu com a bunda no chão.
sábado, 20 de fevereiro de 2010
diário do carnaval em Berlim

(a neve e eu)
quinta-feira de carnaval
Chego atrasada, ironica e distraidamente carregando um copo de coca-cola do Mac Donalds na Bertolt Bretch Platz. A estátua do autor em questão tem gelo até as canelas. Assisto "Mutter Courage" e mais uma vez chego a conclusão de que algumas peças, ainda que universais, fazem mais sentido na língua mãe. Se um alemão assiste uma versão de "Morte e vida severina" em Berlim e depois assiste no Brasil, por exemplo, ele provavelmente terá a mesma sensação que eu tenho assistindo B. B, numa montagem do Berliner Ensemble depois de ter visto dezenas de vezes em outros lugares. É como apertar a tecla sap. Depois volto para casa de metrô e, pela primeira vez, sem comprar o bilhete.
sexta-feira de carnaval
O dia do nu. Vou ao museu Helmut Newton e vejo aqueles nus maravilhosos em tamanho quase real. Milhares de fotos, mulheres lindas, dos anos 60,70,80,90. Uma depilação quase demodé e a fixação pelos saltos. Me arrumo bastante neste dia, sei que a possibilidade de me sentir menos bonita do que todas as mulheres do mundo é real. Saio de lá e vamos para a sauna, um barco flutuante no canal congelado. É proibido entrar entrar em trajes de banho, ou qualquer peça de roupa que não seja a própria pele. Diante da ameaça de um funcionário tatuado com cara de bravo, que joga eucalipto nas pedras como se estivesse no cirque du soliel, tiro a parte de cima do biquini. Nunca vi tantos homens pelados por metro quadrado, uma avalanche quase claustrofóbica. Por alguns minutos o João vai para sauna de 60 graus enquanto que fico na de 90. Eis então que recebo uma paquera, na cara dura. Definitivamente, ser assediada em trajes, digo, não trajes de banho, as três da manhã, em uma sauna berlinense, é uma coisa bem esquisita. Não sei se recomendo.

(eu e a neve)
sábado de carnaval
A cidade está cheia por causa da Berlinale, tem até um pouco de trânsito. Berlim pode ser uma grande metrópole, mas tem, ao mesmo tempo, uma calma interiorana. Dou uma volta pelo frio, saio para comer com as crianças e o dia escurece. Tomo uma becks na banheira quente e vou para cama cedo.
domingo de carnaval
Hoje é estréia do filme do Esmir Filho no festival. A sessão está cheia, equipe no palco. Depois assisto um espetáculo de dança-teatro com tudo que menos gosto do teatro associado ao que mais me aborrece na dança; apesar da qualidade do trabalho dos bailarinos. Enfim, foi chato. Mas as festas do festival, que vieram em seguida, foram bacanas. Eu até pude dançar umas marchinhas, o que me faz lembrar, no meio da madrugada, que é carnaval no Brasil.

(eu, a champanhe e a neve ao fundo)
segunda-feira de carnaval
Uma ressaca absurda, neva lá fora eu acordo suando frio na cama. Pegamos um taxista árabe, o cara fala sobre a colônia árabe no Brasil, pergunta sobre um tal de Maluf. Me arrasto do banco do carro até um cinema enorme, uma mistura de maracanã, com teatro municipal. A sessão lotada de "Exit through the gift shop", um filme bom, sobre um cara que que quer fazer um documentário sobre o Banksy. Imagino se ele não está por lá, a paisana. Começo a me despedir da cidade. Encontro com a Guta Ruiz, recém-chegada na Alemanha, odiando a Alemanha, os alemães, os taxistas. Tento contar que também passei por isso, que vai melhorar, mas ela parece não querer dar mais uma chance a cidade.
terça-feira de carnaval
Meu último dia em Berlim. Saio para almoçar no asiático com Camila, brasileira residente na cidade, e Guta, que resolveu espremer uma espinha na cara e agora, além de estar odiando a Alemanha, tem o lábio superior ligeiramente inchado. Depois vou tomar um lanche de despedida com as crianças, fico um pouco triste. Assistimos Bob Wilson no Berliner Ensemble e gosto tanto da comida do almoço que resolvo repetir no jantar. Uma overdose. Durmo em cima das malas.
