terça-feira, 16 de agosto de 2016

O GATO MAIS MACIO DO MUNDO



Romit já veio com um T mudo embutido.

Treze anos trás fui ler as cartas com um cigano em Santo André e ele estava em cima da mesa: um gato preto lindo, ronronando na lisura das cartas do baralho.

“Sempre quis ter um gato preto”, eu disse, o que era mentira, pois o meu amor pelos bichos sempre foi dedicado aos cavalos e cachorros. “Pode levar”, Juan respondeu, “tem uns cachorros aqui maltratando dele”. Eu perguntei se ele queria vir comigo e ele pulou no meu colo em resposta. Na época morava com a Guta na rua do Sujinho e achei que ela não ficaria feliz em me ver chegando em casa com um gato no colo. Prometi que voltaria depois e assim que fui morar sozinha cumpri o combinado. (Fiquei com medo do cigano ficar de mal comigo se eu não fosse e vai saber...)

Então, de repente, eu tinha aquele bicho preto, elegante, asmático e com uma orelha quebrada enfiado embaixo do colchão. O cigano disse que eu tinha que passar manteiga no peito dele e que quando ele lambesse a manteiga esqueceria o antigo dono. E quem disse que eu conseguia tirar o Romit do forro do colchão?  O quarto todo ficou besuntado de aviação e ele demorou uma semana para sair de lá.

Alguém disse que eu deveria por tela de segurança nas janelas. Eu levei o Romit para o beiral, e meio “à la Michael Jackson” estendi ele para fora no ar e disse: “Tá vendo, se você pular aqui é ruim para você.” Ele aprendeu. Morei no terceiro, no quinto, no vigésimo terceiro, no térreo e no quinto andar de novo. A cada nova casa eu levava ele para a janela e mostrava o perigo da queda. Ele nunca se arriscou. Romit gostava de viajar. Foi comigo para São Francisco Xavier, para Mauá e para Cafelândia. Todo mundo dizia que eu estava louca de deixar ele solto na mata, mas eu sempre deixava, e ele sempre voltava. Adorava grama. Era um gato carente, amoroso, fácil e dado. Tirando a parte do fácil, era meio como a dona. De vez em quando parecia uma pantera e eu lembrava de como a natureza é perfeita.

 Uma vez li que quando a gente estivesse triste bastava olhar para nosso bicho para sorrir. É verdade cem por cento. O bicho no sol, o bicho miando de fome, o bicho fazendo xixi no tapete de propósito, o bicho brigando com um inseto, o bicho roubando a comida do jantar na pia. É ternura na certa.

Ao mesmo tempo que vivem para você, os bichos acham que você veio ao mundo para servi-lo, ou seja, uma relação totalmente equilibrada e justa. Às vezes enchem o saco, uivam como lobos justo na madrugada que você está com tosse, riscam sua parede, arranham o sofá novo, a cadeira de design, vomitam na almofada, sobem no computador, na televisão, no roteador. Perseguem seus amigos mais alérgicos na festa, sujam a casa de pelo, atrapalham sua meditação. Mas às vezes deitam na sua barriga bem na hora da cólica ou da fossa. Ele está lá com você. Ele não tem whatts app, skype, e-mail. Ele quer carinho, comida, água fresca e um lugar digno e limpo para as necessidades. E também uma fresta de sol para se banhar uma vez ao dia.

“Gato preto dá sorte”, foi o que o Ary França me disse quando o Romit me adotou. Dito e feito. Romit presenciou minhas maiores lambadas: ensaios, casamentos, banquetes e comidas queimadas. No choro e na vela, ele segurou a onda nas viagens, quando ficou a mercê dos cuidados de zeladores, faxineiros ou de amigos como Michel Laub e Caco Galhardo. Presenciou minhas voltas embriagadas nas madrugadas de nuggets e ressacas solitárias. Meus impulsos matinais de mudar o mundo ou pelo menos a decoração da sala. Me fez companhia na hora do baby liss e da maquiagem. Me acordou para filmar quando o despertador falhava. Caçou baratas e me fez companhia quando eu chorava sentida a perda de um amigo ou o fim de um namoro. Assistiu os piores reality shows na tv sem antena e todos os filmes do Godard. Romit foi co-autor do meu livro de poemas, dividiu miojo e salmão defumado comigo.

E foi um cat star. Também conhecido com Pilgo ou Romualdo,  Romit conheceu muitos artistas e inspirou textos e peças. Apareceu em filmes e fotos. Virou poema, música. Toda vez que encontro amigos eles perguntam, "E o Romit, como está? E seu gato preto?" , o gato mais pop de S.P.   

