terça-feira, 15 de abril de 2014

vermelho russo


                                                                   (último plano)

Moscou, primeiro de abril

Muitos dos integrantes já foram eliminados e voltaram para o Brasil. Alguns ainda estão no paredão:
eu (continuista, atriz, maquiadora, roteirista e assistente de arte),
Manu (atriz, continuista e maquiadora),
Charly (diretor, produtor, roteirista e figurante)
Soraia (musa),
Eliane (produtora/operadora de milagres),
Grabinho (melhor assistente de direção do mundo, carregador, camareiro, continuista, diretor de arte, beijoqueiro e terapeuta),
Alina (atriz, tradutora e assistente de produção),
Samori (diretor de fotografia, câmera, carregador, dir. de arte),
Carpa, nosso logger,
Pablo( camera, still, conectadinho e figurante)
e Zon, do som,
resistimos bravamente!

Moscou é muito poluida, seca e suja. Está entre as quatro piores cidades para respirar do mundo. A água daqui é branca, acho que tem muito calcário, ou cloro. Sei que minha pele está muito seca e eu acumulo algumas feridas (de secura) no braço e nas coxas, não importa a quantidade de creme que eu passe. Também acumulo roxos dos tombos sem fim. Meus cabelos brancos duplicaram neste processo e eu estou a beira da exaustão. Mas estou feliz. Gosto cada vez mais do que fazemos, e o Charly, apesar de ficar me chamando de Didi (Mocó) e cachorrão (por causa da minha lealdade e carência, segundo ele) também está feliz. 

Como quase todos foram embora, deixamos para o final as cenas mais densas entre eu e Manu. Foi horrível fazer a cena da briga: a gente se pegou no tapa, e no fim a Manu atacou em mim um livro de poesia soviética mais gordo que a Barsa, que pegou no meu tornozelo, somando mais um roxo para minha coleção. Eu fiquei com uma taquicardia por mais de duas horas de tanta raiva que passei. Foi horrível (embora o Charly ache que a gente tenha adorado) agredir tanto minha amiga.


Moscou, 2 de abril

Eu me sinto bem a vontade aqui. Não tenho mais medo da Rússia, dos russos. Eles podem fazer a cara mais feia do mundo, cuspirem as frases mais grossas do dia, eu não tô nem aí, acostumei. Gosto deles. Eu entendi e aceito como eles são. Hoje fui fazer as cenas de amor com o Sasha. O Misha, ator que interpreta o Sasha fake, me disse que nunca tinha beijado em cena, e estava muito nervoso. Eu tentei acalmá-lo, mas na hora do ação ele ficou tenso e apertou minha cintura num tanto que fiquei com mais um roxo… e me mordeu também. 

Coitado, ele estava confuso: tá convidando a Manu para sair desde o dia que nos conhecemos, e agora quando encontra ela no set é obrigado a fazer cenas de amor comigo. Ele ficou atordoado, e no meio da diária já tava me chamando de Manuela. Me diverti tanto com tudo isso. No fim do dia filmamos a cena do encontro na neve no parque Puschckin. O Charly pediu que fizessemos uma espécie de tango na neve, e claro, lá fui eu para o chão mais uma vez. Dessa vez com o Sasha fake a tiracolo.



3 de abril

Não posso reclamar: estou filmando, na Rússia, uma história originalmente minha, entre amigos. É muito gratificante tudo isso, apesar do perengue. Agora já consigo pedir meu ovo frito, ao invés de cozido, para Natasha, a moça que serve nosso café. Outro dia tomei duas doses de vodka come ela, que chorou, dizendo que ia sentir nossa falta quando fossemos embora. A tarde fomos ao parque Gorgki e fazia um frio terrível. Frio e vento, que é a pior combinação que existe. Eu e Manu, não conseguíamos ficar mais de dez minutos no set e saímos correndo em direção ao café sob os protestos de nosso diretor. Filmar no frio queima o cartucho da disposição numa tacada só. O cansaço que dá é enorme, e todos ficam imprestáveis depois de uma cena dessa. Seguimos.