quarta-feira de cinzas
O único engarrafamento que presenciei na cidade aconteceu bem na hora que eu ia para o aeroporto. O João me lembra que não comi salsichas durante a viagem. "Meu Deus, eu na Alemanha sem comer nenhuma salsicha, que pecado." E corro para o balcão das salsichas no aeroporto de Tegel, e quase me puno por não ter comido esta maravilha antes. Como uma, duas, e só não como a terceira porque chamam meu vôo para Frankfurt. O João fica mais uns dias na cidade com os filhos. Já no avião, derrubo, juro, um copo de suco de tomate em cima de mim e do alemão no lado. Passo todo o vôo no banheiro lavando minha camisa e a dele. Na segunda parte da viagem o avião chacoalha muito.
quinta-feira dia 18
Chego viva em São Paulo. Penso no absurso que é a mudança físico-espacial para um corpo que atravessa o globo em doze horas. Meus pés estão inchados. Conto para minha mãe que só fui comer salsichas no último minuto da viagem e estou inconformada com isso. Ela ri de mim, diz que foi melhor assim, pelo menos para minha saúde. São Paulo é cara, e como é cara. Me dou conta de que São paulo é uma cidade que você dificilmente consegue se divertir com pouco dinheiro, ao contrário da Europa. Chego a conclusão de que preciso ganhar mais, e já chego trabalhando, quarta-feira de cinzas pós meio-dia, como boa paulista que sou. Assim esqueço a saudade.

(eu, a salsicha e não se vê, mas lá fora, a neve)
ps: não tenho autorização de imagem dos outros personagens, por isso o álbum é um pouco egocentrado.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Já não neva mais.
A temperatura caiu e o gelo endurece quase como se calcificasse, o que deixa as ruas mais lisas que pistas de patinação no gelo, com o detalhe que você está sem os patins. Vimos no jornal outro dia "Muitas pessoas com costelas quebradas chegam aos hospitais de Berlim". Eu mesma levei um tombo feio ontem, correndo para pegar o ônibus das 15:07 minutos. Rasguei a calça nova, esfolei a pele e ganhei um galo nos joelhos.
O frio é uma coisa acumulativa, você sai de casa encapotado e pensa "Ah, não está tão frio...". Cinco minutos se passam e o frio atravessa seu casaco sem pedir licença, e este é o momento que você pensa "Nossa, na verdade está meio frio...". Mais dez minutos e o frio alcança seus músculos e você chega a conclusão de que realmente deveria ter posto aquela meia-calça extra. No fim de meia hora o frio já alcançou seus ossos, você não sente as extremidades, maldiz o momento em que resolveu sair do seu país e só te resta procurar abrigo.
Além de levar um tombo fiz algumas coisas interessantes estes dias. Vi a exposição de um desenhista muito bom chamado Walton Ford, essa imagem aí de cima é dele, tudo em telas gigantes. Também fui à Filarmônica e vi um concerto clássico lindo, no meio uma performance moderna do Ligeti, o mesmo cara que compôs a música do 2001. Paguei 10 euros e sentei no melhor lugar da casa. Sorte de principiante. Já comi no indiano, no turco, no árabe, tailandês, chinês, alemão, italiano e cozinhei um arroz com peixe só com alho e cebola em casa, numa tentativa de fugir deste tempero todo.O pão aqui é de primeiríssima qualidade e outro dia ouvi um brasileiro dizendo que um dos motivos dele morar aqui era por causa do pão. Teve também as baladas, as pesadas e as leves. Caí num lugar onde as pessoas entram sexta à noite e saem domingo fim de tarde, Panorama. Depois de alguns drinks venenosos de vodka com melância fui levada à força para casa, coisa que detestei na hora mas agradeci muito no dia seguinte. Conheci o mercado de pulgas, os brechós, especialmente um que vende roupa a quilo chamado Garage, as galerias de arte da LinienStrasser e a catedral. Passei por muitas ruas que não sei pronunciar o nome, entrei em muitos cafés, cinemas e mercadinhos de esquina. Também devo confessar, já fui algumas vezes na H&M, garimpar peças de fim de liquidação, o que para mim é fácil, porque ao contrário do Brasil onde as lojas só tem P e M, e o G mais parece um P, as mulheres aqui são grandes, por isso não faltam tamanhos reais nas araras.
