segunda-feira, 1 de abril de 2013

meu avô Alex

Meu avô morreu na quinta-feira santa. Ele já estava há algumas semanas na UTI, por isso sua morte era anunciada e até querida. Ainda assim foi duro perdê-lo para a eternidade. Perder um avô é perder uma pedaço da infância, de sonho, da leveza que existe e que a gravidade não consegue diminuir quando um avô e uma neta estão juntos.

Eu nunca consegui dizer o nome dele por inteiro, um nome inglês, difícil. Para mim era o vovô Alex.

Um homem colérico, entusiasmado e generoso. Sempre falei muito da minha avó, da sua coragem, força, mas quase nunca dele. Quando lembro do meu avô, penso em como ele era bricalhão,  na gula que ele tinha, nos molhos mirabolosos de salada que ele inventava, nas viagens que fazia, no gosto que tinha com os filmes, as peças que via. Mas penso sobretudo na audácia que ele teve quando casou com minha avó: uma mulher que além de cega, ele teve que dividir durante toda sua vida com a causa pela qual ela lutava. E o quanto ele a ajudou e a apoiou em sua missão.

Ponto para o meu avô, sei que não foi fácil.

Que homem corajoso e que sorte a minha de herdar dele esse Nowill difícil de pronunciar. Esse Nowill que se me faz ser tão impulsiva, colérica, mal educada às vezes e tão ansiosa, também me dá a coragem, a elegância, o talento para o fogão, o humor, a braveza, a esperteza e a pontualidade quase sempre britânica em minha vida.  Pensando bem acho que a pontualidade não é muito característica dos Nowill não, isso é meu mesmo.

O Nowill me coloca para frente, embora o nome sugira o contrário à primeira vista.

Quando Alex foi marcar o primeiro encontro com minha avó Dorina pelo telefone foi logo avisando: "Olha, eu sou feio, viu!", no que ela retrucou: "Tudo bem, eu sou cega mesmo." E assim começou a nossa familia.

Havia muito amigos e familiares no velório, mas o que mais se via eram os netos rodeando seu caixão. Não sei o que meus primos estavam sentindo além da tristeza e do vazio. Eu senti gratidão.
Gratidão e amor. E quando chegou a hora de levar seu corpo ao cemitério, acabei por acaso embicando meu carro atrás do carro do serviço funerário que era conduzido por um sujeito magricela, e que fumava um cigarro com gosto enquanto desfilava calmamente o corpo do meu avó pela cidade. Lembrei do poema do Bandeira:

momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto longo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava 


Não que alguém tivesse tirado o chapéu enquanto a gente ia da São Carlos do Pinhal até o cemitério da Consolação, mas eu fiquei honrada de ser o primeiro carro a seguir meu avô, me senti guardiã daquela travessia. E embora os pedestres não saudassem o esquife como sugere o poema, e um taxista insistisse em furar a nossa fila, o cortejo me pareceu digno de um lorde inglês.  Nosso lorde.

E aí parei para pensar no poema que eu costumava declamar entre os meus dezessete e vinte anos. Naquela época eu pensava, é, a vida é mesmo uma agitação feroz e sem finalidade, achava a frase bonita, sonora.

 Hoje minha vida continua feroz, agitada, mas eu descobri sua finalidade, e tenho certeza de que você cumpriu a sua vovô, por inteiro, por isso descanse em paz.  E todo meu amor para você.

                                                    com ele, preparando um molho de salada....
 





quarta-feira, 21 de novembro de 2012

ternura pelos homens na academia


Ternura pelos homens na academia. Não de letras. De ferros. Os homens com suas cores neon, seus bíceps, tríceps, psoas. Os homens que batem as mãos uns nos ombros dos outros saudando músculos, ossos, força. Consumindo e falando proteínas. Ternura por esses homens tão doces em sua boçalidade, tão honestos em suas vontades. Parecem viver no intervalo entre uma coisa e outra, no recreio da vida adulta. Os homens que se divertem entre si numa espécie de confraria da qual nunca farei parte no canto mais à esquerda do salão. Perto dos halteres, das rodas de metal. Passo por eles como quem caminha na parte mais densa da selva: as conversas entrecortadas pelos exercícios, a camaradagem, tatuagens desbotadas e esdrúxulas, os pinos, clavículas e uma cartilagem mais desgastada no joelho direito. E como se roubasse o ar alheio, inspiro por um instante a alegria que paira entre suas cabeças antes de voltar para minhas obrigações. Abaixo o rosto no bebedouro de metal e sorrio. Se eles não fossem tão ternos, tão bobos, simples e adoráveis, eu morreria de inveja.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

E se a gente?


Se eu estivesse em Paris agora em excelente companhia seria sim primavera. Eu e minha excelente companhia do sexo oposto atravessaríamos a rua com alguma altivez, por que apaixonados tem altivez própria, luz própria, ritmo. Eu diria para minha excelente companhia com a barba por fazer: tenho fome. Ele riria: você e sua fome. Que posso fazer? Eu retrucaria num pretérito muito aquém do perfeito. "Nada, vamos comer.", minha excelente companhia com a barba por fazer em camisa de linho mal passado me puxaria em direção ao supermercado e nós compraríamos uma garrafa de vinho tinto a 6 euros, um pacote de cerejas maduras a preço de banana, uma bandeja de salame, queijo e uma grande e crocante baguete. Minha excelente companhia com a barba por fazer em camisa de linho amassado e um sapato formidável seguraria minhas ancas na fila do caixa e diria: nosso primeiro piquenique.
"Meu Deus, não temos uma toalha xadreza!"eu gritaria, e ele com seu sorriso: on s'en fout! Sim , foda-se, completo eu, vamos usar sua camisa no lugar da toalha. E me encanto por uma senhora em conjunto de tailleur cor-de-rosa-bebê e chapéu combinando que aguarda na fila do caixa ao lado, enquanto minha excelente companhia, sua barba camisa e sapato, e eu vejo que ele tem o pensamento longe, entrega uma nota de vinte euros para a moça. Ele segura minha mão, “cuida das cerejas”, ordena e voltamos para a rua. Eu e minha excelente companhia de barba por fazer camisa amassada olhos doces e brilhantes como um alazão atravessamos um grupo de crianças entre cinco e oito anos vestidas em uniformes encardidos na saída da escola. Pequenos parisienses eu digo,  ao que minha adorável companhia sorri: futuros parisienses mal humorados, retruca. Minha excelente companhia ri para dentro enquanto rio para fora e sei que o ar que utilizamos para nos comunicar se encontra e se mistura em algum lugar no meio do caminho entre nossos pulmões e a estratosfera. Olho para a garotinha francesa que carrega uma mochila maior do que ela, como era chato usar uniforme, penso. Depois repito o pensamento em voz alta, feliz por estar de vestido, sapatos e bolsa a tiracolo. Minha companhia em barba por fazer, sapato de couro, olhos de cavalo, oscila entre um grande coração e sua ironia pontiaguda enquanto fala em voz grave baixa: tem um parque bonito ali. Minha mão não transpira há anos, mas tenho medo que o barulho da rua seja menor que os saltos que meu coração dá. Meu coração é mesmo um atleta, penso dentro do vestido coral, sapato e bolsa conhaque. Me empresta a baguete? digo, e só nos falta uma bicicleta para parecermos objetos de cena de um filme da Nouvelle Vague. Eu em coral e minha excelente companhia com  sua ironia pontiaguda, calça e cabelos cor-de-burro-quando-foge adentramos um parque tipo folha de calendário sem um só eletrônico nos bolsos. Nosso pequeno mundo não tem wifi, sinal de celular ou feed de notícias. Quebro a ponta da baguete e mastigo com furor um pedaço de pão enquanto minha adorável companhia com olhos de alazão, barba por fazer, sapatos formidáveis e mãos de agricultor procura um abridor de vinho no café mais próximo. Aproveito para montar o melhor sanduíche do mundo, e sim, arranco um punhado de grama e coloco entre  o queijo e o pão. Ou não, melhor não. E eis que volta minha linda companhia dentro de sua camisa mal passada, passando suas mãos de agricultor na barba que está por fazer, me olhando com seus olhos tristes de alazão, pisando firme em seus sapatos aceitáveis e sorrindo como se fosse o sacana que ele não é. Traz um abridor na mão. E por que você não abriu a garrafa lá?, pergunto. "Mas vai que a bêbada aqui resolve comprar outra garrafa no caminho...", ele ri. "E afinal, ganhei o abridor de cortesia." Eu também te daria um abridor, meu bem, se você fosse ao meu café com essa cara de excelente companhia que só você tem. Ao que meu par me pede como se me pedisse em casamento: 

