segunda-feira, 1 de abril de 2013
meu avô Alex
Eu nunca consegui dizer o nome dele por inteiro, um nome inglês, difícil. Para mim era o vovô Alex.
Um homem colérico, entusiasmado e generoso. Sempre falei muito da minha avó, da sua coragem, força, mas quase nunca dele. Quando lembro do meu avô, penso em como ele era bricalhão, na gula que ele tinha, nos molhos mirabolosos de salada que ele inventava, nas viagens que fazia, no gosto que tinha com os filmes, as peças que via. Mas penso sobretudo na audácia que ele teve quando casou com minha avó: uma mulher que além de cega, ele teve que dividir durante toda sua vida com a causa pela qual ela lutava. E o quanto ele a ajudou e a apoiou em sua missão.
Ponto para o meu avô, sei que não foi fácil.
Que homem corajoso e que sorte a minha de herdar dele esse Nowill difícil de pronunciar. Esse Nowill que se me faz ser tão impulsiva, colérica, mal educada às vezes e tão ansiosa, também me dá a coragem, a elegância, o talento para o fogão, o humor, a braveza, a esperteza e a pontualidade quase sempre britânica em minha vida. Pensando bem acho que a pontualidade não é muito característica dos Nowill não, isso é meu mesmo.
O Nowill me coloca para frente, embora o nome sugira o contrário à primeira vista.
Quando Alex foi marcar o primeiro encontro com minha avó Dorina pelo telefone foi logo avisando: "Olha, eu sou feio, viu!", no que ela retrucou: "Tudo bem, eu sou cega mesmo." E assim começou a nossa familia.
Havia muito amigos e familiares no velório, mas o que mais se via eram os netos rodeando seu caixão. Não sei o que meus primos estavam sentindo além da tristeza e do vazio. Eu senti gratidão.
Gratidão e amor. E quando chegou a hora de levar seu corpo ao cemitério, acabei por acaso embicando meu carro atrás do carro do serviço funerário que era conduzido por um sujeito magricela, e que fumava um cigarro com gosto enquanto desfilava calmamente o corpo do meu avó pela cidade. Lembrei do poema do Bandeira:
momento num café
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto longo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Não que alguém tivesse tirado o chapéu enquanto a gente ia da São Carlos do Pinhal até o cemitério da Consolação, mas eu fiquei honrada de ser o primeiro carro a seguir meu avô, me senti guardiã daquela travessia. E embora os pedestres não saudassem o esquife como sugere o poema, e um taxista insistisse em furar a nossa fila, o cortejo me pareceu digno de um lorde inglês. Nosso lorde.
E aí parei para pensar no poema que eu costumava declamar entre os meus dezessete e vinte anos. Naquela época eu pensava, é, a vida é mesmo uma agitação feroz e sem finalidade, achava a frase bonita, sonora.
Hoje minha vida continua feroz, agitada, mas eu descobri sua finalidade, e tenho certeza de que você cumpriu a sua vovô, por inteiro, por isso descanse em paz. E todo meu amor para você.
com ele, preparando um molho de salada....
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
ternura pelos homens na academia
terça-feira, 16 de outubro de 2012
E se a gente?