É uma cidade moderna, jovem. Se toda a cidade estivesse pixada, não seria algo muito berrante. Exceto na Filarmônica, eu quase não vejo gente mais velha por aqui, parece que todo mundo tem dezessete ou trinta e quatro anos de idade. Talvez seja por issso que eu não tenha gostado de Berlim à primeira vista, ou talvez porque os alemães podem ser bem grossos de vez em quando.
Mas depois de um tempo Berlim parece mais acolhedora e eu já tenho vontade de esticar a viagem. Especialmente porque agora, depois de dias de martírio e pé gelado, encontrei a bota perfeita: é bonita, não escorrega tanto, não aperta, relativamente impermeável, é comprida e deixa o pé aquecido. Se você está lendo este texto num país tropical, estas informações podem não parecer relevantes, mas para mim, foi quase uma guerra encontrar estas botas. As lojas de sapato não estavam preparadas para o frio que fez algumas semanas atrás e o estoque esgotou em poucos dias, em quase todos os lugares. Entrei em quase todas as lojas de sapato da cidade, e depois disso, posso dizer com convicção que meu namorado é o homem mais paciente do mundo. Pelo menos no inverno.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
tema
neva dentro das casas
gavetas
e nos bolsos
neva nas óperas
onde se espera
para tossir
entre uma peça
e outra
neva nos arcos
dos violinos
nas testas
dos operários
do som
neva na fúria
e na doçura
dos meninos
meninas
e nos tolos
nas televisões de plasma
vasos
trilhos
em alguma coxa tenra
de mulher
ave
ou sonho
neva nos pensamentos recorrentes
entre os dentes
no rouge
cílios,
neva neve fresca
no gelo antigo
sujo de lama
e pedregulhos
que a terra rejeita
ou absorve
neva na terra
pelo ar
sobre a água
para o fogo
gavetas
e nos bolsos
neva nas óperas
onde se espera
para tossir
entre uma peça
e outra
neva nos arcos
dos violinos
nas testas
dos operários
do som
neva na fúria
e na doçura
dos meninos
meninas
e nos tolos
nas televisões de plasma
vasos
trilhos
em alguma coxa tenra
de mulher
ave
ou sonho
neva nos pensamentos recorrentes
entre os dentes
no rouge
cílios,
neva neve fresca
no gelo antigo
sujo de lama
e pedregulhos
que a terra rejeita
ou absorve
neva na terra
pelo ar
sobre a água
para o fogo
domingo, 31 de janeiro de 2010
primeiras e terceiras impressões de Berlim
São quase duas da tarde em Treptow e tem um pimpolho assistindo uma versão dublada, em alemão, de Hobin Hood na minha sala. Na janela, cubos de gelo derretem por causa do sol e eles dizem que isso é quase verão por essas bandas.
Eu não vim para cá por causa de nenhum curso, trabalho ou férias, vim, na verdade, conhecer os três filhos do João, meu namorado. Não, ele não é alemão, mas teve a proeza de fazer três filhos aqui. Do menor para o maior: Cauê, Gil e Clara; sete, doze e quinze. Graças a Deus não são nenhuma dessas pestinhas que a gente vê por aí, pelo contrário, mas são crianças, adolescentes e eu ainda não entendi se vim para cá para que eu os aprove ou o contrário. De qualquer forma, a vida de "madrasta" requer uma doze extra de jogo de cintura e afeto, e eu ainda questiono se estou bem preparada para tal.
No primeiro dia eles me fizeram atravessar um canal congelado quando eu ainda estava vestida em botas cauboi. Foi como sair do aeroporto para um gincana: as botas deslizando, o medo do gelo quebrar em baixo de mim e eu afundar como sardinha água abaixo.
Sinceramente, tenho me sentido um pouco velha, ajudando o João a administrar uma adolescente que conhece todos os lugares da moda por aqui, enquanto que eu, há meses longe da solteirice, não caio numa balada mais arrojada. A idade anda me pegando desprevenida, assim como o frio.
Fora isso, o que mais vejo por aqui são turcos, bom, evidente, já que estou hospedada num bairro turco. Os kebabs são maravilhosos, as palmilhas térmicas funcionam, embora deixem a bota um pouco apertada.
O apartamento onde estou, em Berlim oriental, foi construído em 1901, provavelmente para operários morarem. Tem um pé direito altíssimo, palha entre os tijolos e um cômodo gelado para entulhos atrás do banheiro, único lugar sem calefação da casa. Um prédio bem alemão, daqueles que você imaginava na época do muro, pois então, é aqui. Claro que passou por reformas e adaptações e é atualmente um lugar charmoso, onde tenho tomado longos banhos quentes de banheira, sabendo que lá fora neva.