E hoje ele morreu. Tinha um câncer brabo. Mas eu, ingenamente, tinha certeza de que ele responderia à ozônioterapia com sucesso. Mas lá pela hora do almoço, no meio do tratamento, teve uma parada cardíaca. Desfaleceu no chão sem vida. Os olhos antes verdes agora pretos sem luz. O corpo sem tônus, entregue. Ele no meu colo, morto. Vida e morte separadas por um instante.

Viveu mais de quinze anos e foi um gato excelente. Esperou que eu encontrasse um novo lar com João e seus dois filhos. Os três mosqueteiros. E me deixou assim, bem segura e aconchegada. Parece besta dizer isso, mas sempre vou amá-lo e sinto uma gratidão infinita por ele ter sido meu companheiros por mais de treze anos. Ele é meu special date, meu cavalheiro felino negro de todas as horas, meu gato preto.

Dizem as boas e más línguas que Romit tinha o pelo mais macio do mundo. Enterrei ele hoje numa manta de lã vermelha no quintal da casa do meu avô, que por sinal, adora gatos. Voltei para casa e imaginei ele se decompondo sozinho embaixo da terra fria. Chorei. Depois imaginei seu espírito de gato feliz me olhando e chegando no céu dos gatos coberto por guloseimas, amor e carinho. O gato mais macio do mundo.

domingo, 26 de outubro de 2014

Que amor de eleição!



 Ele ouvia Cartola meia hora antes de sair para votar. Já ela tinha acabado de decidir que iria com roupa de ginástica afim de emendar sua participação na festa da democracia com a caminhada power que idealmente queimaria 450 calorias.

Os dois votavam no Colégio Santa Clara. Na mesma sessão. Ela estava parada na frente do painel, confusa com o número dos deputados. Ele tinha tudo anotado  na cabeça e passou por ela arrastando um olhar faminto: era a mesária da eleição anterior. Ele a tinha achado linda na ocasião, mas ela estava tão mal humorada que não conseguia enxergar nem um palmo a sua frente, quanto mais o pretendente na cadeira ao lado. Tudo o que ele conseguiu foi um par azedo de frases.

Ele: “Que azar ter caído nesse sorteio, não é?”
Ela: “Pelo menos sei que nunca vou ser convocada a prestar serviços militares para esse país.” 

E saiu enfurecida com seu ticket-refeição que não daria nem para a salada no quilo vizinho.

E agora, dois anos depois, ele  admirava as batatas de sua perna que escapavam da calça legging. Depois de anotar o número de seus candidatos na palma da mão esquerda, ela se dirigiu à fila da sessão 34. Ele foi atrás, tentando escanear os garranchos tortos em tinta azul. Mas ela não parava de mexer os braços, batucando as mãos nas coxas, cantarolando a música que entrava pelo fone de ouvido; estava solar naquele dia. Como abordar uma mulher que não para de se mexer e não ouve nada a sua volta?

Ele passou toda a apuração pensando nela, e apesar de suas convicções políticas e do seu ateísmo, rezou para que houvesse segundo turno. E houve. Agora era com ele. Muniu-se de jornal, óculos escuros, um livro, um sanduíche de atum e foi cedo para o Santa Clara. Depois de votar sentou-se no banco próximo à sessão e esperou. Ela chegou quinze minutos antes de fechar, esbaforida, de ressaca, quando ele já tinha perdido as esperanças achando que ela tinha passado por lá justo na  hora que ele foi fazer xixi. Ou que ela tinha ido à praia e iria justificar o voto. Mas ela veio, e ele a pegou na saída e a convidou para um café.

A fome era tanta que ela devorou na sua frente um hambúrguer, uma vitamina de mamão e uma broa doce em quinze minutos. Ele ansioso olhava para aquela boca carnuda que não parava de mastigar; ela era um tesão que mastigava, um tesão que falava e tinha opiniões, um tesão que andava, sorria e votava. Um tesão. Ele não consumiu uma gota d’água, mas pagou a conta com gosto. Começaram a namorar e combinaram nunca revelar seu voto um ao outro. Passaram aquele fim de ano na montanha, o carnaval na praia e a páscoa na cidade. Ele passou a andar com ela aos domingos, ela passou a ouvir Cartola com ele aos sábados de manhã. Tinham folga uma vez por semana e dormiam juntos nas outras seis noites. Ele ficava louco quando ela desligava seu celular na noite na única noite que não se viam, e ela se enfurecia com ele por razões mais abstratas.