"Meu Deus, não temos uma toalha xadreza!"eu gritaria, e ele com seu sorriso: on s'en fout! Sim , foda-se, completo eu, vamos usar sua camisa no lugar da toalha. E me encanto por uma senhora em conjunto de tailleur cor-de-rosa-bebê e chapéu combinando que aguarda na fila do caixa ao lado, enquanto minha excelente companhia, sua barba camisa e sapato, e eu vejo que ele tem o pensamento longe, entrega uma nota de vinte euros para a moça. Ele segura minha mão, “cuida das cerejas”, ordena e voltamos para a rua. Eu e minha excelente companhia de barba por fazer camisa amassada olhos doces e brilhantes como um alazão atravessamos um grupo de crianças entre cinco e oito anos vestidas em uniformes encardidos na saída da escola. Pequenos parisienses eu digo, ao que minha adorável companhia sorri: futuros parisienses mal humorados, retruca. Minha excelente companhia ri para dentro enquanto rio para fora e sei que o ar que utilizamos para nos comunicar se encontra e se mistura em algum lugar no meio do caminho entre nossos pulmões e a estratosfera. Olho para a garotinha francesa que carrega uma mochila maior do que ela, como era chato usar uniforme, penso. Depois repito o pensamento em voz alta, feliz por estar de vestido, sapatos e bolsa a tiracolo. Minha companhia em barba por fazer, sapato de couro, olhos de cavalo, oscila entre um grande coração e sua ironia pontiaguda enquanto fala em voz grave baixa: tem um parque bonito ali. Minha mão não transpira há anos, mas tenho medo que o barulho da rua seja menor que os saltos que meu coração dá. Meu coração é mesmo um atleta, penso dentro do vestido coral, sapato e bolsa conhaque. Me empresta a baguete? digo, e só nos falta uma bicicleta para parecermos objetos de cena de um filme da Nouvelle Vague. Eu em coral e minha excelente companhia com sua ironia pontiaguda, calça e cabelos cor-de-burro-quando-foge adentramos um parque tipo folha de calendário sem um só eletrônico nos bolsos. Nosso pequeno mundo não tem wifi, sinal de celular ou feed de notícias. Quebro a ponta da baguete e mastigo com furor um pedaço de pão enquanto minha adorável companhia com olhos de alazão, barba por fazer, sapatos formidáveis e mãos de agricultor procura um abridor de vinho no café mais próximo. Aproveito para montar o melhor sanduíche do mundo, e sim, arranco um punhado de grama e coloco entre o queijo e o pão. Ou não, melhor não. E eis que volta minha linda companhia dentro de sua camisa mal passada, passando suas mãos de agricultor na barba que está por fazer, me olhando com seus olhos tristes de alazão, pisando firme em seus sapatos aceitáveis e sorrindo como se fosse o sacana que ele não é. Traz um abridor na mão. E por que você não abriu a garrafa lá?, pergunto. "Mas vai que a bêbada aqui resolve comprar outra garrafa no caminho...", ele ri. "E afinal, ganhei o abridor de cortesia." Eu também te daria um abridor, meu bem, se você fosse ao meu café com essa cara de excelente companhia que só você tem. Ao que meu par me pede como se me pedisse em casamento:
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
A primeira confissão
A primeira confissão, por Martha Nowill
ESPECIAL PARA A FOLHA
| Arquivo pessoal | ||
| A atriz Martha Nowill, aos oito anos, na primeira comunhão, em 1989 |
terça-feira, 7 de agosto de 2012
teria graça se fosse de outro jeito?
segunda-feira, 14 de maio de 2012
só garotos
quinta-feira, 12 de abril de 2012
fato
-cara
-o 3g da tim não resiste a uma garoa paulista
-São Paulo sem chuva judia dos nossos pulmões
-com chuva judia de todo o resto
-gentileza é ouro
-é deselegante entrar no carro de alguém falando no celular e assim permanecer durante todo o percurso
-amor não tem especificidade
-não, eu não tenho cartão Mais
-o verbo instagramar deixou o googlar obsoleto
-obsoleta sou eu, no meio da chuva e da pista de vinte poucos anos do lolapalooza
-eu não tenho mais vinte e poucos anos
-não, eu não estou em cartaz
-mato ruim cresce depressa
-enquanto a gente atua, dança e sapateia, tem um pessoal ganhando muito dinheiro por aí
-ainda não consegui o contato desse pessoal para futuros patrocínios
-eu hei de conseguir
-não, eu não tenho what´s up
-por que não
-quem tem vergonha na cara ruboriza
-mascando chiclete qualquer um tem o ar estúpido