“E se a gente fizesse tudo diferente? Tudo diferente do que já foi feito até hoje! Eu sei, eu sei”, ele emenda, “que talvez a gente acabe ainda mais igual por conta disso. Eu sei, mas e se? E se? E se a gente?” 

Eu sei do que ele está falando, minha adorável companhia, meu par, com sua barba pontiaguda, seu humor por fazer, seus olhos amassados, sua camisa formidável, seus sapatos cor-de-alazão e seu coração de agricultor. Minha excelente companhia quer reinventar a roda, o quadrado, o triângulo isósceles, o amor. “E se? E se a gente?”. A frase repercute em todos os cantos tristes e felizes do meu corpo, em cada quina da minha euforia. E antes que ele possa ter a chance de proferir o próximo “vamos”, mesmo sabendo que o mais provável é que fracassemos, antes mesmo que ele possa tomar ar para o começo da próxima frase, salto por cima dele e tasco-lhe um beijo afobado e confiante, derramando metade da garrafa de vinho que escorre por cima dos cabos de cereja, grama e farelos de pão. “E se?". Agarro sua nuca com minhas duas mãos e digo: vamos.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A primeira confissão


A primeira confissão, por Martha Nowill

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MARTHA NOWILL
ESPECIAL PARA A FOLHA
Quando eu tinha oito anos, tudo o que queria era uma Bic de dez cores e sentir Deus dentro de mim. Me frustrava não poder entrar na fila da comunhão com os adultos.
Só me restavam as funções menos nobres de cumprimentar a igreja inteira quando o padre mandava saudar a "paz de Cristo" e a de depositar dinheiro na cesta de doações. Obrigações que cumpria com a eficiência de um coroinha, já que, no tempo restante da missa, eu me abandonava, nos bancos gelados de madeira, à espiral das minhas inquietações infantis.
Arquivo pessoal
A atriz Martha Nowill, aos oito anos, na primeira comunhão, em 1989
A atriz Martha Nowill, aos oito anos, na primeira comunhão, em 1989
Tinha perto de casa uma igreja que eu achava muito feia. Era toda de madeira e pedra, sem cor nenhuma, sem dourado na borda, sem santo nem auréola, nem qualquer umas daquelas imagens assustadoras de lanças e dragões que eu adorava observar durante o sermão. A gente tinha se mudado havia pouco, e foi lá que passei a imaginar, a cada domingo, como seria meu encontro com Deus.
Se a gente mordesse a hóstia, sairia sangue de Jesus de dentro? E se a gente comesse muito, o corpo de Cristo iria se misturar à macarronada de domingo? Essas questões me atormentavam, e eu não via a hora de ser adulta para dormir tarde, ir ao baile de Carnaval, comungar e matar minha curiosidade. As noitadas teriam de esperar, já Deus eu conheceria em breve, nas aulas de catequese.
Um homem que abria o mar com um cajado, uma mulher que engravidava de uma pomba, um planeta inundado e uma arca com todos os bichos dentro, um grande pai que era três e que ainda por cima me amava, embora eu talvez não merecesse. De que mais uma criança de oito anos precisava?
De um vestido. E começavam os burburinhos na escola em torno do tema. Minhas amigas já tinham ido à costureira meia dúzia de vezes, já tinham as pérolas do bordado, as rendas no colarinho, ao passo em que eu era enrolada no caos da agenda da minha mãe.
Ela estava grávida de muitos meses, e toda atenção que deveria estar voltada à minha primeira comunhão era diretamente desviada para a chegada da caçula. "Não se preocupe, é uma bata de seda lindíssima", ela dizia. E eu repetia no recreio: "Ainda não experimentei, mas é uma bata de seda lindíssima". Por algum motivo a palavra seda causou certa impressão nas colegas e em mim. Seda, seda, seda. Aquilo me confortava.
Minha madrinha, a par da minha ansiedade, me arrumou hóstias não consagradas para que eu pudesse matar a curiosidade do gosto. "Essas se pode comer, ainda não são o corpo de Cristo", ela me disse, colocando algumas na palma da minha mão. Devorei-as por gula, mas sem grande deleite. Apavorada, pensava: "Ainda bem que não são o corpo de Cristo, imagina se deixo Jesus cair no chão..."
Para ir ao encontro de Deus eu precisava ainda de uma lista de pecados. Às vésperas da minha primeira confissão, passei uma tarde de sábado, em vão, tentando enfileirar alguns nas linhas do papel. Por fim, inventei um ou outro, com medo de que o padre não acreditasse na minha inocência.
No dia 2 de dezembro de 1989, na igreja de Santa Terezinha, me aboletei num banco com minha bata branca, que de seda nada tinha. Eu era uma espécie de franciscana com uma cruz de madeira pendurada ao pescoço e uma coroa de flores que me pesava como se fosse de espinhos.
As meninas eram minidebutantes, e só não me aborreci mais porque, de algum jeito torto, acho que intuí que minha veste simplória resistiria melhor à atemporalidade do álbum de fotos. E elas não escondiam a decepção. "Mas não era de seda?", repetiam enquanto desfilavam seus vestidos rodados, rendados, bordados.
Mas o mais importante era que finalmente eu era digna da visita de Deus. Isso me enchia de vaidade, amor e alegria. Não senti nada quando a hóstia começou a derreter na língua, mas senti Deus explodindo nas minhas veias a cada passo da ida ao altar, em cada gesto dentro do figurino branco, diante das câmeras VHS, dos pais, tios e curiosos da plateia cheia. Minha primeira caminhada como atriz.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

teria graça se fosse de outro jeito?