Um ano depois ela o pediu em casamento. Ele perguntou pra quê, estava tão bom daquele jeito. Ela segurou o choro e foi embora. Ele ficou a ver navios, trancado em casa e pensando que o mundo era mesmo um moinho que triturava sem piedade seus sonhos mesquinhos. Ela desviou solenemente de toda e qualquer tentativa de reconciliação.

Foram doze meses tão insuportáveis, que é como se a propaganda eleitoral gratuita durasse o ano todo. Todos os dias. Mas quando veio a eleição para prefeito ele bolou um plano infalível e foi para o Santa Clara cedo. Óculos, sanduíche de queijo, um celular com mil e uma utilidades num bolso e um anel no outro. De uma coisa ele tinha certeza: os candidatos eram péssimos e aquela eleição não mudaria em nada sua cidade. Talvez piorasse. Mas se ele pudesse passar os próximos quatro anos de desgosto político ao lado dela, ah, seria tão bom!

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

mais moi je sais, je sais tout ça



Com mais frequência que meus banhos de mar, costumo ouvir de alguns homens “Martha, você é romântica!”, apontamento que estaria em perfeita conformidade com a realidade, se eles não dissessem isso com a mesma aflição que diriam “Você é um leproso!” ao apontar para as feridas do doente.  Sim, me desculpe, sou mesmo uma romântica, lembrei disso quando desaguei em Paraty ao ouvir Gal cantando “Baby”. Diante de tantas acusações, e do quanto minha paciência permitiu, me joguei nas janelas rasas do google afim de relembrar o sentido da palavra. Um movimento artístico, político, filosófico, surgido no fim do século XVIII, caracterizado por uma visão do mundo contrária ao racionalismo e ao iluminismo que reinavam anteriormente.

O romantismo é a arte do sonho e fantasia. Valoriza as forças criativas do indivíduo e da imaginação popular. Opõe-se à arte equilibrada dos clássicos e baseia-se na inspiração fugaz dos momentos fortes da vida subjetiva: na fé, no sonho, na paixão, na intuição, na saudade, no sentimento da natureza e na força das lendas nacionais.”

Ou ainda, “relativo à narrativa imaginosa”, frase que me rendeu uma boa gargalhada, será que tudo não passa da minha imaginação Dom Quixote?

Claro que o termo foi banalizado e descaracterizado, mas acho que tem a ver. O que acontece é que sou romântica, mas não sou burra. Tenho plena ciência de que os casais não conseguem mais se suportar por uma vida inteira. De que todos olhamos para os lados, para trás, frente e ainda diagonais, mesmo estando comprometidos. De que a maioria de nós mantém aquele flerte inútil nas mensagens inbox do facebook para termos certeza de que sim, somos desejados por mais gente além daquele com quem dividimos a cama. Sei que vivemos um momento onde as antigas formas e instituições afetivas já decretaram falência. Que o novo já está, embora não saibamos exatamente como ele se porta, e de que, obviamente, é desesperadora a ideia de que nunca mais vamos transar com outra pessoa além do nosso parceiro. Por isso subvertemos freqüentemente a cartilha da fidelidade afim de dar sobrevida ao romance. Com a culpa lidamos depois. Resumindo, sei que eu e minha visão romântica somos inviáveis e estamos totalmente fodidas e fora de moda. Em minha defesa posso argumentar que eu e ela não estamos em busca da perfeição, nem da eternidade. Por isso acolhemos o tal amor líquido, sólido como uma ereção, efêmero como os pernilongos, o amor inventado, o amor goleiro de Xico Sá, que sente medo diante dos pênaltis. Não queremos nada além da fé em nós mesmos e de uma chance para sair do banco de reservas, afinal, treinamos diariamente para isso. Eu e minha visão romântica, queremos apenas marcar um gol, mesmo que seja para perder o campeonato. E lidamos bem com isso: tomamos algum isotônico para evitar as câimbras, fazemos nossa série de alongamentos e nos dirigimos ao vestiário, onde embaixo da ducha lembramos que sempre haverá uma nova temporada.

O que nós não queremos é ter que fingir que somos outra coisa, pois cansamos de ser modernas. E também pedimos que por favor, parem de nos encher o saco com essa história de que sou romântica, sou muitas coisas além disso: bonita, gostosa, inteligente, ansiosa, inconveniente, louca.

