(último plano)
terça-feira, 15 de abril de 2014
vermelho russo
(último plano)
segunda-feira, 31 de março de 2014
quero ser um país novo


Na saída da embaixada fomos para a torre, umas das sete irmâs de Stalin, que alugamos por algumas noites como locação e casa de Michel. Estávamos tão feliz que começamos a dancar. No meio da noite começou uma tempestadade de neve e corremos para o terrraço, no vigésimo quinto andar para comemorar. O vento branco cobria e cidade e vinha em nossa direção com violência. Dava medo.
As duas da manhã o Charly abaixou o som e fez um discurso chatíssimo "Vocês tem que dormir, essa festa acaba hoje, mas a cena que vocês tem que filmar amanhã ficará para sempre. Marta você não tem estrutura para ficar na balada e filmar. Todos vocês, já para a van." Eu entrei resignada na van. Alguns resistiram por dez minutos mas acabaram obedecendo o diretor. Manu, a mais rebelde, ficou na festa. Voltamos para o dormitório, e de vingança, roubamos um conhaque que o Charly tinha ganhado de um russo e continuamos a festa no quarto.
29 de março
30 de março
Acordamos de ressaca na manhã de folga e estava acontecendo uma grande convenção aqui no alojamento: "Como viver até os cem anos". Russos e russas em calças de moleton aprendiam exercícios de respiração, anotavam conselhos em seus cadernos e compravam um dvd com um homem cheio de músculos enrolado numa corrente grossa na capa. Eu estou muito apegada a este lugar, à Natasha e Irina, que nos servem o café da manhã, à Esvetana, porteira de cara amarrada, aos velhinhos e à Ina, minha vizinha, que no alto de seus cem anos às vezes aparece no corredor de calçinha e camiseta a procura de algo que eu não consigo entender o que é. É uma cena triste.Também estou num caso de amor a com toda a equipe. É sempre terrível passar um mês trabalhando, adquirindo uma intimidade forçada, conhecendo as caras que cada um tem pela manhã e no fim do dia, aturando e sendo aturada, formando uma familia e depois desfazer tudo depois do último take. O cinema é uma vida cigana.
31 de março
Acho que esse filme vai ficar bonito.
quinta-feira, 20 de março de 2014
para Caroline
terça-feira, 18 de março de 2014
come chocolates pequena
Hoje passei umas dez horas em pé com uma câmera atrás de mim. Meu pé está mais cansado que o das velhinha do alojamento. O Charly não consegue mais dormir e acumula olheiras cor de jabuticaba no rosto. Grabo, nosso assistente de direção está febril, devido a seu acúmulo gigante de funções. Tatu também começou com uma tosse e Eliane desenvolveu uma alergia. Todos nós esperamos ansiosamente as nossas merecidas e ininterruptas horas de sono. E veio a véspera de folga. Nos jogamos num restaurante georgiano, nos esbaldamos com os chopes e os kebabs e os sacos cossacos, uns raviólis gigantes de carne. Depois caímos numa balada e dançamos como crianças na pista que variava entre daft punk, lambada, e música pop russa. Fizemos trenzinhos com os russos quando tocou “Chorando se foi...”. Conversei longamente com uma russa que defendia o Putin. E eu disse: “Mas não é perigoso um homem que está proibindo, por exemplo, o povo de comprar bebida álcoolica depois das onze da noite no mercado?”. Ela disse que não, que as pessoas de bem podem comprar bebidas até as dez e meia ou tem condições de ir a um bar para consumir álcool. E que Putin está ajudando a acabar com a imagem de bêbados que o russos tem no resto mundo. Paramos a conversa por aí. Outro dia era 23:02 e a caixa não pode passar o champanhe que eu queria tomar naquela noite. Os champanhes são bons aqui, e não são caros, o que é um perigo para mim. Na volta da balada, passamos duas horas num taxi surreal para chegar ao alojamento. Lá pelas tantas ele parou o carro e nos empurrou para um taxi oficial. O motorista queria cobrar uma fortuna, e nós estávamos bêbados e voltamos correndo para o carro anterior, cujo motorista não tinha a menor ideia do caminho de nosso dormitório.
14 de março
15 de março -5 graus
sábado, 15 de março de 2014
ação!
quarta-feira, 12 de março de 2014
o diário do filme do diário
quarta-feira, 5 de março de 2014
um set em moscou
segunda-feira, 1 de julho de 2013
a noite um passarinho
segunda-feira, 1 de abril de 2013
meu avô Alex
Eu nunca consegui dizer o nome dele por inteiro, um nome inglês, difícil. Para mim era o vovô Alex.