Venho para Berlim achando que é lugar do momento na Europa, enquanto que eles tem certeza que o Brasil é o país do futuro. Engraçado. Ontem encontrei um casal de amigos que conheci por acaso nas ruas de Moscou, ano passado, e que, por acaso, também estão na cidade. Fomos a um concerto. Eles estão indo para o Brasil amanhã, fazer uma mostra de cinema russo na cinemateca.
Atravessar o mundo, às vezes, é como ir até a esquina.
Eu não vim para cá por causa de nenhum curso, trabalho ou férias, vim, na verdade, conhecer os três filhos do João, meu namorado. Não, ele não é alemão, mas teve a proeza de fazer três filhos aqui. Do menor para o maior: Cauê, Gil e Clara; sete, doze e quinze. Graças a Deus não são nenhuma dessas pestinhas que a gente vê por aí, pelo contrário, mas são crianças, adolescentes e eu ainda não entendi se vim para cá para que eu os aprove ou o contrário. De qualquer forma, a vida de "madrasta" requer uma doze extra de jogo de cintura e afeto, e eu ainda questiono se estou bem preparada para tal.
No primeiro dia eles me fizeram atravessar um canal congelado quando eu ainda estava vestida em botas cauboi. Foi como sair do aeroporto para um gincana: as botas deslizando, o medo do gelo quebrar em baixo de mim e eu afundar como sardinha água abaixo.
Sinceramente, tenho me sentido um pouco velha, ajudando o João a administrar uma adolescente que conhece todos os lugares da moda por aqui, enquanto que eu, há meses longe da solteirice, não caio numa balada mais arrojada. A idade anda me pegando desprevenida, assim como o frio.
Fora isso, o que mais vejo por aqui são turcos, bom, evidente, já que estou hospedada num bairro turco. Os kebabs são maravilhosos, as palmilhas térmicas funcionam, embora deixem a bota um pouco apertada.
O apartamento onde estou, em Berlim oriental, foi construído em 1901, provavelmente para operários morarem. Tem um pé direito altíssimo, palha entre os tijolos e um cômodo gelado para entulhos atrás do banheiro, único lugar sem calefação da casa. Um prédio bem alemão, daqueles que você imaginava na época do muro, pois então, é aqui. Claro que passou por reformas e adaptações e é atualmente um lugar charmoso, onde tenho tomado longos banhos quentes de banheira, sabendo que lá fora neva.
Venho para Berlim achando que é lugar do momento na Europa, enquanto que eles tem certeza que o Brasil é o país do futuro. Engraçado. Ontem encontrei um casal de amigos que conheci por acaso nas ruas de Moscou, ano passado, e que, por acaso, também estão na cidade. Fomos a um concerto. Eles estão indo para o Brasil amanhã, fazer uma mostra de cinema russo na cinemateca.
Atravessar o mundo, às vezes, é como ir até a esquina.
sábado, 23 de janeiro de 2010
set

O set é uma espécie de Vaticano, tem leis próprias que independem do mundo lá fora, uma hierarquia absolutamente necessária, visível e uma espécie de áurea sagrada em volta dele. Quando você está num set todas as outras coisas da sua vida parecem estar fora de foco, nubladas e distantes. E lá dentro você faz coisas como fumar prestando atenção em não mostrar a marca do cigarro, fica atenta na posição dos seus cotovelos antes de desmanchar uma postura, tem olhos em voltas do pescoço, equilibra microfones no sutiã, dá suas falas nos intervalos de aviões, olha para pedaços de fita crepe como se olhasse o horizonte, se equilibra em saltos apertados, almoça com espartilhos ou outros figurinos bizarros, comuns, enfim, cada set é um set, mas em todos você invariavelmente espera e toma café sem parar. Agora tudo isso é perfumaria, porque o que você de fato foi fazer ali é uma coisa maior. É como se você fizesse toda a trilha para Machu Pichu a pé, passasse dias esperando, andando com os pés calejados e uma mochila carregada nas costas, tudo, tudo para chegar no lugar onde a vista é mais bonita e ter cinco minutos de deslumbramento.