4 de abril
Não há tempo para nada. O tempo que sobra é para lavar os cabelos, fumar um cigarro, ter uma nova ideia. Não sei mais o que é o Brasil, qual a cor da parede da entrada do meu prédio, como é a voz do Willian Bonner ou o que aconteceu com o avião que caiu. Não tenho ideia do que se passa na Criméia, só penso no próximo plano, na continuidade do figurino, na incoerência da personagem, em dar conta, em dar conta, em dar conta de tudo isso.

)abre parênteses(

Meu quarto é o mais bonito do alojamento, e por isso é nosso cenário. Isso me deu o previlégio da melhor acomodação, mas também me trouxe alguns pequenos incômodos. Cada vez que filmamos nele alguém desliga a geladeira e esquece de religar (já perdi um pacote de salmão defumado e um pote de queijo feta nessa). As coisas pequenas desaparecem e eu passo sempre dois ou três dias atrás de um pé da meia, de brinco ou de uma blusa em continuidade toda a vez que filmam lá. Set é terra de ninguém. Mas nada superou ao dia de hoje: fui tomar a água de uma garrafinha e senti um gosto estranhíssimo. Olhei para o plástico da garrafa e a água estava turva e cheia de vermes. Mini minhocas em movimento de cor acinzentada. “Charly, acabei de beber vermes!!!!!!!”. “Joga essa água for a  toma água limpa.” Eu jogo a água fora. “Charly, é sério, ingeri vermes.” Tento vomitar e não consigo. Ligo para meu pai no Brasil, uma certa tensão no set. Meu pai me pergunta aonde está a água caso seja preciso mandar para a análise. “Joguei fora pai, o diretor mandou!” Meu pai me manda para o hospital, diz que os medicos daqui conhecem os germes daqui. Pergunta o quanto de minhoca ingeri. O mal humor toma conta de mim. Tanto cansaço, tanta coisa pra rodar e agora esses vermes dentro de mim. E se for grave? E toca eu e Alina para um centro médico. O plano resolve não cobrir. Horas de discussão até eu começar a gritar em português e a raposa esperta da Alina dobrar os russos até eles me atenderem. Um medico mal humoradíssimo faz cara de cu. Você comeu vermes, e daí? Como se eu tivesse comido pão com geléia.

(fecha parênteses)

 5 de abril São Petersburgo

Meia hora para colocar um mês de história de volta à mala.  Me despeço de Asa, a gata. Hoje embarcamos num trem para São Petersburgo para rodar as sequências finais. Essa cidade é um colírio. As pessoas são lindas e elegantes. Até a neve aqui é mais chic, cai toda certinha e delicada no chão. Tem rio e mar, e por isso é mais fria. As pessoas são menos coléricas que em Moscou, os restaurantes são melhores, mas seu eu tivesse que escolher, Moscou seria minha eleita. Estamos hospedados num hostel charmosíssimo e é um certo alívio ter saído do nosso alojamento/asilo. Desde o começo do filme o Charly queria filmar um encontro nosso com alguma figura local que pudesse nos contar mais sobre a transição da Rússia comunista para a capitalista, entre outros assuntos. O eleito foi Nikolay, um grande artista plastico daqui. Fomo ao seu atelier com vista para o mar. Ou rio, não sei precisar. Gostei muito dele, que também é diretor de cinema e adora falar. Conseguiu falar mais do que eu na cena, para alívio do meu diretor, que está tentando calar a boca da minha personagem há tempos. 

Na saída vi o Charly num canto com o celular no ouvido. Tinha alguma estranheza na cena e eu olhei pra cara dele com cara de “Que é que foi?”. “O Zé morreu.”, ele respondeu numa tristeza absoluta. Charly era grande amigo do Wilker e desde que começamos o roteiro, anos atrás, ele queria homenageá-lo  com uma cena. Foi difícil para ele terminar a diária com o peso da notícia. Seguimos.