É um filme. Tem o personagem do homem que vai ao cassino. É um meio de tarde e ele nem está tão arrumado quanto pediria a situação.  Num único ato de imprudência ele junta todas suas fichas, as pretas, verdes, vermelhas listradas de branco, todo o seu carrossel milionário de cores e aposta tudo numa jogada só. Lembra dessa cena?  De alguma parecida? O homem sente um frio enjoativo na barriga, um sopro no coração, uma câimbra nos dedos da mão. Uma senhora ao lado mordisca a segunda azeitona do Dry Martini enquanto lembra da última vez que teve tanta ousadia. 

Ele vai perder, arrisca o palpite. 

Uma dupla de turistas japoneses ri. O funcionário da casa repara que  o pulso de sua camisa branca está consideravelmente amarelado enquanto recolhe guardanapos amassados.

A roleta gira vagarosamente aos olhos do apostador, rápida aos do expectador. Metade da sala do cinema acha que ele vai perder. A outra metade torce pela sorte do herói. O homem se contorce em cálculos matemáticos renais enquanto o cheiro de fritura escapa da cozinha do cassino. A medida que a roleta gira ele dissolve. E sentir é o que basta para ser.  Desavisadamente, é o que eu quero que você faça. Aposte tudo o que você juntou na vida inteira. Em mim. Veja bem, eu não sou aquela moça do casaco de pele que fica na ponta da mesa de feltro verde e que vai beijar seus dados para te dar sorte. Eu não sou a fortuna que você está prestes a ganhar ou perder. Eu sou a própria roleta. E nós não estamos na tela do cinema. Ninguém torce contra ou a favor de nós.  Eu não posso te garantir nada. Mas não consigo te pedir menos do que tudo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

só garotos




Amigo é um negócio importante. Fazer um filme sobre amizade, entre amigos, é um negócio sublime.
Tenho vivido em absoluta suspensão. Não tenho mais casa, meu gato não pode ficar comigo, não tenho mais namorado, não tenho uma garagem. Tenho um carro amassado e um filme para fazer. Tenho uma mãe que me abriga provisóriamente. Espero. E uma amiga que me empresta a garagem. Tenho projetos, vontade de concretizá-los, preguiça de produzí-los e um saldo bancário a beira da catatonia. Tenho minhas orelhas, meus pés, a vida: como diz aquela música que a Nina Simone canta e faz meu coração disparar quando escuto. De modo que enquanto não sei o que irá acontecer, tenho gostado de viver assim, quase no espírito cigano vindo do deserto do rajastão e a ideia de pertencer a uma trupe mambembe de teatro saída de um filme de Bergman. A verdade, é que tudo está em suspensão. O que acontece é que às vezes nossa percepção em relação a isso fica mais aguda. E isso pode ser libertador. E eu prometo solenemente manter-me fiél a isso, mesmo estando empregada, contratada, casada, cronogramada, com filhos, com milhões de compromissos, com uma casa cheia de garagens para gerenciar. Eu prometo manter meu coração, meus desejos e meus dias em leve suspensão, ainda que eles pareçam enraizados na terra mais próxima a mim.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

fato

-o 3G da tim é uma piada
-cara
-o 3g da tim não resiste a uma garoa paulista
-São Paulo sem chuva judia dos nossos pulmões
-com chuva judia de todo o resto
-gentileza é ouro
-é deselegante entrar no carro de alguém falando no celular e assim permanecer durante todo o percurso
-amor não tem especificidade
-não, eu não tenho cartão Mais
-o verbo instagramar deixou o googlar obsoleto
-obsoleta sou eu, no meio da chuva e da pista de vinte poucos anos do lolapalooza
-eu não tenho mais vinte e poucos anos
-não, eu não estou em cartaz
-mato ruim cresce depressa
-enquanto a gente atua, dança e sapateia, tem um pessoal ganhando muito dinheiro por aí
-ainda não consegui o contato desse pessoal para futuros patrocínios
-eu hei de conseguir
-não, eu não tenho what´s up
-por que não
-quem tem vergonha na cara ruboriza
-mascando chiclete qualquer um tem o ar estúpido
-eu só masco chiclete escondida
-um bom haikai pode salvar o dia
-um cigarro pode salvar a foto
-nem um grande ator pode salvar uma pessima ideia
-mas um vestido pode salvar uma mulher
-ideia não tem mais acento, de resto, creio não ter absorvido as novas regras da língua portuguesa
-em voz alta, a língua mais linda do globo é o italiano
-pena que aprender espanhol seja mais produtivo
-lindos os italianos também
-não, a balança não está desregulada, você é que comeu demais
-como é bom comer
-como é bom ter amigos
-como é bom conseguir uma carona fim de noite
-como é bom subir os vinte e três andares sem ninguém no elevador
-como é bom cinema, pipoca e mãos
-como é ruim a projeção do Bristol
-eu deveria parar de ir ao Bristol
-eu deveria parar de ir em testes de publicidade
-eu nunca mais vou num teste de publicidade
-a não ser que o cachê seja mais de quinze mil
-como eu sou barata
-haja dinheiro para ser solteiro
-haja tempo para ser polígamo
-haja fé para o amor
-haja amor para descartar a fé
-eu acredito em mim, em bruxas, duendes, ETs e café turco
-no mais, depois de entupir os bueiros, as águas correm para o mar

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

o dia em que eu fiz as malas para sair de casa

(eu e os pinguins)


O dia em que eu fiz as malas para sair de casa foi antecedido por aventuras exóticas, exuberantes e um carnaval paulistano nas trincheiras de uma escola de samba.

Comecei o ano num SPA linha dura no interior de São Paulo a fim de emagrecer os quilos que estapearam minha cara na última fez que me vi na televisão. Ser atriz e escrever suas medidas em todos os termos de compromisso, além de ser um saco, te faz lembrar o tempo todo o quão inadequada é a dobradinha tv + pipoca durante a madrugada.

Então fomos ao SPA, eu e meu corpinho.

Chegando lá o médico me mediu, me pesou, me fitou e perguntou seu me considerava normal, com sobrepeso ou obesa. "Eu me considero bem normal.", respondi, "mas acho que para o mundo atual estou mais para o sobrepeso.". Não, ele não riu da minha piadinha e ainda me colocou numa dieta, pasmem, de 300 calorias por dia. Sim, aquela garfada de arroz com purê de mandioquinha já contabiliza isso facilmente. Agora, divida essas calorias entre seis refeições de diárias compostas de vento, clorofila, aspartame, gelatina e uma média de sete grãos de arroz no prato do almoço.

É por isso que o SPA é um local onde se fala basicamente sobre: COMIDA. Não há lugar melhor no mundo para passar fome e trocar receitas, dicas de restaurantes, segredos e preços do mercado gastronômico. É claramente um ato de tortura, onde boa parte das pessoas volta a engordar quase o dobro do que emagreceu, quando sai de lá.