Cinema é mais ou menos isso, você espera, ensaia, maquia, espera, entra na luz, sai da luz, espera, retoca a maquiagem, passa o texto, espera, fica imóvel, concentra, perde a concentração, retoma, espera, olha ao redor, respira e finalmente toda aquela parafernália de luz, gente e som silencia para que você possa dar vida a um personagem que nasceu por acaso na cabeça de alguém, talvez numa tarde chuvosa como esta. E nestes poucos minutos em que a cena é o centro do mundo, alguma coisa acontece, uma coisa que eu não sei direito explicar, mas que justifica todo resto.
Eu estive "presa" num set semana passada e por isso não estive aqui, e estive feliz, porque adoro fazer cinema, gosto de toda essa confusão, essa meticulosidade, tudo em volta, quando tudo começa e finalmente termina.
Terça parto para Berlim e volto na quarta-feira de cinzas, que me pareceu um bom dia para marcar a passagem de volta. Parece que é o inverno mais frio dos últimos trinta anos, parece que venta muito. Mas, bom, como já tenho meu casaco da viagem para a Rússia, me sinto um pouco menos apavorada. Se alguém estiver a passeio pela região me avise, vamos falar português e comer algo estranho e apimentado juntos. Menos chucrute. Então tá, escrevo de lá!
Lá em cima na foto, eu e Cynthia Falabella, parceira adorável de cena, no set. A foto é do Ravel Cabra e Jorge, que também acabou passando por lá.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
estrelas

Antigamente férias era um lugar grande, amplo, uma espécie de galpão onde São Paulo cabia vazia num canto e a fazenda Santa Maria ocupava todos os centímetros restantes. Lá onde eu passei quase todos os janeiros da minha infância, torcendo para que o mês de fevereiro daquele ano tivesse mais de vinte e oito dias, e esperando aparentar quatorze anos para não ser barrada no baile de carnaval. Férias era um tempo que durava desde o último sinal da última sexta-feira de aula, até a arrumação dos cadernos na mochila, véspera do primeiro dia. Era um retrato onde meus avós eram velhinhos, mas nem tanto e minha mãe desfilava pelos cômodos como se tivesse acabado de sair de um filme de Eric Romher. Um lugar onde meu pai dormia e acordava com uma raquete de tênis na mão direita e eu vestia as mesmas roupas até encardir. Cada ano que passava era um dente que trocava ou uma nova cicatriz, como uma enorme na coxa direita, mal costurada por algum enfermeiro do posto de saúde de Cafelândia, lembro até hoje dos pontos apertados com linha preta.
Ontem vi um filme onde o Omar Sharif dizia para um menino: “Felicidade é fazer as coisas lentamente.” É o que tenho feito neste mês de janeiro aqui em São Paulo, trabalhado como se o sol batesse nas costas, bem lentamente. Talvez seja só uma reminiscência dos dias que passei no campo. Talvez na primeira semana de março todo este discurso já tenha ido por água abaixo e eu esteja em algum farol da Brasil com a Rebouças, com gotas de suor na testa, maldizendo o sujeito da saveiro da frente, placa de São José dos Campos, que parou no farol amarelo.
Talvez, mas por enquanto, o céu preto com milhões de pontos brancos, espetáculo noturno diário na fazenda da minha infância, pode estar a quatrocentos e cinqüenta quilômetros de distância, não importa, férias é abrir o livro, bem lentamente, e ter tempo para gostar de um poema tão simples como este:
Há estrelas brancas, verdes, azuis, vermelhas.
Há estrelas-peixes, estrelas-pianos, estrelas-meninas,
Estrelas-voadoras, estrelas-flores, estrelas-sabiás.
Há estrelas que vêem, que ouvem,
Outras surdas e outras cegas.
Há muito mais estrelas que máquinas, burgueses e operários:
Quase que só há estrelas.
do Murilo Mendes
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
o novo ano
As pessoas vêm para São Fransisco Xavier descansar e eu para sair das pequenas encrencas nas quais me meto. No primeiro dia fui ao hospital da cidade para saber se a topada que dei no pé era uma contusão, fratura ou luxação. Era contusão. No segundo dia fui novamente à cidade atrás de um borracheiro para o pneu furado. No terceiro e presente dia, tenho de correr atrás do meu celular que, ou bem ficou esquecido na lojinha de verduras ou se perdeu na ribanceira da casa de um amigo, mesmo lugar onde deixei cair uma garrafa de vinho tinto retinto no tapete novo de algodão branco da sala. Problemas de caráter ameno, doméstico, mas que acabam atormentando meus dias de descanso.