San Peter 6/7 de abril 

Até a última gota. Enquanto parte da equipe ficou em Petersburgo comemorando o ultimo plano, eu, Charly, Eliane, Anastácia e Pablo voltamos no trem noturno. Era uma cabine de primeira classe, e eu não quero nem imaginar o que seria a segunda. Foi triste dar adeus para a equipe que ficou, especialmente para Soraia, que não verei tão cedo. Pisei em Moscou em ruínas, imunda, tomamos café da manhã e inutilmente tentei disfarçar o desastre na minha cara com alguns gramas de corretivo. Andamos um par de horas filmando pelas mais belas estações de metrô. Tive meia hora para tomar um banho antes de pegar o avião da volta para o Brasil. Talvez pelo cansaço, pressa ou loucura, ou um parafuso espanado na minha cabeça, eu, num ímpeto sem precedentes gasto metade do cachê para fazer um upgrade para a executiva.

    (exaustão no trem noturno para Moscou) 


Madrid, 6/7 de abril

A sala vip parece um oasis no meio do deserto. O perengue do ultimo mês foi tamanho e eu fiquei tão deslumbrada com a abundância de comes e bebes que começei a enfiar mini garrafas de champanhe na minha bolsa. Fui abduzida por uma outra Martha, mais desesperada, despudorada e sem noção que eu, mas tinha que fazer valer cada centavo do investimento. Foi um vexame. Queria ainda tirar fotos por lá, mas todos pareciam estar confortáveis em suas próprias peles, e tão acostumados com tudo aquilo, que tive que me conter.

Oceano Atlântico 6/7 de abril

A poltrona do avião é algo a parte. Geralmente passo chorando pela executiva a caminho da terceira classe, mas desta vez nem olhei para trás. Me aboletei na cápsula/poltrona e me enchi de cava espanhola e travesseiros. Achei muito injusto ter que pagar uma fortuna para viajar minimamente confortável e me dei conta que a classe econômica é simplesmente desumana. Ao invés de aproveitar ao máximo o luxo temporário, já começei a sofrer pensando na minha próxima viagem no poleiro do avião. Acordo de madrugada com o filme passando na minha cabeca. Vermelho russo. O silêncio da executiva é bálsamo, e todos pagaram muito caro por ele, por isso não ousam quebrá-lo. Cruzo o oceano sem turbulências, em estado de catatonia.

Guarulhos, 8 de abril

A fila da polícia federal não nega o GPS: Guarulhos. Passo no free Shop para fazer hora. Minha mãe vem me buscar no aeroporto; minha mãe sempre atrasa. O filme passa minha cabeça; cento e noventa horas de material. Dei tudo de mim em cada uma delas.

 São Paulo, 8 de abril, 29 graus

Soraia está presa em Moscou. O visto venceu e nem a produção nem a Portuga perceberam. Agora Soraia não pode sair, está presa na casa. Free Soraia, o povo em Portugal grita. Chego em casa. Caco foi embora ontem, alugou meu AP por um mês. Há um desenho dele na geladeira agradecendo a estadia. Sorrio. Caco deixou para trás meio pacote de pão, garrafas de vinho, calda de marshmallow, chocolate e caramelo. Penso que as caldas serão muito úteis no momento oportuno. Não sei qual calda, digo, mala, abrir primeiro. 

Minha orquídea deu flor. Sorrio. Nunca estive tão cansada. Caio num sono paleolítico e acordo sem saber onde estou. Um minuto se passa e eu continuo sem saber. Olho fixamente para a caixa de maiôs e cangas. Estou em casa, finalmente realizo. Procuro a câmera.










segunda-feira, 31 de março de 2014

quero ser um país novo








                                               
                                               



Manu ia estudar o texto mas dormiu, e 
enquanto todos babavam na van, nosso diretor estudava...



Moscou, dia 20 de março, sensação térmica de -10 graus

Comprei o mr.muscle,  um desinfetante de banheiro, e a cada dois dias encharco minha privada e banheira com ele. Depois jogo água pelando, deixo escorrer, secar e preparo uma banheira bem quentinha pra mim. Uma parte da equipe tem nojo da banheira, mas eles não tem noção do que estão perdendo, um banho desses depois de um dia de frio pode operar milagres. 

Nossas filmagens entraram no prumo. O inesperado tem se conjugado harmoniosamente dentro de nossa ordem do dia, ou melhor, nossa desordem do dia. As cenas estão boas e o Charly tem conseguido fazer o que quer e parece mais satisfeito com o material. As aulas engrenaram, apesar de quase todos os figurantes terem desaparecido e o jantar do alojamento foi trocado por um catering deixando nossa vida um pouco mais digna.