-eu só masco chiclete escondida
-um bom haikai pode salvar o dia
-um cigarro pode salvar a foto
-nem um grande ator pode salvar uma pessima ideia
-mas um vestido pode salvar uma mulher
-ideia não tem mais acento, de resto, creio não ter absorvido as novas regras da língua portuguesa
-em voz alta, a língua mais linda do globo é o italiano
-pena que aprender espanhol seja mais produtivo
-lindos os italianos também
-não, a balança não está desregulada, você é que comeu demais
-como é bom comer
-como é bom ter amigos
-como é bom conseguir uma carona fim de noite
-como é bom subir os vinte e três andares sem ninguém no elevador
-como é bom cinema, pipoca e mãos
-como é ruim a projeção do Bristol
-eu deveria parar de ir ao Bristol
-eu deveria parar de ir em testes de publicidade
-eu nunca mais vou num teste de publicidade
-a não ser que o cachê seja mais de quinze mil
-como eu sou barata
-haja dinheiro para ser solteiro
-haja tempo para ser polígamo
-haja fé para o amor
-haja amor para descartar a fé
-eu acredito em mim, em bruxas, duendes, ETs e café turco
-no mais, depois de entupir os bueiros, as águas correm para o mar
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
o dia em que eu fiz as malas para sair de casa
(eu e os pinguins)
As geleiras azuis que vi no fim do mundo e que me fazem lembrar que um dia elas não estarão mais lá. Ver uma geleira derretendo é triste, como é triste o fim do amor. Mas a ideia de que elas não acabam, só se liquefazem, me ajuda a entender as coisas que se passam no meu coração. E só posso agradecer a este homem, que além de encarar uma mulher como eu (aqui caberia um parênteses extenso, já que tenho consciência de ser uma mulher bacana de conviver, mas não exatamente simples ou fácil), enfim, agradecer a este homem que me mostrou o amor com tanta generosidade.
Tenho sentido desejo de comer manga com morango toda manhã, tenho sonhado com mortes noite sim, outras não, e esquecido de escrever as sílabas finais de todas as palavras no bilhetes redigidos a mão. Não, não estou grávida. Estou feliz, melancólica, esquisita. E pronta.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
to be, or not
terça-feira, 15 de novembro de 2011
nem tudo em mim se encaixa

Quando olhei para o lado estes dois faróis estavam me escancarando numa sorveteria na cidade de Santa Cruz. É uma cidade universitária, full of life. Como a luz começou a baixar muito mais rápido do que eu gostaria, tive que voltar para a estrada e chegar em São Francisco num horário razoável. E assim que enfiei meu carro nela, dei de cara com isso.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
cadê meu cd do engenheiros?







Em cinco minutos a terra se movimenta de tal forma que o sol se atira no oceano antes que se possa terminar o cigarro. A estrada que vai de Los Angeles para São Francisco é tão linda que dá vontade de chorar. Highway 1. Então você estaciona o carro na tentativa de olhar a paisagem com mais calma e poder reter parte da beleza obcena de tudo aquilo. Mas não é suficiente, por que a beleza, como escreveu o poeta, "A beleza é um conceito/ E a beleza é triste/ Não é triste em si/ Mas pelo que há nela /De fragilidade e incerteza".
E na tentativa de guardar o incerto e inguardável, a beleza, você resolve tirar uma foto, que de forma alguma faz jus a realidade. O que se pode fazer então, a não ser tentar arrumar um bom lugar na cabeça para poder arquivar os eventos que deveriam ser inesquecíveis? Bom, esperar que outas preciosidades como essa se derretam diante dos nossos olhos outras vezes na vida.
Acelerar muito não pode, mas dá para ouvir música alta, que também dá um barato bom na coisa toda.
E como as rádios americanas começaram a falhar quando o caminho se estreitou no meio dos penhascos eu pensei: Onde esta meu cd do Engenheiros do Hawaii para poder ouvir Infinita Highway nessa hora? Não sei, nunca tive um, mas fiquei com vontade. Uma pena, o máximo que conseguimos foi uma coletânea do Cat Stevens que acabou combinando bastante como o trajeto. Poderia ser também um Robertão com As curvas da estrada de Santos, mas que infelizmente também não encontramos na lojinha.
Só tenho uma coisa a dizer ,hit the road Jack, pois a Infinita Highway não é infinita mas é bonita para caralho.