Ré confessa.



terça-feira, 15 de abril de 2014

vermelho russo


                                                                   (último plano)

Moscou, primeiro de abril

Muitos dos integrantes já foram eliminados e voltaram para o Brasil. Alguns ainda estão no paredão:
eu (continuista, atriz, maquiadora, roteirista e assistente de arte),
Manu (atriz, continuista e maquiadora),
Charly (diretor, produtor, roteirista e figurante)
Soraia (musa),
Eliane (produtora/operadora de milagres),
Grabinho (melhor assistente de direção do mundo, carregador, camareiro, continuista, diretor de arte, beijoqueiro e terapeuta),
Alina (atriz, tradutora e assistente de produção),
Samori (diretor de fotografia, câmera, carregador, dir. de arte),
Carpa, nosso logger,
Pablo( camera, still, conectadinho e figurante)
e Zon, do som,
resistimos bravamente!

Moscou é muito poluida, seca e suja. Está entre as quatro piores cidades para respirar do mundo. A água daqui é branca, acho que tem muito calcário, ou cloro. Sei que minha pele está muito seca e eu acumulo algumas feridas (de secura) no braço e nas coxas, não importa a quantidade de creme que eu passe. Também acumulo roxos dos tombos sem fim. Meus cabelos brancos duplicaram neste processo e eu estou a beira da exaustão. Mas estou feliz. Gosto cada vez mais do que fazemos, e o Charly, apesar de ficar me chamando de Didi (Mocó) e cachorrão (por causa da minha lealdade e carência, segundo ele) também está feliz. 

Como quase todos foram embora, deixamos para o final as cenas mais densas entre eu e Manu. Foi horrível fazer a cena da briga: a gente se pegou no tapa, e no fim a Manu atacou em mim um livro de poesia soviética mais gordo que a Barsa, que pegou no meu tornozelo, somando mais um roxo para minha coleção. Eu fiquei com uma taquicardia por mais de duas horas de tanta raiva que passei. Foi horrível (embora o Charly ache que a gente tenha adorado) agredir tanto minha amiga.


Moscou, 2 de abril

Eu me sinto bem a vontade aqui. Não tenho mais medo da Rússia, dos russos. Eles podem fazer a cara mais feia do mundo, cuspirem as frases mais grossas do dia, eu não tô nem aí, acostumei. Gosto deles. Eu entendi e aceito como eles são. Hoje fui fazer as cenas de amor com o Sasha. O Misha, ator que interpreta o Sasha fake, me disse que nunca tinha beijado em cena, e estava muito nervoso. Eu tentei acalmá-lo, mas na hora do ação ele ficou tenso e apertou minha cintura num tanto que fiquei com mais um roxo… e me mordeu também. 

Coitado, ele estava confuso: tá convidando a Manu para sair desde o dia que nos conhecemos, e agora quando encontra ela no set é obrigado a fazer cenas de amor comigo. Ele ficou atordoado, e no meio da diária já tava me chamando de Manuela. Me diverti tanto com tudo isso. No fim do dia filmamos a cena do encontro na neve no parque Puschckin. O Charly pediu que fizessemos uma espécie de tango na neve, e claro, lá fui eu para o chão mais uma vez. Dessa vez com o Sasha fake a tiracolo.



3 de abril

Não posso reclamar: estou filmando, na Rússia, uma história originalmente minha, entre amigos. É muito gratificante tudo isso, apesar do perengue. Agora já consigo pedir meu ovo frito, ao invés de cozido, para Natasha, a moça que serve nosso café. Outro dia tomei duas doses de vodka come ela, que chorou, dizendo que ia sentir nossa falta quando fossemos embora. A tarde fomos ao parque Gorgki e fazia um frio terrível. Frio e vento, que é a pior combinação que existe. Eu e Manu, não conseguíamos ficar mais de dez minutos no set e saímos correndo em direção ao café sob os protestos de nosso diretor. Filmar no frio queima o cartucho da disposição numa tacada só. O cansaço que dá é enorme, e todos ficam imprestáveis depois de uma cena dessa. Seguimos.


4 de abril
Não há tempo para nada. O tempo que sobra é para lavar os cabelos, fumar um cigarro, ter uma nova ideia. Não sei mais o que é o Brasil, qual a cor da parede da entrada do meu prédio, como é a voz do Willian Bonner ou o que aconteceu com o avião que caiu. Não tenho ideia do que se passa na Criméia, só penso no próximo plano, na continuidade do figurino, na incoerência da personagem, em dar conta, em dar conta, em dar conta de tudo isso.