Um homem colérico, entusiasmado e generoso. Sempre falei muito da minha avó, da sua coragem, força, mas quase nunca dele. Quando lembro do meu avô, penso em como ele era bricalhão, na gula que ele tinha, nos molhos mirabolosos de salada que ele inventava, nas viagens que fazia, no gosto que tinha com os filmes, as peças que via. Mas penso sobretudo na audácia que ele teve quando casou com minha avó: uma mulher que além de cega, ele teve que dividir durante toda sua vida com a causa pela qual ela lutava. E o quanto ele a ajudou e a apoiou em sua missão.
Ponto para o meu avô, sei que não foi fácil.
Que homem corajoso e que sorte a minha de herdar dele esse Nowill difícil de pronunciar. Esse Nowill que se me faz ser tão impulsiva, colérica, mal educada às vezes e tão ansiosa, também me dá a coragem, a elegância, o talento para o fogão, o humor, a braveza, a esperteza e a pontualidade quase sempre britânica em minha vida. Pensando bem acho que a pontualidade não é muito característica dos Nowill não, isso é meu mesmo.
O Nowill me coloca para frente, embora o nome sugira o contrário à primeira vista.
Quando Alex foi marcar o primeiro encontro com minha avó Dorina pelo telefone foi logo avisando: "Olha, eu sou feio, viu!", no que ela retrucou: "Tudo bem, eu sou cega mesmo." E assim começou a nossa familia.
Havia muito amigos e familiares no velório, mas o que mais se via eram os netos rodeando seu caixão. Não sei o que meus primos estavam sentindo além da tristeza e do vazio. Eu senti gratidão.
Gratidão e amor. E quando chegou a hora de levar seu corpo ao cemitério, acabei por acaso embicando meu carro atrás do carro do serviço funerário que era conduzido por um sujeito magricela, e que fumava um cigarro com gosto enquanto desfilava calmamente o corpo do meu avó pela cidade. Lembrei do poema do Bandeira:
momento num café
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida.
Um no entanto se descobriu num gesto longo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Não que alguém tivesse tirado o chapéu enquanto a gente ia da São Carlos do Pinhal até o cemitério da Consolação, mas eu fiquei honrada de ser o primeiro carro a seguir meu avô, me senti guardiã daquela travessia. E embora os pedestres não saudassem o esquife como sugere o poema, e um taxista insistisse em furar a nossa fila, o cortejo me pareceu digno de um lorde inglês. Nosso lorde.
E aí parei para pensar no poema que eu costumava declamar entre os meus dezessete e vinte anos. Naquela época eu pensava, é, a vida é mesmo uma agitação feroz e sem finalidade, achava a frase bonita, sonora.
Hoje minha vida continua feroz, agitada, mas eu descobri sua finalidade, e tenho certeza de que você cumpriu a sua vovô, por inteiro, por isso descanse em paz. E todo meu amor para você.
com ele, preparando um molho de salada....
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
ternura pelos homens na academia
terça-feira, 16 de outubro de 2012
E se a gente?
"Meu Deus, não temos uma toalha xadreza!"eu gritaria, e ele com seu sorriso: on s'en fout! Sim , foda-se, completo eu, vamos usar sua camisa no lugar da toalha. E me encanto por uma senhora em conjunto de tailleur cor-de-rosa-bebê e chapéu combinando que aguarda na fila do caixa ao lado, enquanto minha excelente companhia, sua barba camisa e sapato, e eu vejo que ele tem o pensamento longe, entrega uma nota de vinte euros para a moça. Ele segura minha mão, “cuida das cerejas”, ordena e voltamos para a rua. Eu e minha excelente companhia de barba por fazer camisa amassada olhos doces e brilhantes como um alazão atravessamos um grupo de crianças entre cinco e oito anos vestidas em uniformes encardidos na saída da escola. Pequenos parisienses eu digo, ao que minha adorável companhia sorri: futuros parisienses mal humorados, retruca. Minha excelente companhia ri para dentro enquanto rio para fora e sei que o ar que utilizamos para nos comunicar se encontra e se mistura em algum lugar no meio do caminho entre nossos pulmões e a estratosfera. Olho para a garotinha francesa que carrega uma mochila maior do que ela, como era chato usar uniforme, penso. Depois repito o pensamento em voz alta, feliz por estar de vestido, sapatos e bolsa a tiracolo. Minha companhia em barba por fazer, sapato de couro, olhos de cavalo, oscila entre um grande coração e sua ironia pontiaguda enquanto fala em voz grave baixa: tem um parque bonito ali. Minha mão não transpira há anos, mas tenho medo que o barulho da rua seja menor que os saltos que meu coração dá. Meu coração é mesmo um atleta, penso dentro do vestido coral, sapato e bolsa conhaque. Me empresta a baguete? digo, e só nos falta uma bicicleta para