Eu, que pessoalmente tenho dificuldade de fazer cenas onde “nada” acontece, tenho me sentido bem mais a vontade nesse tipo de plano. Minha febre passou e foi substituída por uma alergia feroz, mas nada que um novo comprimido não tenha resolvido. Enquanto uns se curam outros adoecem, e assim, nosso set continua uma sinfonia de tosses. Eu comprei uma casaco novo pela pechincha de 999 rublos e confinei a Sarita à mala de figurinos, já que outro dia filmamos meu tombo na neve e ele ficou mais rasgada do que já estava. Não sei direito como fiz para levar o tombo, mas foi engraçadíssimo,  e quase tão bom quantos os outros tantos que eu levado espontaneamente por aqui.


Na saída da embaixada fomos para a torre, umas das sete irmâs de Stalin, que alugamos por algumas noites como locação e casa de Michel. Estávamos tão feliz que começamos a dancar. No meio da noite começou uma tempestadade de neve e corremos para o terrraço, no vigésimo quinto andar para comemorar. O vento branco cobria e cidade e vinha em nossa direção com violência. Dava medo.

As duas da manhã o Charly abaixou o som e fez um discurso chatíssimo "Vocês tem que dormir, essa festa acaba hoje, mas a cena que vocês tem que filmar amanhã ficará para sempre. Marta você não tem estrutura para ficar na balada e filmar. Todos vocês, já para a van." Eu entrei resignada na van. Alguns resistiram por dez minutos mas acabaram obedecendo o diretor. Manu, a mais rebelde, ficou na festa. Voltamos para o dormitório, e de vingança, roubamos um conhaque que o Charly tinha ganhado de um russo e continuamos a festa no quarto.

29 de março
Hoje iámos filmar uma cena inacabada, de balada, eu, Manu e Michel. A gente filmou na semana passada mas a Caroline achou que não tinha material suficiente para montar. Então devíamos estar na continuidade para fazer mais alguns planos. Peguei minha calça que tinha mandado para lavar e entrei no quarto da Manu desesperada "Manu, minha calça não fecha em três dedos." Manu teve um ataque de riso pois a saia dela também estava justíssima e ela tava um bochechão, a cara inchada e os dois joelhos roxos de uma queda recente. Soraia desceu com a cara péssima e um roxo embaixo do olho por causa de uma cotovelada que levou da Flor. E Michel apareceu com um papo de quem bebeu vodka a semana toda. Ou seja, a hora que formos cortar de um plano para o outro, na mesma cena, nós vamos estar totalmente diferentes, em franca decadência. Além disso cai pela quarta vez e estou mancando.

30 de março
Acordamos de ressaca na manhã de folga e estava acontecendo uma grande convenção aqui no alojamento: "Como viver até os cem anos". Russos e russas em calças de moleton aprendiam exercícios de respiração, anotavam conselhos em seus cadernos e compravam um dvd com um homem cheio de músculos enrolado numa corrente grossa na capa. Eu estou muito apegada a este lugar, à Natasha e Irina, que nos servem o café da manhã, à Esvetana, porteira de cara amarrada, aos velhinhos e à Ina, minha vizinha, que no alto de seus cem anos às vezes aparece no corredor de calçinha e camiseta a procura de algo que eu não consigo entender o que é. É uma cena triste.Também estou num caso de amor a com toda a equipe. É sempre terrível passar um mês trabalhando, adquirindo uma intimidade forçada, conhecendo as caras que cada um tem pela manhã e no fim do dia, aturando e sendo aturada, formando uma familia e depois desfazer tudo depois do último take. O cinema é uma vida cigana.

31 de março
Acho que esse filme vai ficar bonito.

quinta-feira, 20 de março de 2014

para Caroline





(fumódromo)


(tom e jerry)


Moscou, dia 20 de março, sensação térmica de -10 graus

Comprei o mr.muscle,  um desinfetante de banheiro, e a cada dois dias encharco minha privada e banheira com ele. Depois jogo água pelando, deixo escorrer, secar e preparo uma banheira bem quentinha pra mim. Uma parte da equipe tem nojo da banheira, mas eles não tem noção do que estão perdendo, um banho desses depois de um dia de frio pode operar milagres.