)abre parênteses(

Meu quarto é o mais bonito do alojamento, e por isso é nosso cenário. Isso me deu o previlégio da melhor acomodação, mas também me trouxe alguns pequenos incômodos. Cada vez que filmamos nele alguém desliga a geladeira e esquece de religar (já perdi um pacote de salmão defumado e um pote de queijo feta nessa). As coisas pequenas desaparecem e eu passo sempre dois ou três dias atrás de um pé da meia, de brinco ou de uma blusa em continuidade toda a vez que filmam lá. Set é terra de ninguém. Mas nada superou ao dia de hoje: fui tomar a água de uma garrafinha e senti um gosto estranhíssimo. Olhei para o plástico da garrafa e a água estava turva e cheia de vermes. Mini minhocas em movimento de cor acinzentada. “Charly, acabei de beber vermes!!!!!!!”. “Joga essa água for a  toma água limpa.” Eu jogo a água fora. “Charly, é sério, ingeri vermes.” Tento vomitar e não consigo. Ligo para meu pai no Brasil, uma certa tensão no set. Meu pai me pergunta aonde está a água caso seja preciso mandar para a análise. “Joguei fora pai, o diretor mandou!” Meu pai me manda para o hospital, diz que os medicos daqui conhecem os germes daqui. Pergunta o quanto de minhoca ingeri. O mal humor toma conta de mim. Tanto cansaço, tanta coisa pra rodar e agora esses vermes dentro de mim. E se for grave? E toca eu e Alina para um centro médico. O plano resolve não cobrir. Horas de discussão até eu começar a gritar em português e a raposa esperta da Alina dobrar os russos até eles me atenderem. Um medico mal humoradíssimo faz cara de cu. Você comeu vermes, e daí? Como se eu tivesse comido pão com geléia.

(fecha parênteses)

 5 de abril São Petersburgo

Meia hora para colocar um mês de história de volta à mala.  Me despeço de Asa, a gata. Hoje embarcamos num trem para São Petersburgo para rodar as sequências finais. Essa cidade é um colírio. As pessoas são lindas e elegantes. Até a neve aqui é mais chic, cai toda certinha e delicada no chão. Tem rio e mar, e por isso é mais fria. As pessoas são menos coléricas que em Moscou, os restaurantes são melhores, mas seu eu tivesse que escolher, Moscou seria minha eleita. Estamos hospedados num hostel charmosíssimo e é um certo alívio ter saído do nosso alojamento/asilo. Desde o começo do filme o Charly queria filmar um encontro nosso com alguma figura local que pudesse nos contar mais sobre a transição da Rússia comunista para a capitalista, entre outros assuntos. O eleito foi Nikolay, um grande artista plastico daqui. Fomo ao seu atelier com vista para o mar. Ou rio, não sei precisar. Gostei muito dele, que também é diretor de cinema e adora falar. Conseguiu falar mais do que eu na cena, para alívio do meu diretor, que está tentando calar a boca da minha personagem há tempos. 

Na saída vi o Charly num canto com o celular no ouvido. Tinha alguma estranheza na cena e eu olhei pra cara dele com cara de “Que é que foi?”. “O Zé morreu.”, ele respondeu numa tristeza absoluta. Charly era grande amigo do Wilker e desde que começamos o roteiro, anos atrás, ele queria homenageá-lo  com uma cena. Foi difícil para ele terminar a diária com o peso da notícia. Seguimos.


San Peter 6/7 de abril 

Até a última gota. Enquanto parte da equipe ficou em Petersburgo comemorando o ultimo plano, eu, Charly, Eliane, Anastácia e Pablo voltamos no trem noturno. Era uma cabine de primeira classe, e eu não quero nem imaginar o que seria a segunda. Foi triste dar adeus para a equipe que ficou, especialmente para Soraia, que não verei tão cedo. Pisei em Moscou em ruínas, imunda, tomamos café da manhã e inutilmente tentei disfarçar o desastre na minha cara com alguns gramas de corretivo. Andamos um par de horas filmando pelas mais belas estações de metrô. Tive meia hora para tomar um banho antes de pegar o avião da volta para o Brasil. Talvez pelo cansaço, pressa ou loucura, ou um parafuso espanado na minha cabeça, eu, num ímpeto sem precedentes gasto metade do cachê para fazer um upgrade para a executiva.

    (exaustão no trem noturno para Moscou) 


Madrid, 6/7 de abril

A sala vip parece um oasis no meio do deserto. O perengue do ultimo mês foi tamanho e eu fiquei tão deslumbrada com a abundância de comes e bebes que começei a enfiar mini garrafas de champanhe na minha bolsa. Fui abduzida por uma outra Martha, mais desesperada, despudorada e sem noção que eu, mas tinha que fazer valer cada centavo do investimento. Foi um vexame. Queria ainda tirar fotos por lá, mas todos pareciam estar confortáveis em suas próprias peles, e tão acostumados com tudo aquilo, que tive que me conter.