parecermos objetos de cena de um filme da Nouvelle Vague. Eu em coral e minha excelente companhia com sua ironia pontiaguda, calça e cabelos cor-de-burro-quando-foge adentramos um parque tipo folha de calendário sem um só eletrônico nos bolsos. Nosso pequeno mundo não tem wifi, sinal de celular ou feed de notícias. Quebro a ponta da baguete e mastigo com furor um pedaço de pão enquanto minha adorável companhia com olhos de alazão, barba por fazer, sapatos formidáveis e mãos de agricultor procura um abridor de vinho no café mais próximo. Aproveito para montar o melhor sanduíche do mundo, e sim, arranco um punhado de grama e coloco entre o queijo e o pão. Ou não, melhor não. E eis que volta minha linda companhia dentro de sua camisa mal passada, passando suas mãos de agricultor na barba que está por fazer, me olhando com seus olhos tristes de alazão, pisando firme em seus sapatos aceitáveis e sorrindo como se fosse o sacana que ele não é. Traz um abridor na mão. E por que você não abriu a garrafa lá?, pergunto. "Mas vai que a bêbada aqui resolve comprar outra garrafa no caminho...", ele ri. "E afinal, ganhei o abridor de cortesia." Eu também te daria um abridor, meu bem, se você fosse ao meu café com essa cara de excelente companhia que só você tem. Ao que meu par me pede como se me pedisse em casamento:
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
A primeira confissão
A primeira confissão, por Martha Nowill
ESPECIAL PARA A FOLHA
| Arquivo pessoal | ||
| A atriz Martha Nowill, aos oito anos, na primeira comunhão, em 1989 |
terça-feira, 7 de agosto de 2012
teria graça se fosse de outro jeito?
segunda-feira, 14 de maio de 2012
só garotos
quinta-feira, 12 de abril de 2012
fato
-cara
-o 3g da tim não resiste a uma garoa paulista
-São Paulo sem chuva judia dos nossos pulmões
-com chuva judia de todo o resto
-gentileza é ouro
-é deselegante entrar no carro de alguém falando no celular e assim permanecer durante todo o percurso
-amor não tem especificidade
-não, eu não tenho cartão Mais
-o verbo instagramar deixou o googlar obsoleto
-obsoleta sou eu, no meio da chuva e da pista de vinte poucos anos do lolapalooza
-eu não tenho mais vinte e poucos anos
-não, eu não estou em cartaz
-mato ruim cresce depressa
-enquanto a gente atua, dança e sapateia, tem um pessoal ganhando muito dinheiro por aí
-ainda não consegui o contato desse pessoal para futuros patrocínios
-eu hei de conseguir
-não, eu não tenho what´s up
-por que não
-quem tem vergonha na cara ruboriza
-mascando chiclete qualquer um tem o ar estúpido
-eu só masco chiclete escondida
-um bom haikai pode salvar o dia
-um cigarro pode salvar a foto
-nem um grande ator pode salvar uma pessima ideia
-mas um vestido pode salvar uma mulher
-ideia não tem mais acento, de resto, creio não ter absorvido as novas regras da língua portuguesa
-em voz alta, a língua mais linda do globo é o italiano
-pena que aprender espanhol seja mais produtivo
-lindos os italianos também
-não, a balança não está desregulada, você é que comeu demais
-como é bom comer
-como é bom ter amigos
-como é bom conseguir uma carona fim de noite
-como é bom subir os vinte e três andares sem ninguém no elevador
-como é bom cinema, pipoca e mãos
-como é ruim a projeção do Bristol
-eu deveria parar de ir ao Bristol
-eu deveria parar de ir em testes de publicidade
-eu nunca mais vou num teste de publicidade
-a não ser que o cachê seja mais de quinze mil
-como eu sou barata
-haja dinheiro para ser solteiro
-haja tempo para ser polígamo
-haja fé para o amor
-haja amor para descartar a fé
-eu acredito em mim, em bruxas, duendes, ETs e café turco
-no mais, depois de entupir os bueiros, as águas correm para o mar
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
o dia em que eu fiz as malas para sair de casa
(eu e os pinguins)
As geleiras azuis que vi no fim do mundo e que me fazem lembrar que um dia elas não estarão mais lá. Ver uma geleira derretendo é triste, como é triste o fim do amor. Mas a ideia de que elas não acabam, só se liquefazem, me ajuda a entender as coisas que se passam no meu coração. E só posso agradecer a este homem, que além de encarar uma mulher como eu (aqui caberia um parênteses extenso, já que tenho consciência de ser uma mulher bacana de conviver, mas não exatamente simples ou fácil), enfim, agradecer a este homem que me mostrou o amor com tanta generosidade.
Tenho sentido desejo de comer manga com morango toda manhã, tenho sonhado com mortes noite sim, outras não, e esquecido de escrever as sílabas finais de todas as palavras no bilhetes redigidos a mão. Não, não estou grávida. Estou feliz, melancólica, esquisita. E pronta.
