(eu, minha mãe e os leões marinhos)
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
L.A WOMAN

É IMPOSSÍVEL andar por Los Angeles sem um óculos na cara. Tudo é muito claro, as ruas largas com longas e tortas palmeiras que cobrem os canteiros nas calçadas. A cada dez minutos você tem a impressão de estar num dos milhares de filmes americanos que você vem assistindo desde a mais tenra idade. In fact, é impressionante como toda essa cultura está impregnada em nossas memórias. Eu poderia ficar muito, bastante tempo por aqui. Mas, é o que todos dizem, sem um carro e um gps, nem venha para cá, pois para qualquer lugar que você queira ir, dá-lhe uma free way, uma high way, uma boulevard a milhas de distância. Mas guiar aqui é bom, as pessoas guiam bem, e eu devo ter levado no mínimo umas cinco broncas, das quais não entendi uma só palavra, sobre o meu modo brasileiro/paulista de guiar. Eu vi gente indignada comigo por conta de coisas que em São Paulo, ninguém sequer notaria. Reeducação sentimental no trânsito, é o que venho passando.

Outro problema que venho tendo é um lugar chamado Hugo´s, que fica a dez minutos do hotel onde estou hospedada. Um dinner, daqueles onde a moça fica repondo seu café cada vez que a xícara esvazia. O cardápio do Hugo´s é extenso, e não tem um item que eu não queira experimentar. Desde sucos malucos orgânicos, a eggs benedict, panquecas, frittatas, massas, iogurtes, tacos, etc etc etc E como tudo se faz de carro, onde gastar as calorias? Pois é.

Enquanto isso as pessoas malham em Venice Beach, uma mistura de praia, com vinte e cinco de março, galeria do rock, hospício, Arraial d´Ajuda, e algo mais que eu não sei nomear. Uma praia gigante, quadras de basquete, lojas e lojas de tatuagem, venda de maconha sob prescrição médica, junk food, lojas de souvenir, surf, out lets, freak shows, turistas,viciados em esculpir o corpo, uma gente maluca andando, uma fauna de gente com calções de banho esquisitos, patins, fantasias, sei lá, uma mistureba quase inenarrável. E o sol na cara. Dizem que de noite a barra pesa, não sei, não fui, mas acredito.

Aliás, a noite aqui acaba cedo. Não sei dos lugares onde não fui convidada a ir, mas nos bares, uma e meia acabou. Os drinks são geniais, bons mesmo, posso dizer isso com propriedade no assunto. Já os hamburgueres, quanta decepção, nossa carne é muito melhor. Aliás engraçado como São Paulo é uma cidade que se especializa tanto em fazer certas coisas que acaba fazendo melhor do que no país de origem. Assim como comemos pizza muito melhor na terrinha do que na Itália, o mesmo se aplica aos hamburgueres. E essa opinião é também de outros brasileiros que moram por aqui.
Já o chili, meu Deus, nada, nada se compara ao Chili americano.


Os dias voam para mim.


Santa Mônica, Silver Lake, Hollywood, calçada da fama, shoppings, O Getty Museum e é claro, o Halloween, que aqui é uma febre quase tão quente quanto o carnaval brasileiro. Dias antes, o povo começa a sair fantasiado, como se nada fosse. Até explodir num desfile/festa na Santa Mônica Boulevard, o maior Halloween do mundo, a menos de trinta metros do meu travesseiro. A princípio parece que a coisa vai pegar fogo, mas não sei se é por que não se pode andar com uma lata de cerveja na mão em público, ou o quê, mas a festa acaba sendo meio família. Minha mãe disse que lembra o carnaval de rua da época dela. Meio ingênuo talvez. Eu fiquei impressionada com as produções. Americano consegue fazer efeito especial até na hora de se fantasiar, uma verdadeira vitrine de esmero e dedicação em cada roupa. O equivalente ao preciosismo das produções de escolas de samba, só que em escala individual. Não durei mais que vinte minutos na festa, onde passei desapercebida pela multidão.