Oceano Atlântico 6/7 de abril

A poltrona do avião é algo a parte. Geralmente passo chorando pela executiva a caminho da terceira classe, mas desta vez nem olhei para trás. Me aboletei na cápsula/poltrona e me enchi de cava espanhola e travesseiros. Achei muito injusto ter que pagar uma fortuna para viajar minimamente confortável e me dei conta que a classe econômica é simplesmente desumana. Ao invés de aproveitar ao máximo o luxo temporário, já começei a sofrer pensando na minha próxima viagem no poleiro do avião. Acordo de madrugada com o filme passando na minha cabeca. Vermelho russo. O silêncio da executiva é bálsamo, e todos pagaram muito caro por ele, por isso não ousam quebrá-lo. Cruzo o oceano sem turbulências, em estado de catatonia.

Guarulhos, 8 de abril

A fila da polícia federal não nega o GPS: Guarulhos. Passo no free Shop para fazer hora. Minha mãe vem me buscar no aeroporto; minha mãe sempre atrasa. O filme passa minha cabeça; cento e noventa horas de material. Dei tudo de mim em cada uma delas.

 São Paulo, 8 de abril, 29 graus

Soraia está presa em Moscou. O visto venceu e nem a produção nem a Portuga perceberam. Agora Soraia não pode sair, está presa na casa. Free Soraia, o povo em Portugal grita. Chego em casa. Caco foi embora ontem, alugou meu AP por um mês. Há um desenho dele na geladeira agradecendo a estadia. Sorrio. Caco deixou para trás meio pacote de pão, garrafas de vinho, calda de marshmallow, chocolate e caramelo. Penso que as caldas serão muito úteis no momento oportuno. Não sei qual calda, digo, mala, abrir primeiro. 

Minha orquídea deu flor. Sorrio. Nunca estive tão cansada. Caio num sono paleolítico e acordo sem saber onde estou. Um minuto se passa e eu continuo sem saber. Olho fixamente para a caixa de maiôs e cangas. Estou em casa, finalmente realizo. Procuro a câmera.










segunda-feira, 31 de março de 2014

quero ser um país novo








                                               
                                               



Manu ia estudar o texto mas dormiu, e 
enquanto todos babavam na van, nosso diretor estudava...



Moscou, dia 20 de março, sensação térmica de -10 graus

Comprei o mr.muscle,  um desinfetante de banheiro, e a cada dois dias encharco minha privada e banheira com ele. Depois jogo água pelando, deixo escorrer, secar e preparo uma banheira bem quentinha pra mim. Uma parte da equipe tem nojo da banheira, mas eles não tem noção do que estão perdendo, um banho desses depois de um dia de frio pode operar milagres. 

Nossas filmagens entraram no prumo. O inesperado tem se conjugado harmoniosamente dentro de nossa ordem do dia, ou melhor, nossa desordem do dia. As cenas estão boas e o Charly tem conseguido fazer o que quer e parece mais satisfeito com o material. As aulas engrenaram, apesar de quase todos os figurantes terem desaparecido e o jantar do alojamento foi trocado por um catering deixando nossa vida um pouco mais digna.

Eu, que pessoalmente tenho dificuldade de fazer cenas onde “nada” acontece, tenho me sentido bem mais a vontade nesse tipo de plano. Minha febre passou e foi substituída por uma alergia feroz, mas nada que um novo comprimido não tenha resolvido. Enquanto uns se curam outros adoecem, e assim, nosso set continua uma sinfonia de tosses. Eu comprei uma casaco novo pela pechincha de 999 rublos e confinei a Sarita à mala de figurinos, já que outro dia filmamos meu tombo na neve e ele ficou mais rasgada do que já estava. Não sei direito como fiz para levar o tombo, mas foi engraçadíssimo,  e quase tão bom quantos os outros tantos que eu levado espontaneamente por aqui.


Na saída da embaixada fomos para a torre, umas das sete irmâs de Stalin, que alugamos por algumas noites como locação e casa de Michel. Estávamos tão feliz que começamos a dancar. No meio da noite começou uma tempestadade de neve e corremos para o terrraço, no vigésimo quinto andar para comemorar. O vento branco cobria e cidade e vinha em nossa direção com violência. Dava medo.

As duas da manhã o Charly abaixou o som e fez um discurso chatíssimo "Vocês tem que dormir, essa festa acaba hoje, mas a cena que vocês tem que filmar amanhã ficará para sempre. Marta você não tem estrutura para ficar na balada e filmar. Todos vocês, já para a van." Eu entrei resignada na van. Alguns resistiram por dez minutos mas acabaram obedecendo o diretor. Manu, a mais rebelde, ficou na festa. Voltamos para o dormitório, e de vingança, roubamos um conhaque que o Charly tinha ganhado de um russo e continuamos a festa no quarto.