Nossas filmagens entraram no prumo. O inesperado tem se conjugado harmoniosamente dentro de nossa ordem do dia, ou melhor, nossa desordem do dia. As cenas estão boas e o Charly tem conseguido fazer o que quer e parece mais satisfeito com o material. As aulas engrenaram, apesar de quase todos os figurantes terem desaparecido e o jantar do alojamento foi trocado por um catering deixando nossa vida um pouco mais digna.

Eu, que pessoalmente tenho dificuldade de fazer cenas onde “nada” acontece, tenho me sentido bem mais a vontade nesse tipo de plano. Minha febre passou e foi substituída por uma alergia feroz, mas nada que um novo comprimido não tenha resolvido. Enquanto uns se curam outros adoecem, e assim, nosso set continua uma sinfonia de tosses. Eu comprei uma casaco novo pela pechincha de 999 rublos e confinei a Sarita à mala de figurinos, já que outro dia filmamos meu tombo na neve e ele ficou mais rasgada do que já estava. Não sei direito como fiz para levar o tombo, mas foi engraçadíssimo,  e quase tão bom quantos os outros tantos que eu levado espontaneamente por aqui.



           (flor)                                                             (entre um take e a calefação)

O enredo de nosso triângulo amoroso continua incerto, o que deixa o Michel desesperado, já que ele não consegue entender qual o seu papel no filme. Eu e Charly vamos pensando dia a dia na trama, e inventando algumas cenas de última hora. Hoje filmamos uma dessas, externa, e a sensação térmica era de menos dez graus. A mão do Samore, nosso fotografo, congelou e o meu pé e da Manu chegou a menos cinco.  Mas minha vida ficou muito melhor depois que meu querido diretor me emprestou uma calça de moleton.

Tenho pensado mais na Caroline do que em São Longuinho, padroeiro das mulheres que usam bolsas grandes. Fico imaginando Caroline, nossa montadora, com o material de três câmeras na ilha, horas de aula, cenas improvisadas, cenas do roteiro, cenas novas de ficção, cenas documentais e uma claquete cuja numeração está mais incompreensível que o cirílico. Imagino Caroline e peço a Deus por sua saúde.

Dedico este post a ela, que de boba não tem nada, pois já está vindo lá de São Paulo para Moscou, afim de entender bem o cerco, digo, circo em que foi amarrar seu burro.

   (Vladimir, o professor)                                     (Anastácia, nossa produtora local)

terça-feira, 18 de março de 2014

come chocolates pequena



13 de março
Hoje passei umas dez horas em pé com uma câmera atrás de mim. Meu pé está mais cansado que o das velhinha do alojamento. O Charly não consegue mais dormir e acumula olheiras cor de jabuticaba no rosto. Grabo, nosso assistente de direção está febril, devido a seu acúmulo gigante de funções. Tatu também começou com uma tosse e Eliane desenvolveu uma alergia. Todos nós esperamos ansiosamente as nossas merecidas e ininterruptas horas de sono. E veio a véspera de folga. Nos jogamos num restaurante georgiano, nos esbaldamos com os chopes e os kebabs e os sacos cossacos, uns raviólis gigantes de carne. Depois caímos numa balada e dançamos como crianças na pista que variava entre daft punk, lambada, e música pop russa. Fizemos trenzinhos com os russos quando tocou “Chorando se foi...”. Conversei longamente com uma russa que defendia o Putin. E eu disse: “Mas não é perigoso um homem que está proibindo, por exemplo, o povo de comprar bebida álcoolica depois das onze da noite no mercado?”. Ela disse que não, que as pessoas de bem podem comprar bebidas até as dez e meia ou tem condições de ir a um bar para consumir álcool. E que Putin está ajudando a acabar com a imagem de bêbados que o russos tem no resto mundo. Paramos a conversa por aí. Outro dia era 23:02 e a caixa não pode passar o champanhe que eu queria tomar naquela noite.  Os champanhes são bons aqui, e não são caros, o que é um perigo para mim. Na volta da balada, passamos duas horas num taxi surreal para chegar ao alojamento. Lá pelas tantas ele parou o carro e nos empurrou para um taxi oficial.  O motorista queria cobrar uma fortuna, e nós estávamos bêbados e voltamos correndo para o carro anterior, cujo motorista não tinha a menor ideia do caminho de nosso dormitório.