Intimidade é uma coisa que se pega fácil também, já que ninguém tem o menor pudor em te perguntar seu peso, seu índice de massa corporal, seu resultado da bioempedância, se seu intestino funciona bem ou não, se seu xixi tá muito amarelo, enfim, essas coisas que na mesa e na vida real não se fala, mas no SPA, é lugar comum. Sexo também, embora figure no regulamento interno que não se pode visitar o quarto dos companheiros, se fala e se pensa muito em sexo num SPA. Isso por que você tira do sujeito a comida e a bebida, fontes primordiais de prazer. Então o que é que sobra e que não engorda? Bingo. Por isso o SPA é um ambiente familiar, mas altamente erotizado, dependendo da roda onde você circular.

(comida de spa: repare na sobremesa de um centímetro e meio)

Eu, como não podia ser diferente, logo me juntei a gang, liderada pelo Marcão, figura que já está em sua quarta operação de estômago e décima visita ao SPA. Marcão tem histórias que já constam nos autos do imaginário da população acima do peso, como as dos dois patos que habitavam a lagoa. Foram capturados, por ele e seu comparsa, que usaram como armadilha um cobertor. Depois foram mortos e depenados na banheira do quarto e junto com os temperos guardados de uma semana (sim, o sal e a pimenta também são controlados por lá), os patos foram levados a sauna no meio da madrugada a fim de serem assados. Como a sauna não deu conta, e já quase amanhecia, os autores do crime pegaram logo um ferro de passar roubado da lavanderia e fizeram os patos a moda da casa: torrados na chapa, sabor eucalipto.

Ficou uma merda, segundo eles, mas a fome era tanta, que tiveram que tentar. Bom, por aí fica a ideia do tipo de gente criativa, engraçada e subversiva que pode circular num SPA. Lugar onde ninguém é alguém, ninguém tem profissão, status, beleza ou feiúra. Tudo isso se dilui numa única meta comum: fazer os ponteiros da balança despencarem.

Os meus cairam quatro quilos em uma semana e eu voltei para casa feliz. Meu único problema é que de lá eu continuava as férias com uma viagem de navio pela Patagônia, acompanhada de trinta e uma pessoas da família para comemorar os sessenta e quatro anos de casamento dos meus avós. Para quem não sabe, navio é um SPA de engorda, onde comidas maravilhosas , vinte e quatro horas por dia são distribuidas aos quatro ventos. E entre ventos, marés, tormentas, geleiras, pinguins e drinks coloridos, eu tive que passar metade das horas do dia na academia do navio para não desperdiçar o dinheiro investido no anteriormente. Quanta esperteza, já que o ideal teria sido organizar o cronograma de forma inversa. Mas bem, saiu desse jeito.

De volta para São Paulo caí na loucura dos projetos, testes, editais e de uma separação.
E não há nada que eu possa escrever sobre o amor ou uma separação que não deixe de fazer sentido antes mesmo da frase ser concluida em minha mente. Por isso há nada a ser dito, a não ser sobre as geleiras.

As geleiras azuis que vi no fim do mundo e que me fazem lembrar que um dia elas não estarão mais lá. Ver uma geleira derretendo é triste, como é triste o fim do amor. Mas a ideia de que elas não acabam, só se liquefazem, me ajuda a entender as coisas que se passam no meu coração. E só posso agradecer a este homem, que além de encarar uma mulher como eu (aqui caberia um parênteses extenso, já que tenho consciência de ser uma mulher bacana de conviver, mas não exatamente simples ou fácil), enfim, agradecer a este homem que me mostrou o amor com tanta generosidade.

No dia em que eu fiz as malas para sair de casa, era uma quarta-feira de cinzas e fazia calor. Por isso só levei as roupas de verão. Nas semanas subsequentes voltei para buscar as peças de frio, embora não tenham qualquer utilidade no momento.

Tenho sentido desejo de comer manga com morango toda manhã, tenho sonhado com mortes noite sim, outras não, e esquecido de escrever as sílabas finais de todas as palavras no bilhetes redigidos a mão. Não, não estou grávida. Estou feliz, melancólica, esquisita. E pronta.


(um pedaço de geleira azul, onde a foto não faz jus a realidade)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

to be, or not

Admiro as pessoas que tem facilidade para existir. Para ser, estar. Às vezes olho uma pessoa na rua e sei que ela existe. Olho para ela com o mesmo prazer que olho para o mar agitado, assisto um bom filme ou uma onça correndo em câmera lenta no discovery channel.

Achei engraçado quando aprendi no colégio que a conjugação do verbo to be, equivalia a ser, estar. Achava estranho duas palavras tão diferentes significarem a mesma coisa, pertencerem a mesma natureza. Hoje entendo a ligação entre esses dois verbos. E conheço a minha facilidade em ser e a minha dificuldade em estar. E assim sendo, percebo que a minha dificuldade em estar, prejudica minha facilidade de ser. E quase sinto que uma coisa anula a outra, não fosse enorme minha vontade de fazer coisas interessantes por aqui.

Mas sempre acho que faço pouco. Embora eu ache que é preciso fazer aos poucos para fazer bem. O que também não é uma verdade. Moro na cidade e amo a cidade. O pó do minhocão invade minha casa e veste minha coleção de bonecas russas diariamente. Detesto a cidade, mas amo os hamburgueres que que fazem por lá. E os artistas que rondam por ela.

Agora estou na praia, no meio da natureza selvagem e pavões que circulam pelo terreno. Sinto que nunca deveria ter estado longe daqui, onde as coisas mais elementares como água , terra e ar parecem as únicas necessárias. Bem, até a página dois. Onde está todo o resto? as benesses da civilização? As exposições, que mesmo que não as visitemos, sabemos que estão por lá. Os cinemas? Os amigos. Os bares.

Sou fanática por massagens, completamente devota. Mas a partir do momento em que entro em alguma sessão começo a rugir internamente: "Aposto que ela não vai massagear a última vértebra da cervical."

E quando as mãos do massagista alcançam tal objetivo, ralho internamente: "o nariz, o nariz ele vai esquecer..." e por aí vou, investindo meus tostões em sessões de relaxamento para sair mais ansiosa do que entrei.

Eu gostaria de ficar quieta por um instante, sem imaginar qualquer coisa ou ansiar por algo.

Sim, isso acontece, cada vez mais, e fico feliz por atingir esses pequenos nirvanas em vida. Mas ao mesmo tempo em que isso acontece com mais frequência, os momentos em que isso não acontece, são cada vez mais difíceis. Talvez por que eu já saiba da inutilidade de todo o resto, não ser ou não estar tornou-se para mim insuportável.

É como na arte,: estar em cena e internamente estar em outro lugar que não seja ali, faz de nós, atores, canastrões, falsos, autômatos. E assim é na vida. Odeio me sentir canastrona no dia a dia. Não gosto da sensação de perder o minuto, o instante.