29 de março
Hoje iámos filmar uma cena inacabada, de balada, eu, Manu e Michel. A gente filmou na semana passada mas a Caroline achou que não tinha material suficiente para montar. Então devíamos estar na continuidade para fazer mais alguns planos. Peguei minha calça que tinha mandado para lavar e entrei no quarto da Manu desesperada "Manu, minha calça não fecha em três dedos." Manu teve um ataque de riso pois a saia dela também estava justíssima e ela tava um bochechão, a cara inchada e os dois joelhos roxos de uma queda recente. Soraia desceu com a cara péssima e um roxo embaixo do olho por causa de uma cotovelada que levou da Flor. E Michel apareceu com um papo de quem bebeu vodka a semana toda. Ou seja, a hora que formos cortar de um plano para o outro, na mesma cena, nós vamos estar totalmente diferentes, em franca decadência. Além disso cai pela quarta vez e estou mancando.

30 de março
Acordamos de ressaca na manhã de folga e estava acontecendo uma grande convenção aqui no alojamento: "Como viver até os cem anos". Russos e russas em calças de moleton aprendiam exercícios de respiração, anotavam conselhos em seus cadernos e compravam um dvd com um homem cheio de músculos enrolado numa corrente grossa na capa. Eu estou muito apegada a este lugar, à Natasha e Irina, que nos servem o café da manhã, à Esvetana, porteira de cara amarrada, aos velhinhos e à Ina, minha vizinha, que no alto de seus cem anos às vezes aparece no corredor de calçinha e camiseta a procura de algo que eu não consigo entender o que é. É uma cena triste.Também estou num caso de amor a com toda a equipe. É sempre terrível passar um mês trabalhando, adquirindo uma intimidade forçada, conhecendo as caras que cada um tem pela manhã e no fim do dia, aturando e sendo aturada, formando uma familia e depois desfazer tudo depois do último take. O cinema é uma vida cigana.

31 de março
Acho que esse filme vai ficar bonito.

quinta-feira, 20 de março de 2014

para Caroline





(fumódromo)


(tom e jerry)


Moscou, dia 20 de março, sensação térmica de -10 graus

Comprei o mr.muscle,  um desinfetante de banheiro, e a cada dois dias encharco minha privada e banheira com ele. Depois jogo água pelando, deixo escorrer, secar e preparo uma banheira bem quentinha pra mim. Uma parte da equipe tem nojo da banheira, mas eles não tem noção do que estão perdendo, um banho desses depois de um dia de frio pode operar milagres.

Nossas filmagens entraram no prumo. O inesperado tem se conjugado harmoniosamente dentro de nossa ordem do dia, ou melhor, nossa desordem do dia. As cenas estão boas e o Charly tem conseguido fazer o que quer e parece mais satisfeito com o material. As aulas engrenaram, apesar de quase todos os figurantes terem desaparecido e o jantar do alojamento foi trocado por um catering deixando nossa vida um pouco mais digna.

Eu, que pessoalmente tenho dificuldade de fazer cenas onde “nada” acontece, tenho me sentido bem mais a vontade nesse tipo de plano. Minha febre passou e foi substituída por uma alergia feroz, mas nada que um novo comprimido não tenha resolvido. Enquanto uns se curam outros adoecem, e assim, nosso set continua uma sinfonia de tosses. Eu comprei uma casaco novo pela pechincha de 999 rublos e confinei a Sarita à mala de figurinos, já que outro dia filmamos meu tombo na neve e ele ficou mais rasgada do que já estava. Não sei direito como fiz para levar o tombo, mas foi engraçadíssimo,  e quase tão bom quantos os outros tantos que eu levado espontaneamente por aqui.



           (flor)                                                             (entre um take e a calefação)

O enredo de nosso triângulo amoroso continua incerto, o que deixa o Michel desesperado, já que ele não consegue entender qual o seu papel no filme. Eu e Charly vamos pensando dia a dia na trama, e inventando algumas cenas de última hora. Hoje filmamos uma dessas, externa, e a sensação térmica era de menos dez graus. A mão do Samore, nosso fotografo, congelou e o meu pé e da Manu chegou a menos cinco.  Mas minha vida ficou muito melhor depois que meu querido diretor me emprestou uma calça de moleton.

Tenho pensado mais na Caroline do que em São Longuinho, padroeiro das mulheres que usam bolsas grandes. Fico imaginando Caroline, nossa montadora, com o material de três câmeras na ilha, horas de aula, cenas improvisadas, cenas do roteiro, cenas novas de ficção, cenas documentais e uma claquete cuja numeração está mais incompreensível que o cirílico. Imagino Caroline e peço a Deus por sua saúde.