14 de março
Dia de folga. Vimos o material. Charly acha tudo ruim. Medíocre. Eu acho que tem coisas boas. Passei a tarde com Soraia, a ler poemas, comer chocolates e a me deprimir com a palavra medíocre.

15 de março -5 graus
Primeiro vieram uns floquinhos que não imprimiram. Depois a neve de papel picado. Bonita. É nós corremos pro lado de fora para mão perde-la. Dez minutos e eu gripei. Trinto e oito, trinta e nove de febre. Bruno, o diretor de produção, me comprou um arsenal com antibióticos, vitaminas, aspirinas, levantadores de sistema imunológico e até um pote com mel que veio da neta de um apicultor que ele conheceu no mercado e se compadeceu da minha situação. Eu passei o dia suando, assoando, tossindo e fazendo uma reunião interminável com quase toda a equipe sobre a dinâmica de filmagem, enredo etc. E dá-lhe ouvir cinco horas de opinião alheia com os pulmões judiados. Por fim abolimos o roteiro ( que eu passei três anos escrevendo juto com o Charly) em prol de abrir espaço para captar as novas vivências. E dormi entre o pó secular que pairava no meu quarto e um criado-mudo abarrotado de medicamentos e bulas indecifráveis.

16 de março -6 graus
Nunca um roteiro abolido foi tão utilizado. Mas só de se libertar da obrigação de cumprir um cronograma o Charly já respirou diferente. Minha febre baixou, e subiu de novo. Eu me entediei nos corredores do Gogol Center enquanto o Charly filmava uma cena com o Michel e uma atriz russa, estrela do cinema e do teatro local que insiste em tratar eu e Manu com uma frieza siberiana. Mas vê-se que é uma baita atriz. Nosso diretor está muito mais satisfeito com ela do que conosco. A noite esfriou horrores e saímos para flanar na madrugada de Moscou enquanto eu sofria camelamente por não estar presente na estreia do meu filme, Entre Nós, em São Paulo. Queria pegar um jato e fazer um bate volta, mas a física é tão limitada às vezes. Deu saudades do Brasil, do namorado e do meu edredon. Tão limpinho, sem ácaros e outras coisas que tomaram conta do meu nariz. A cada novo dia alguém acorda doente, uma verdadeira epidemia no time. Sorte eu já estar criando anti-corpos

sábado, 15 de março de 2014

ação!



Moscou, 9 de março, 5 graus

 A comida do alojamento onde estamos hospedados, um retiro dos artistas do antigo cinema soviético, é cruel. De manhã um prato com uma salsicha, um ovo excessivamente cozido, um mingau oleoso, pão, queijo e chá. A noite uma papa de arroz com pedaços de carne ou frango. E assim seguimos a procura de um café decente. Mas o mais difícil é encontrar o ator para fazer o papel do Sasha.  Tivemos um casting exaustivo e memorável. Tatu sugeriu fazer um minuto de olho no olho entre eu e os candidatos e eu inventei um pequeno tema para improvisação. Charly nos dirigiu. O primeiro ator era simpático, mas sem carisma. O segundo tinha muito carisma, mas estava demais a vontade para um papel de tímido, e Charly achou ele velho demais para o filme. Embora eu também esteja velha para meu próprio papel. O outro era tão travado que achei que fosse paralisar diante de nós. O desespero foi tamanho  que fizemos um casting até com o garçom que nos atendeu no bar. Fim do dia vieram mais dois candidatos,  e eu me senti uma pedófila profissional, de tão novos que eram. O penúltimo era razoável, mas tinha uma cárie bem no dente da frente. E o derradeiro era um broto, e bom ator, mas era uma criança e  tinha um tersol em cima da pálpebra esquerda. Pensamos seriamente em chamar o verdadeiro Sasha para fazer o filme. Eu gosto da ideia, mas me constrange um pouco.  Já o Charly acha ele horrível nas fotos que viu na internet, mas é claro que ele está exagerando.