Termino este estranho ano com dúvidas, incertezas, conflitos. Mas com a certeza de que tudo o que eu quero e o que me conforta, é ser e estar ao mesmo tempo. E já que estamos no parágrafo sobre as promessas para 2012, também quero abdicar de ter qualquer poder sobre as pessoas que amo. Elas que façam o que for melhor para elas. Por que raios afinal, eu quero que elas ajam de acordo com a minha vontade? Que tipo de imperador fui eu em outra encarnação para ter tanta vontade de reger a vida alheia?

Budismo demais para um texto só? Talvez, mas é uma proeza que pretendo dominar. Claro, alguma coisa tenho que dominar, e já que que sou uma moça grandinha o suficiente para saber que não devo fazer isso com os outros, que seja comigo mesma.

Sei que todo os resto virá. Ou por aqui está.

Um ano novo em folha para todos nós, com cheiro de estofado de couro de automóvel recém comprado. Ou de lavanda, bourbon, café. O que você preferir.


terça-feira, 15 de novembro de 2011

nem tudo em mim se encaixa



Quando olhei para o lado estes dois faróis estavam me escancarando numa sorveteria na cidade de Santa Cruz. É uma cidade universitária, full of life. Como a luz começou a baixar muito mais rápido do que eu gostaria, tive que voltar para a estrada e chegar em São Francisco num horário razoável. E assim que enfiei meu carro nela, dei de cara com isso.



Quando mostrei o vídeo para o meu avô ele comentou que antigamente havia muito mais arco-íris e pedras de gelo em São Paulo. Eu acho que ele tem razão, chuvas de pedra e arco-íris fazem parte dos momentos mais fantasiosos da minha infância.

Voltando para as curvas da estrada, acho que deixei alguma coisa minha lá, um par de brincos, um pé de meia solteira e talvez algo maior. Como li num poema soviético outro dia, "nem tudo em mim se encaixa". Há lugares e coisas que você faz para aumentar a sensação de encaixe ou diminuir a de desencaixe na vida. Meditar, rezar, transar, comprar, comer, beber, atuar, atuar, atuar, ver alguém fazer algo brilhante na sua frente, cozinhar, ler um bom poema em voz alta, olhar sem pressa ou expectativa uma paisagem. Schopenhauer dizia que somente nos instantes de contemplação artística o nosso querer se aquieta, e eu digo mais, a estrada também tem esse poder. Talvez pelo movimento, ou pela sensação de que você acabou de deixar um lugar e está prestes a encontrar outro, e que este meio-do-caminho-lugar-nenhum é o verdadeiro destino. Eu gosto daí, por que aí, talvez seja unica e exclusivamente dentro de mim mesma. Lugar difícil de chegar, fácil de escapar. Você pode discordar, entendo, eu talvez também discorde, nos próximos cinco minutos. Mas, por hora, essa é minha melhor explicação.

E aí a estrada me levou a São Francisco, um país dentro de outro país. Um lugar a parte, muitas subidas e descidas, a arquitetura muito específica, nem européia nem americana. Linda cidade, e no alto do meu altíssimo sonho de consumo eu seria paga para morar dois meses lá, afim de ensaiar uma peça, escrever um roteiro.

As pessoas são felizes em São Francisco, talvez por isso, a música nos mande por flores no cabelo se formos para lá. É uma cidade musical, meio hippie, tem um cheiro bom no ar. É uma cidade gay, explicitamente, mas não se pensa nisso estando lá. Eu acho que muita gente vai para S.F para ser feliz, assumir uma sexualidade reprimida, e por isso, todos, (fora uma motorista de ônibus que quase me bateu por que eu não entendia o que ela queria me dizer), todos estão de bem com a vida. Eu mesma, há muito tempo não ouvia esta expressão, de bem com a vida. Parece que saiu de moda, mas não em São Francisco.

Tem a caretice dos E.U.A, você não pode dar um gole da sua cerveja se estiver com o pé para fora do deque do bar, mas ao mesmo tempo as pessoas fumam muita maconha na mesa ao lado. Há menos comida gordurosa do que em Los Angeles (graças a Deus), há muito a cultura do alimento orgânico e principalmente da boa educação. O trânsito, um capítulo a parte, como é uma cidade de terremotos, se for em subida, você tem que estacionar o carro com as rodas viradas para um determinado lado (para seu veículo não ir parar no meio da rua e atrapalhar o resgate e a ambulância caso o terremoto aconteça). Se for descida, as rodas tem que estar de outro jeito. Como também é uma cidade de ciclistas, toda vez que você for passar por uma ciclovia tem que virar a cabeça para trás e ver se não tem nenhum ciclista vindo, por causa do ponto cego do retrovisor. Meu amigo local conta que quando chegou não entendia tanta viração de cabeça dentro dos carros. E há a política do STOP, que ele me explicou umas dez vezes e eu NÃO entendi. É toda uma conjuntura, entre o pedestre (lá são reis), seu carro e o carro do outro lado e a placa de stop. Para mim, uma ave maria antes de sair, e tentar não cometer tantas gafes com os motoristas locais.

E foi em S.F que eu conheci as árvores mais lindas, esbeltas, antigas. As sequoias. Você atravessa a Golden Gate e chega nesse parque. Eu cheguei de noite quando o cheiro delas fica ainda mais forte e os turistas já guardaram suas máquinas fotográficas. São Francisco é tão bacana que até fiquei sem graça no começo. Me senti bicão em festa alheia. Até fazer um amigo, o Paulo, brasileiro que mora lá e me mostrou a cidade. Mas como toda boa festa, uma hora amanhece e você tem que começar a procurar uma carona para casa.

Voce nunca sabe como uma viagem vai ser, o que vai encontrar e como vai reagir. Eu nunca imaginei que fosse sentir saudade de uma sequoia.







quinta-feira, 3 de novembro de 2011

cadê meu cd do engenheiros?









Em cinco minutos a terra se movimenta de tal forma que o sol se atira no oceano antes que se possa terminar o cigarro. A estrada que vai de Los Angeles para São Francisco é tão linda que dá vontade de chorar. Highway 1. Então você estaciona o carro na tentativa de olhar a paisagem com mais calma e poder reter parte da beleza obcena de tudo aquilo. Mas não é suficiente, por que a beleza, como escreveu o poeta, "A beleza é um conceito/ E a beleza é triste/ Não é triste em si/ Mas pelo que há nela /De fragilidade e incerteza".

E na tentativa de guardar o incerto e inguardável, a beleza, você resolve tirar uma foto, que de forma alguma faz jus a realidade. O que se pode fazer então, a não ser tentar arrumar um bom lugar na cabeça para poder arquivar os eventos que deveriam ser inesquecíveis? Bom, esperar que outas preciosidades como essa se derretam diante dos nossos olhos outras vezes na vida.

Acelerar muito não pode, mas dá para ouvir música alta, que também dá um barato bom na coisa toda.

E como as rádios americanas começaram a falhar quando o caminho se estreitou no meio dos penhascos eu pensei: Onde esta meu cd do Engenheiros do Hawaii para poder ouvir Infinita Highway nessa hora? Não sei, nunca tive um, mas fiquei com vontade. Uma pena, o máximo que conseguimos foi uma coletânea do Cat Stevens que acabou combinando bastante como o trajeto. Poderia ser também um Robertão com As curvas da estrada de Santos, mas que infelizmente também não encontramos na lojinha.