Fiz meus trinta e um anos com um pôr do sol no pier de Sta Mônica onde um grupo de cancioneiros mexicanos cantou parabéns a você para mim. E um jantar no Chateu Marmont, aquele onde a Sofia Coppola filmou seu último longa. Parece que o David Lynch come galinha lá, todo domingo a noite. Como só consegui mesa no bar e não no restaurante de fato, não posso confirmar o boato. Era domingo e eu comi a galinha especial do dia, e era boa, frita na manteiga, com um biscoito, purê, verduras. Um lugar lindo, onde comemos muito bem e tive que presenciar minha mãe roubando a margarita da mesa ao lado, deixada por dois marinhos à la Querele, que levantaram sem sorver um gole sequer do copo nublado de gelo e sal. Lua nova, um drink roubado, outros comprados, uma conta bem menos barra pesada que as facadas que tomamos nos restaurantes paulistanos. E a vida passando também. Como se nada fosse. Mas é.
O resto, como diz minha amiga Nina Crintz, não é perfumaria francesa, e sim farmácia americana.
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Yes!
eu vou para a Califórnia! vou procurar alguma Martha na calçada da fama, jogar moedas nas fontes cafonas dos shoppings de L.A, comer os melhores e piores hambúrgueres da América, ir em todas as delhis judaícas e livrarias de teatro possíveis, distribuir meu vídeo book nos estudios da Universal (brincadeira, claro que não), trombar com a Pamela Anderson em Malibu e procurar pelo Neil Young em Santa Cruz.
Vou me fartar e cansar dos chichês da cultura americana. Pegar a estrada mais linda do mundo e cheia de radares de velocidade. Vou comprar aspirinas com alta relação de custo benefício e passar os próximos posts reclamando de como São Paulo é caro. Vou ver o que acontece comigo e com minha mãe sozinhas durante 15 dias juntas, já que a última vez que isso aconteceu foi quando eu estava na barriga dela.
Enfim, vou colocar todo esse ano, que não foi lá dos melhores, na boca de uma água viva em Monterrey e fazer 31 anos de vida nos Estados Unidos da América. In God I trust.
Escreverei de lá, um outubro rubro, picante e farto para todos nós.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
war
De lá para cá fiz novos poemas, neguei alguns antigos, comecei o blog, escrevi roteiros. Sempre tive medo de escrever muito e as pessoas acharem que eu não era mais atriz. Com a produção também, sempre com medo de produzir e achar que ninguém mais ia me convidar para atuar em mais nada por acharem que virei uma atriz independente e cheia de trabalho. O que de fato talvez esteja acontecendo (não a independência, e sim a falta de convite), mas enfim. Atriz é assim, se você elogia alguma coisa que ela fez que não se refira única exclusivamente a seu trabalho de atriz, ela logo desvia, "Não, mas eu sou atriz, só tô fazendo isso enquanto não aparece coisa melhor."
Atrizes são cheias de desejo, versões multifacetadas sobre muitas coisas ao mesmo tempo já, são chatas, generosas, competitivas, inseguras, cheias de si, profundas, loucas, prolixas, simples. Visionárias.
Mas eu falava dos poemas, que vêm e voltam nas entresafras da vida de intérprete, e por isso inscrevi meu livro no concurso, porque um livro de poema não publicado, é como cozinhar um negócio maravilhoso no fogão a lenha durante longo tempo e saber, de última hora, que ninguém vem para jantar. Aí você pega a travessa ainda esfumaçada e enfurna numa gaveta. E os poemas ficam lá entalados, esperando para sair. Mas junto com a menção honrosa veio o compromisso da Edith, do Marcelino, de publicar o livro no ano que vem. E assim a ceia permanece um pouco mais tempo engavetada, enquanto flano com os pés no chão.
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"Os poemas de Martha Nowill nos atravessam como "boiada em terra alheia" deixando a "estrada desassentada" e "poeira por todo lado". Não é todo dia que a gente encontra uma poeta com voz tão doce e vigorosa ao mesmo tempo. De uma doçura nada enjoativa. Seus poemas cortam sem machucar mesmo quando falam da solidão das madrugadas na metrópole, da fome do sexo não satisfeito, do desastre dos desencontros amorosos, da chatice do homem amado, do tédio. Suas imagens revelam a beleza e o mistério que se escondem sob o véu do cotidiano medíocre que nos sufoca."