Dedico este post a ela, que de boba não tem nada, pois já está vindo lá de São Paulo para Moscou, afim de entender bem o cerco, digo, circo em que foi amarrar seu burro.

   (Vladimir, o professor)                                     (Anastácia, nossa produtora local)

terça-feira, 18 de março de 2014

come chocolates pequena



13 de março
Hoje passei umas dez horas em pé com uma câmera atrás de mim. Meu pé está mais cansado que o das velhinha do alojamento. O Charly não consegue mais dormir e acumula olheiras cor de jabuticaba no rosto. Grabo, nosso assistente de direção está febril, devido a seu acúmulo gigante de funções. Tatu também começou com uma tosse e Eliane desenvolveu uma alergia. Todos nós esperamos ansiosamente as nossas merecidas e ininterruptas horas de sono. E veio a véspera de folga. Nos jogamos num restaurante georgiano, nos esbaldamos com os chopes e os kebabs e os sacos cossacos, uns raviólis gigantes de carne. Depois caímos numa balada e dançamos como crianças na pista que variava entre daft punk, lambada, e música pop russa. Fizemos trenzinhos com os russos quando tocou “Chorando se foi...”. Conversei longamente com uma russa que defendia o Putin. E eu disse: “Mas não é perigoso um homem que está proibindo, por exemplo, o povo de comprar bebida álcoolica depois das onze da noite no mercado?”. Ela disse que não, que as pessoas de bem podem comprar bebidas até as dez e meia ou tem condições de ir a um bar para consumir álcool. E que Putin está ajudando a acabar com a imagem de bêbados que o russos tem no resto mundo. Paramos a conversa por aí. Outro dia era 23:02 e a caixa não pode passar o champanhe que eu queria tomar naquela noite.  Os champanhes são bons aqui, e não são caros, o que é um perigo para mim. Na volta da balada, passamos duas horas num taxi surreal para chegar ao alojamento. Lá pelas tantas ele parou o carro e nos empurrou para um taxi oficial.  O motorista queria cobrar uma fortuna, e nós estávamos bêbados e voltamos correndo para o carro anterior, cujo motorista não tinha a menor ideia do caminho de nosso dormitório.

14 de março
Dia de folga. Vimos o material. Charly acha tudo ruim. Medíocre. Eu acho que tem coisas boas. Passei a tarde com Soraia, a ler poemas, comer chocolates e a me deprimir com a palavra medíocre.

15 de março -5 graus
Primeiro vieram uns floquinhos que não imprimiram. Depois a neve de papel picado. Bonita. É nós corremos pro lado de fora para mão perde-la. Dez minutos e eu gripei. Trinto e oito, trinta e nove de febre. Bruno, o diretor de produção, me comprou um arsenal com antibióticos, vitaminas, aspirinas, levantadores de sistema imunológico e até um pote com mel que veio da neta de um apicultor que ele conheceu no mercado e se compadeceu da minha situação. Eu passei o dia suando, assoando, tossindo e fazendo uma reunião interminável com quase toda a equipe sobre a dinâmica de filmagem, enredo etc. E dá-lhe ouvir cinco horas de opinião alheia com os pulmões judiados. Por fim abolimos o roteiro ( que eu passei três anos escrevendo juto com o Charly) em prol de abrir espaço para captar as novas vivências. E dormi entre o pó secular que pairava no meu quarto e um criado-mudo abarrotado de medicamentos e bulas indecifráveis.

16 de março -6 graus
Nunca um roteiro abolido foi tão utilizado. Mas só de se libertar da obrigação de cumprir um cronograma o Charly já respirou diferente. Minha febre baixou, e subiu de novo. Eu me entediei nos corredores do Gogol Center enquanto o Charly filmava uma cena com o Michel e uma atriz russa, estrela do cinema e do teatro local que insiste em tratar eu e Manu com uma frieza siberiana. Mas vê-se que é uma baita atriz. Nosso diretor está muito mais satisfeito com ela do que conosco. A noite esfriou horrores e saímos para flanar na madrugada de Moscou enquanto eu sofria camelamente por não estar presente na estreia do meu filme, Entre Nós, em São Paulo. Queria pegar um jato e fazer um bate volta, mas a física é tão limitada às vezes. Deu saudades do Brasil, do namorado e do meu edredon. Tão limpinho, sem ácaros e outras coisas que tomaram conta do meu nariz. A cada novo dia alguém acorda doente, uma verdadeira epidemia no time. Sorte eu já estar criando anti-corpos