Só tenho uma coisa a dizer ,hit the road Jack, pois a Infinita Highway não é infinita mas é bonita para caralho.






(eu, minha mãe e os leões marinhos)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

L.A WOMAN


É IMPOSSÍVEL andar por Los Angeles sem um óculos na cara. Tudo é muito claro, as ruas largas com longas e tortas palmeiras que cobrem os canteiros nas calçadas. A cada dez minutos você tem a impressão de estar num dos milhares de filmes americanos que você vem assistindo desde a mais tenra idade. In fact, é impressionante como toda essa cultura está impregnada em nossas memórias. Eu poderia ficar muito, bastante tempo por aqui. Mas, é o que todos dizem, sem um carro e um gps, nem venha para cá, pois para qualquer lugar que você queira ir, dá-lhe uma free way, uma high way, uma boulevard a milhas de distância. Mas guiar aqui é bom, as pessoas guiam bem, e eu devo ter levado no mínimo umas cinco broncas, das quais não entendi uma só palavra, sobre o meu modo brasileiro/paulista de guiar. Eu vi gente indignada comigo por conta de coisas que em São Paulo, ninguém sequer notaria. Reeducação sentimental no trânsito, é o que venho passando.



Outro problema que venho tendo é um lugar chamado Hugo´s, que fica a dez minutos do hotel onde estou hospedada. Um dinner, daqueles onde a moça fica repondo seu café cada vez que a xícara esvazia. O cardápio do Hugo´s é extenso, e não tem um item que eu não queira experimentar. Desde sucos malucos orgânicos, a eggs benedict, panquecas, frittatas, massas, iogurtes, tacos, etc etc etc E como tudo se faz de carro, onde gastar as calorias? Pois é.



Enquanto isso as pessoas malham em Venice Beach, uma mistura de praia, com vinte e cinco de março, galeria do rock, hospício, Arraial d´Ajuda, e algo mais que eu não sei nomear. Uma praia gigante, quadras de basquete, lojas e lojas de tatuagem, venda de maconha sob prescrição médica, junk food, lojas de souvenir, surf, out lets, freak shows, turistas,viciados em esculpir o corpo, uma gente maluca andando, uma fauna de gente com calções de banho esquisitos, patins, fantasias, sei lá, uma mistureba quase inenarrável. E o sol na cara. Dizem que de noite a barra pesa, não sei, não fui, mas acredito.



Aliás, a noite aqui acaba cedo. Não sei dos lugares onde não fui convidada a ir, mas nos bares, uma e meia acabou. Os drinks são geniais, bons mesmo, posso dizer isso com propriedade no assunto. Já os hamburgueres, quanta decepção, nossa carne é muito melhor. Aliás engraçado como São Paulo é uma cidade que se especializa tanto em fazer certas coisas que acaba fazendo melhor do que no país de origem. Assim como comemos pizza muito melhor na terrinha do que na Itália, o mesmo se aplica aos hamburgueres. E essa opinião é também de outros brasileiros que moram por aqui.


Já o chili, meu Deus, nada, nada se compara ao Chili americano.



Os dias voam para mim.






Santa Mônica, Silver Lake, Hollywood, calçada da fama, shoppings, O Getty Museum e é claro, o Halloween, que aqui é uma febre quase tão quente quanto o carnaval brasileiro. Dias antes, o povo começa a sair fantasiado, como se nada fosse. Até explodir num desfile/festa na Santa Mônica Boulevard, o maior Halloween do mundo, a menos de trinta metros do meu travesseiro. A princípio parece que a coisa vai pegar fogo, mas não sei se é por que não se pode andar com uma lata de cerveja na mão em público, ou o quê, mas a festa acaba sendo meio família. Minha mãe disse que lembra o carnaval de rua da época dela. Meio ingênuo talvez. Eu fiquei impressionada com as produções. Americano consegue fazer efeito especial até na hora de se fantasiar, uma verdadeira vitrine de esmero e dedicação em cada roupa. O equivalente ao preciosismo das produções de escolas de samba, só que em escala individual. Não durei mais que vinte minutos na festa, onde passei desapercebida pela multidão.


Fiz meus trinta e um anos com um pôr do sol no pier de Sta Mônica onde um grupo de cancioneiros mexicanos cantou parabéns a você para mim. E um jantar no Chateu Marmont, aquele onde a Sofia Coppola filmou seu último longa. Parece que o David Lynch come galinha lá, todo domingo a noite. Como só consegui mesa no bar e não no restaurante de fato, não posso confirmar o boato. Era domingo e eu comi a galinha especial do dia, e era boa, frita na manteiga, com um biscoito, purê, verduras. Um lugar lindo, onde comemos muito bem e tive que presenciar minha mãe roubando a margarita da mesa ao lado, deixada por dois marinhos à la Querele, que levantaram sem sorver um gole sequer do copo nublado de gelo e sal. Lua nova, um drink roubado, outros comprados, uma conta bem menos barra pesada que as facadas que tomamos nos restaurantes paulistanos. E a vida passando também. Como se nada fosse. Mas é.

O resto, como diz minha amiga Nina Crintz, não é perfumaria francesa, e sim farmácia americana.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Yes!

Garotos e garotas,

eu vou para a Califórnia! vou procurar alguma Martha na calçada da fama, jogar moedas nas fontes cafonas dos shoppings de L.A, comer os melhores e piores hambúrgueres da América, ir em todas as delhis judaícas e livrarias de teatro possíveis, distribuir meu vídeo book nos estudios da Universal (brincadeira, claro que não), trombar com a Pamela Anderson em Malibu e procurar pelo Neil Young em Santa Cruz.

Vou me fartar e cansar dos chichês da cultura americana. Pegar a estrada mais linda do mundo e cheia de radares de velocidade. Vou comprar aspirinas com alta relação de custo benefício e passar os próximos posts reclamando de como São Paulo é caro. Vou ver o que acontece comigo e com minha mãe sozinhas durante 15 dias juntas, já que a última vez que isso aconteceu foi quando eu estava na barriga dela.

Enfim, vou colocar todo esse ano, que não foi lá dos melhores, na boca de uma água viva em Monterrey e fazer 31 anos de vida nos Estados Unidos da América. In God I trust.