Ivana Arruda Leite

(e enquanto não se ganha os concursos, os melhores assentos do avião ou coisa parecida, não é tão difícil assim conseguir uma garrafa de champanhe e conquistar a Ásia e a América do Sul num jogo de War. Satisfação instantânea e garantida.)
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
empréstimo
que não importa o quão honestamente
tentamos expressar
alguma ideia latente,
alguém já conseguiu fazer isso
melhor que a gente.
O PAÍS DAS MARAVILHAS
Não se entra no país das maravilhas,
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisas entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaros entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.
Antonio Cicero
terça-feira, 23 de agosto de 2011
o corpo
Abaixo meu único poema publicado, que saiu na ilustríssima da semana passada, e me deixou muito contente. Para quem não leu:
terça-feira, 19 de julho de 2011
hora mágica
domingo, 26 de junho de 2011
não é uma poesia
que nunca tive certeza
mesmo na época que nos rodeamos delas
a única certeza que sempre tive
é que eu estava certa em não ter cursado medicina como meu pai
e quando tudo parecia errado demais
eu sempre podia tirar da manga meu pensamento calmante:
"bom, de qualquer forma medicina eu não poderia ter feito"
mas hoje
depois de anos pensando que eu não poderia ser outra coisa
senão atriz
ou qualquer outra ocupação nas imediações próximas a isso
com a noite que rasteja em direção ao domingo
à minha majestosa ressaca
hoje
a idéia de ir ao teatro
desbravando os corinthianos que vêm do metrô Marechal Deodoro
gastando saliva embaixo da minha janela
em direção ao estádio do Pacaembú
junto as bombinhas
a parada Gay de cinco milhões de pessoas
o chuvisco gelado
encurralada entre os acontecimentos da cidade mais cara do mundo
sem saber em qual caminho apostar
a ideia de levar meu corpo todo
voz memória presença
colocar tanto cabelo no coque
no centro do palco
em frente a uma platéia
provavelmente vazia
já que ninguém vai conseguir chegar à praça Roosevelt
com uma São Paulo interditada
ai
tudo isso me fez pensar
que se eu tivesse feito medicina
e passasse meus dias de branco
olhando os tons de pele da cara das pessoas
sentadas a minha frente
na cadeira do consultório
ouvindo seus corações
e pulsos
colocando exames contra luz
doenças contra o tempo
eu talvez passasse mais tempo com meu pai
e talvez hoje fosse meu dia de folga
e eu não teria que sair desse sofá
e com a energia suficiente para uma cruzada
ser atriz sempre
e mais uma vez
e um pouco melhor que ontem
mesmo que todo esse devaneio esmoreça
numa pequena vala que fica entre o sono da coxia
e a luz dos refletores
para quem tiver coragem
hoje
ou nos próximos dois finais de semana, não importa o que acontecer, eu darei um jeito de estar lá
sábado, 21 de maio de 2011
do vento gelado de Copenhagen à brisa do Minhocão
Eu cheguei no Brasil há poucos dias, mas o Brasil está chegando em mim agora a pouco, já que é domingo de sol e a melancolia pós viagem não pode demorar mais tempo que o tempo de desfazer as malas.
Quem me acompanhou nesta viagem foi o vento. Que em Moscou era um vento abrutalhado, vinha de frente, derrubando e depois cessava. Quando cheguei em Copenhagem, terra do lego, da Calsberg, do design, o vento era gelado. O vento gelado de Copenhagem me pegou de lado e gelou tudo que era possível entre corpo, alma e pensamento. Um lugar lindo, que quase me fez sair correndo quando pisei nele, de tão caro que é. Mas é lindo, com um trânsito de bicicleta que supera o dos automóveis, construções que refletem nos canais , como na foto que eu tinha visto e recortado do jornal semanas antes, prédios moderníssimos que se misturam às velhas construções de um jeito harmonioso como tudo lá. Com mulheres alinhadas e chiques e um bom gosto geral quase improvável, como se alguém fizesse uma direção de arte muito certinha na próxima locação do filme e o diretor reclamasse da falta de naturalidade do lugar. Talvez seja chato morar por lá, ou não, sei lá, não conheci o lado B de Copenhagen, por que o vento gelado me expulsou da rua antes que eu pudesse tentar descobrir o que acontece na calada da noite. O choque estético cultural entre Moscou e lá foi muito maior do que o tempo que tive para assimilá-lo, já que fiquei apenas quarenta e oito horas sozinha na cidade onde todos os cidadãos falam inglês perfeito e o sol é bem mais branco que amarelo.