Um grande feito da viagem é a vinda de Romit, meu gato. Como já mencionei anteriormente, Romit é um gato peculiar que ganhei de um cigano lá de Santo André, tem asma, uma orelha quebrada e mia como uma coruja quando cisma de. A questão é que eu não agüento mais sair de São Paulo e deixá-lo trancado no apartamento, sozinho, dependendo das visitas do zelador para se comunicar com o mundo. Toda vez que volto são necessários mais ou menos quinze dias para que ele se recupere da minha ausência. É possível que você esteja pensando “Puta gato chato, se livra logo dele.” Sim, ele de fato é um tanto quanto chato, mas é meu, e não é justo pegar um bicho para criar e fazê-lo infeliz, ou qualquer que seja o adjetivo para denominar um animal judiado. Por isso decidi trazer o Romit para São Fransisco Xavier, e contrariando as expectativas dos especialistas de que ele se meteria embaixo da cama e não sairia mais, ou sairia correndo atrás de um passarinho e se perderia na mata, meu gato está feliz como nunca. Passa o dia estendido no terraço, corre atrás de insetos, volta para fazer suas refeições e dormir no tapete. A asma quase desapareceu e ele parou de miar. Já se vão mais de três anos e só agora descubro que o bicho que mora comigo não é um gato de apartamento como eu pensava, e sim um bom selvagem, adepto a vida do campo e suas vicissitudes.
Romit certamente tem se adaptado melhor do que eu ao ambiente rural, mas não perco a esperança de ainda ter um dia inteiro para mim, na rede, sem ter que resolver nada além da escolha do sabor do bolo que vou assar depois do almoço, se vai ter carne ou peixe no jantar ou se tomo banho de ducha ou rio.
Eu iria ao cinema se estivesse em São Paulo, a um mercado turco se estivesse em Istambul, a nenhum lugar se fizesse o frio de Moscou ou a ponte Pênsil se morasse em Piracicaba. Daqui onde me encontro vou ajeitar oferendas para Iemanjá, tentar terminar o livro que comecei seis meses atrás e esperar o novo ano, que além de ser só mais um, vai ser um grande ano para todos nós.
Um grande feito da viagem é a vinda de Romit, meu gato. Como já mencionei anteriormente, Romit é um gato peculiar que ganhei de um cigano lá de Santo André, tem asma, uma orelha quebrada e mia como uma coruja quando cisma de. A questão é que eu não agüento mais sair de São Paulo e deixá-lo trancado no apartamento, sozinho, dependendo das visitas do zelador para se comunicar com o mundo. Toda vez que volto são necessários mais ou menos quinze dias para que ele se recupere da minha ausência. É possível que você esteja pensando “Puta gato chato, se livra logo dele.” Sim, ele de fato é um tanto quanto chato, mas é meu, e não é justo pegar um bicho para criar e fazê-lo infeliz, ou qualquer que seja o adjetivo para denominar um animal judiado. Por isso decidi trazer o Romit para São Fransisco Xavier, e contrariando as expectativas dos especialistas de que ele se meteria embaixo da cama e não sairia mais, ou sairia correndo atrás de um passarinho e se perderia na mata, meu gato está feliz como nunca. Passa o dia estendido no terraço, corre atrás de insetos, volta para fazer suas refeições e dormir no tapete. A asma quase desapareceu e ele parou de miar. Já se vão mais de três anos e só agora descubro que o bicho que mora comigo não é um gato de apartamento como eu pensava, e sim um bom selvagem, adepto a vida do campo e suas vicissitudes.
Romit certamente tem se adaptado melhor do que eu ao ambiente rural, mas não perco a esperança de ainda ter um dia inteiro para mim, na rede, sem ter que resolver nada além da escolha do sabor do bolo que vou assar depois do almoço, se vai ter carne ou peixe no jantar ou se tomo banho de ducha ou rio.
Eu iria ao cinema se estivesse em São Paulo, a um mercado turco se estivesse em Istambul, a nenhum lugar se fizesse o frio de Moscou ou a ponte Pênsil se morasse em Piracicaba. Daqui onde me encontro vou ajeitar oferendas para Iemanjá, tentar terminar o livro que comecei seis meses atrás e esperar o novo ano, que além de ser só mais um, vai ser um grande ano para todos nós.
Assinar:
Postagens (Atom)