Escreverei de lá, um outubro rubro, picante e farto para todos nós.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

war

É claro que é melhor ganhar. Mas ganhar uma menção honrosa como esta, escrita pela Ivana Arruda Leite, é um presente. Explico. Participei de um concurso literário "só escritoras" pela Edith. O Marcelino Freire foi o primeiro cara, depois do meu professor de redação da quinta sérire, que me falou que eu escrevia bons poemas. Eu acreditei nele e continuei escrevendo. Eu acho lindo o talento que o Marcelino tem de se entusiasmar com o que os outros estão produzindo, tanto é que, além de um puta escritor, é também professor e um agitador cultural importantíssimo. E foi numa mesa de bar, da Mercearia, claro, que ele abriu o envelope de papel craft com todos os meus melhores e piores poemas dentro e comecou sua avaliação. "De jeito nenhum!" ele excomungava um ou outro poema riscando o papel de uma ponta a outra com sua bic, e quando tropeçava com um que ele gostava, "lindo", "bom!" e lá ia a bic desenhando um ponto de exclamacão nas folhas sulfites. De vez em quando colocava uma interrogação na frente de um verso, no fim de um poema e ia em frente. No fim de tudo, tudo muito rápido, depois partimos para a cerveja, ele disse: "Tem que publicar".

De lá para cá fiz novos poemas, neguei alguns antigos, comecei o blog, escrevi roteiros. Sempre tive medo de escrever muito e as pessoas acharem que eu não era mais atriz. Com a produção também, sempre com medo de produzir e achar que ninguém mais ia me convidar para atuar em mais nada por acharem que virei uma atriz independente e cheia de trabalho. O que de fato talvez esteja acontecendo (não a independência, e sim a falta de convite), mas enfim. Atriz é assim, se você elogia alguma coisa que ela fez que não se refira única exclusivamente a seu trabalho de atriz, ela logo desvia, "Não, mas eu sou atriz, só tô fazendo isso enquanto não aparece coisa melhor."

Atrizes são cheias de desejo, versões multifacetadas sobre muitas coisas ao mesmo tempo já, são chatas, generosas, competitivas, inseguras, cheias de si, profundas, loucas, prolixas, simples. Visionárias.

Mas eu falava dos poemas, que vêm e voltam nas entresafras da vida de intérprete, e por isso inscrevi meu livro no concurso, porque um livro de poema não publicado, é como cozinhar um negócio maravilhoso no fogão a lenha durante longo tempo e saber, de última hora, que ninguém vem para jantar. Aí você pega a travessa ainda esfumaçada e enfurna numa gaveta. E os poemas ficam lá entalados, esperando para sair. Mas junto com a menção honrosa veio o compromisso da Edith, do Marcelino, de publicar o livro no ano que vem. E assim a ceia permanece um pouco mais tempo engavetada, enquanto flano com os pés no chão.

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"Os poemas de Martha Nowill nos atravessam como "boiada em terra alheia" deixando a "estrada desassentada" e "poeira por todo lado". Não é todo dia que a gente encontra uma poeta com voz tão doce e vigorosa ao mesmo tempo. De uma doçura nada enjoativa. Seus poemas cortam sem machucar mesmo quando falam da solidão das madrugadas na metrópole, da fome do sexo não satisfeito, do desastre dos desencontros amorosos, da chatice do homem amado, do tédio. Suas imagens revelam a beleza e o mistério que se escondem sob o véu do cotidiano medíocre que nos sufoca."


Ivana Arruda Leite



(e enquanto não se ganha os concursos, os melhores assentos do avião ou coisa parecida, não é tão difícil assim conseguir uma garrafa de champanhe e conquistar a Ásia e a América do Sul num jogo de War. Satisfação instantânea e garantida.)

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

empréstimo

Às vezes é prudente saber,
que não importa o quão honestamente
tentamos expressar
alguma ideia latente,
alguém já conseguiu fazer isso
melhor que a gente.

O PAÍS DAS MARAVILHAS

Não se entra no país das maravilhas,
pois ele fica do lado de fora,
não do lado de dentro. Se há saídas
que dão nele, estão certamente à orla
iridescente do meu pensamento,
jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
ou da água, tendo no fundo o céu,
não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
do mundo, coisas entre coisas que há
no lume do espelho, fora de si:
peixe entre peixes, pássaros entre pássaros,
um dia passo inteiro para lá.


Antonio Cicero

terça-feira, 23 de agosto de 2011

o corpo

Comprei uma fonte japonesa, daquelas com folhas artificiais e seixos, que de longe me lembram uma cachoeira. Há um estranho consolo entre eu e ela. Os dias tem sido bons, com pequenos vácuos e asperezas que não fogem do habitual. Eu voltei a usar um aparelho dentário móvel que deveria ter sido usado dez anos atrás. Mas há dez anos atrás, eu achei que assim, num passo de mágica, os dentes deixariam de fazer os movimentos errados que vinham fazendo! Dez anos depois os dentes estão lindos, na verdade, o que pega é a coluna. Você sabia que a falta de espaço na boca pode até te render algumas hérnias de disco? Incrível este equilibrista de pratos que é o corpo. Sempre tentando, de alguma forma esdrúxula nos salvar, compensando-se de um lado, retraindo para o outro, digerindo pedras, respirando fuligem, aguentando choques de temperatura, seguindo. Agradeço a ele todos os dias por ele ter aguentado firme até agora. E até comprei essa fonte pseudo japonesa, que embora comprometa a decoração da minha casa, faz companhia aos sessenta e sete por cento de água que o compõe. O corpo.

Abaixo meu único poema publicado, que saiu na ilustríssima da semana passada, e me deixou muito contente. Para quem não leu:



terça-feira, 19 de julho de 2011

hora mágica

O quarto estava coberto de neblina, ou talvez fosse a fumaça do vaporizador nos primórdios da manhã. O lençol era tão bem assentado que parecia ter acabado de passar pelas mãos de uma engomadeira da corte de Luíz xv. A luminosidade não era daqui, definitivamente. Você entrou, devagar como sempre, deixando a mala no chão e o ângulo de luz entrar pela porta. Fecha, eu disse. Você veio em direção à cama, apoiou os dois joelhos e trouxe o corpo em minha direção. Eu senti o cheiro de gasolina no seu cabelo e lembrei de como é cheia a rodoviária da cidade nas manhãs de um dia útil. Você me abraçou como se fosse se despedir, embora tivesse acabado de chegar. Você me abraçou como se nos resgatasse, eu e meu corpo em estado de hipotermia, de um afogamento. Você riu. Eu não pude ouvir o som de como você ria, mas senti os músculos da sua face se contrairem contra a minha. Eu ri também. Muito. E lembrei do colar de águas marinhas da minha mãe, das fotos de nuvens estranhas que aparecem na Nova Zelândia. Você disse que nunca tinha ido numa praia de pedras. Eu já, e ferviam. Pedras quentes ao sol, eu disse. Acordei e você não estava lá.