E depois de Copenhagen veio Berlim, com sua primavera linda, linda, linda. Toda aquela cidade efervecendo, com bondes que circulam ao ar livre nas linhas do centro, centenas de galerias de arte a cada bairro, brechós que valem a visita, seres semi-nus nos parques, gente com garrafas de cerveja na mão nos finais de tarde, manisfestações, a acústica indescrítivel da Filarmônica e os iogurtes e salsichas mais saboros do planeta terra. O vento berlinense vinha por trás, no fim da tarde, resfriando as pernas embaixo da meia-calça.
Hoje quase não há vento por aqui, a não ser pelo esforço que meu corpo faz contra o ar na pista do minhocão, onde eu e outros habitantes da Sta Cecília costumamos andar, domingo sim, domingo não.
As fotos do Minhocão são do João, e as de Copenhagen nunca tirei. Pena.
terça-feira, 17 de maio de 2011
wild
Bem Moscou.
Esperei até as três da manhã, tentando escapar dos motoristas de plantão, que insistiam em falar em russo comigo, até meu amigo Charly chegar.
É difícil escrever sobre a Rússia. Adoro Moscou, mas me irrito com a selvageria local. Um país inflamável. A qualquer momento as coisas podem se tornar estranhas, incômodas e incendiárias. Os russos têm uma violência inata, misturada a uma pureza fora do tom. Você pode, do nada, levar uma bronca de um local sem entender o por quê. Aliás, isso é bem comum, broncas na rua. Gentilezas também acontecem, inusitadamente.
O que eu mais gosto na Rússia, é o que os russos mais detestam. A mistura do velho com o novo. Num momento podemos estar num restaurante karaokê georgiano, tomando vodka em doses cavalares, acompanhada de conservas e brindes longuíssimos da velha geração. Entramos na terra e submergimos em profundas estações de metrô e na hora seguinte estamos numa boate lotada de jovens que pensam de forma absolutamente diversa.
Você pode argumentar que em qualquer lugar as coisas são assim. Mas na Rússia, por motivos que não sei explicar, isso é mais evidente. Uma distância abismal entre o velho e o novo. Um país antigo cedendo lugar ao futuro. Um futuro destrambelhado, como um ator que só maquia metade do rosto e entra em cena sem perceber. Assim a Rússia. Um lugar enorme, cheio de gente com roupas que você nunca imaginaria que alguém pudesse usar na rua, cheia de teatros, lugares vinte e quatro horas, avenidas larguíssimas. Você estende o braço e tanto um mercedes, quanto uma lata velha podem parar para negociar uma corrida. Decorei alguns números, trezentos, cem, quatrocentos, e com um mapa na mão pude negociar minhas caronas. A primavera coloca as pessoas na rua, os canteiros estão cheios de tulipas novinhas e cheiro de esterco de terra recém semeada.
O café é terrível, a lógica das coisas um enigma, mas um sorriso brasileiro pode resolver qualquer parada.
Encontramos muitos novos amigos e em todos os encontros o Charly nos anunciava da seguinte maneira “ Estamos aqui, do lado de um edifício estranhíssimo, perto da metrô, na saída do parque. Eu tô com uma casaco preto, sou alto, bonito, e tô com minha amiga Martha, um tipo bem brasileiro. E você, está vestido como?”
Imagino que todos esperavam uma mulata maravilhosa quando se depararam com o meu tipo brasileiro desbotado. De qualquer forma, é bom ser morena nos países onde prevalecem as loiras.
No mais, entre muito mais, andei a pé até esfolar todos os cantos do meu pé. E uma vontade de parar o tempo. Em todos os lugares do mundo, por cinco minutos, só para respirar e olhar. Todas as coisas, os detalhes. Antes que elas mudem de cara novamente.