domingo, 26 de junho de 2011

não é uma poesia

de todas as coisas
que nunca tive certeza
mesmo na época que nos rodeamos delas
a única certeza que sempre tive
é que eu estava certa em não ter cursado medicina como meu pai
e quando tudo parecia errado demais
eu sempre podia tirar da manga meu pensamento calmante:
"bom, de qualquer forma medicina eu não poderia ter feito"
mas hoje
depois de anos pensando que eu não poderia ser outra coisa
senão atriz
ou qualquer outra ocupação nas imediações próximas a isso
com a noite que rasteja em direção ao domingo
à minha majestosa ressaca
hoje
a idéia de ir ao teatro
desbravando os corinthianos que vêm do metrô Marechal Deodoro
gastando saliva embaixo da minha janela
em direção ao estádio do Pacaembú
junto as bombinhas
a parada Gay de cinco milhões de pessoas
o chuvisco gelado
encurralada entre os acontecimentos da cidade mais cara do mundo
sem saber em qual caminho apostar
a ideia de levar meu corpo todo
voz memória presença
colocar tanto cabelo no coque
no centro do palco
em frente a uma platéia
provavelmente vazia
já que ninguém vai conseguir chegar à praça Roosevelt
com uma São Paulo interditada
ai
tudo isso me fez pensar
que se eu tivesse feito medicina
e passasse meus dias de branco
olhando os tons de pele da cara das pessoas
sentadas a minha frente
na cadeira do consultório
ouvindo seus corações
e pulsos
colocando exames contra luz
doenças contra o tempo
eu talvez passasse mais tempo com meu pai
e talvez hoje fosse meu dia de folga
e eu não teria que sair desse sofá
e com a energia suficiente para uma cruzada
ser atriz sempre
e mais uma vez
e um pouco melhor que ontem
mesmo que todo esse devaneio esmoreça
numa pequena vala que fica entre o sono da coxia
e a luz dos refletores


para quem tiver coragem
hoje
ou nos próximos dois finais de semana, não importa o que acontecer, eu darei um jeito de estar lá



sábado, 21 de maio de 2011

do vento gelado de Copenhagen à brisa do Minhocão












Eu cheguei no Brasil há poucos dias, mas o Brasil está chegando em mim agora a pouco, já que é domingo de sol e a melancolia pós viagem não pode demorar mais tempo que o tempo de desfazer as malas.

Quem me acompanhou nesta viagem foi o vento. Que em Moscou era um vento abrutalhado, vinha de frente, derrubando e depois cessava. Quando cheguei em Copenhagem, terra do lego, da Calsberg, do design, o vento era gelado. O vento gelado de Copenhagem me pegou de lado e gelou tudo que era possível entre corpo, alma e pensamento. Um lugar lindo, que quase me fez sair correndo quando pisei nele, de tão caro que é. Mas é lindo, com um trânsito de bicicleta que supera o dos automóveis, construções que refletem nos canais , como na foto que eu tinha visto e recortado do jornal semanas antes, prédios moderníssimos que se misturam às velhas construções de um jeito harmonioso como tudo lá. Com mulheres alinhadas e chiques e um bom gosto geral quase improvável, como se alguém fizesse uma direção de arte muito certinha na próxima locação do filme e o diretor reclamasse da falta de naturalidade do lugar. Talvez seja chato morar por lá, ou não, sei lá, não conheci o lado B de Copenhagen, por que o vento gelado me expulsou da rua antes que eu pudesse tentar descobrir o que acontece na calada da noite. O choque estético cultural entre Moscou e lá foi muito maior do que o tempo que tive para assimilá-lo, já que fiquei apenas quarenta e oito horas sozinha na cidade onde todos os cidadãos falam inglês perfeito e o sol é bem mais branco que amarelo.

E depois de Copenhagen veio Berlim, com sua primavera linda, linda, linda. Toda aquela cidade efervecendo, com bondes que circulam ao ar livre nas linhas do centro, centenas de galerias de arte a cada bairro, brechós que valem a visita, seres semi-nus nos parques, gente com garrafas de cerveja na mão nos finais de tarde, manisfestações, a acústica indescrítivel da Filarmônica e os iogurtes e salsichas mais saboros do planeta terra. O vento berlinense vinha por trás, no fim da tarde, resfriando as pernas embaixo da meia-calça.

Hoje quase não há vento por aqui, a não ser pelo esforço que meu corpo faz contra o ar na pista do minhocão, onde eu e outros habitantes da Sta Cecília costumamos andar, domingo sim, domingo não.

As fotos do Minhocão são do João, e as de Copenhagen nunca tirei. Pena.

terça-feira, 17 de maio de 2011

wild

Chego em Moscou exausta, depois de atravessar fuso- horários e muitas horas de viagem. O aeroporto cheio de homens de terno me mostrando os catálogos de seus táxis, bancos quebrados, seres desalojados e pessoas com buquês de flores esperando outras pessoas.

Bem Moscou.

Esperei até as três da manhã, tentando escapar dos motoristas de plantão, que insistiam em falar em russo comigo, até meu amigo Charly chegar.

É difícil escrever sobre a Rússia. Adoro Moscou, mas me irrito com a selvageria local. Um país inflamável. A qualquer momento as coisas podem se tornar estranhas, incômodas e incendiárias. Os russos têm uma violência inata, misturada a uma pureza fora do tom. Você pode, do nada, levar uma bronca de um local sem entender o por quê. Aliás, isso é bem comum, broncas na rua. Gentilezas também acontecem, inusitadamente.

O que eu mais gosto na Rússia, é o que os russos mais detestam. A mistura do velho com o novo. Num momento podemos estar num restaurante karaokê georgiano, tomando vodka em doses cavalares, acompanhada de conservas e brindes longuíssimos da velha geração. Entramos na terra e submergimos em profundas estações de metrô e na hora seguinte estamos numa boate lotada de jovens que pensam de forma absolutamente diversa.

Você pode argumentar que em qualquer lugar as coisas são assim. Mas na Rússia, por motivos que não sei explicar, isso é mais evidente. Uma distância abismal entre o velho e o novo. Um país antigo cedendo lugar ao futuro. Um futuro destrambelhado, como um ator que só maquia metade do rosto e entra em cena sem perceber. Assim a Rússia. Um lugar enorme, cheio de gente com roupas que você nunca imaginaria que alguém pudesse usar na rua, cheia de teatros, lugares vinte e quatro horas, avenidas larguíssimas. Você estende o braço e tanto um mercedes, quanto uma lata velha podem parar para negociar uma corrida. Decorei alguns números, trezentos, cem, quatrocentos, e com um mapa na mão pude negociar minhas caronas. A primavera coloca as pessoas na rua, os canteiros estão cheios de tulipas novinhas e cheiro de esterco de terra recém semeada.

O café é terrível, a lógica das coisas um enigma, mas um sorriso brasileiro pode resolver qualquer parada.

Encontramos muitos novos amigos e em todos os encontros o Charly nos anunciava da seguinte maneira “ Estamos aqui, do lado de um edifício estranhíssimo, perto da metrô, na saída do parque. Eu tô com uma casaco preto, sou alto, bonito, e tô com minha amiga Martha, um tipo bem brasileiro. E você, está vestido como?”

Imagino que todos esperavam uma mulata maravilhosa quando se depararam com o meu tipo brasileiro desbotado. De qualquer forma, é bom ser morena nos países onde prevalecem as loiras.

No mais, entre muito mais, andei a pé até esfolar todos os cantos do meu pé. E uma vontade de parar o tempo. Em todos os lugares do mundo, por cinco minutos, só para respirar e olhar. Todas as coisas, os detalhes. Antes que elas mudem de cara novamente.