       (Martha e Michel)


10 de março, 7 graus
Tem uma gata preta gorda que mora na porta do refeitório ao lado de um pote de água, um de ração e outro que parece ser de feijão com presunto. Tem também alguns senhores e senhoras que moram no edifício, por aqui circulam e vez ou outra interagem conosco. Estamos com muita dificuldade de cumprir o roteiro no nosso cronograma, de conseguir documentar os momentos inusitados e de entender o que da história original funciona e o que deve ser repensado.  É difícil pensar na continuidade dos figurinos, e se isso realmente importa. O que é mais importante, captar o que está acontecendo agora ou registrar a ficção? Mas o inusitado sem a narrativa funciona? E a ficção sem a vivencia é válida neste tipo de projeto? É uma crise conceitual que junto com as quatorze horas por dia de filmagem está me deixando um bocadinho louca. O Sasha verdadeiro vinha hoje para o teste, o que poderia me causar sérios problemas conjugais, mas não veio, por que no meio do caminho descobrimos um ator perfeito, bonito e inteligente para o papel. Misha. Fiquei muito empolgada com ele,  que compreendeu totalmente o filme. Só que surgiu um pequeno probleminha no meio do caminho. Manu, que logo foi perguntando se ele tinha facebook e jogando seu olhar 43 para ele. Ele ficou absolutamente deslumbrado e agora meu ator, que deveria estar totalmente embasbacado por esta que vos fala, e estar concentrado em seu papel, fica convidando minha amiga para sair. Ok, somos todos profissionais e ninguém precisa estar afim de ninguém para fazer um par romântico. Acontece que na dinâmica desse filme, onde o roteiro é complementado pela improvisação e onde a vida imita a arte e vice versa, etc e tal, vai ficar difícil fazer um clima com o Sasha fake se ele só pensa na Manuela. Ódio. Estamos pensando seriamente em mudar esta história.

  (salada georgiana)

 11 de março, 4 graus
 A gata preta chama Asa, e sempre que podemos a colocamos em cena. Hoje acordei com o Charly sentado na penumbra do meu quarto filmando nosso despertar. Ontem a meia noite Michel Melamed chegou diretamente do Rio de janeiro para fazer o papel de Michel no filme, um dos lados de um quase triângulo amoroso que eu e Manu faremos com ele, ou faríamos, vai saber. Este making off tá tão louco que a gente não sabe mais se incorpora, muda, reescreve. Minha cabeça está prestes a fundir. Ao mesmo tempo o material de ficção está ficando bonito. Michel chegou numa pilha louca de ideias com uma garrafa de vodka consumada na mão. E já estou apaixonada pela loucura dele. Nosso professor, Vladimir é um bom diretor e a interpretação que ele fez de Sônia, minha personagem é bem interessante. Tenho um pouco de sono nas aulas, mas vá lá.  Adoro a Sônia, sua força, sua resignação, sua generosidade, é uma personagem linda. Talvez seja ela que esteja fazendo isso comigo: meu coração anda de manteiga, não posso ver uma pessoa feliz que tenho vontade de chorar, chorar de amor pela alegria alheia. Esse sentimento está me deixando esquisita e eu não sei se é algo bom ou ruim.  O Charly anda exausto e sobrecarregado, e também tentando entender qual o melhor caminho do filme. Eliane, nossa produtora está sempre a procura do melhor câmbio, e sofre com as negociações um tanto mafiosas do país. Sem contar que há sempre algo mal compreendido, um equipamento que veio errado, e outras complexidades do gênero. Rússia. Estou a procura de um novo casaco, não consigo usar a Sarita fora de cena e meu outro casaco não me esquenta o suficiente. Esfriou, e parece que amanhã neva.

     (Soraia, musa)

12 de março, 4 graus
Faz dois dias que tentamos assistir um dvd de “The Child” na van que nos leva para as locações. Geralmente durmo no meio. Fomos assistir a uma montagem de “O Jardim das Cerejeiras” no teatro de arte de moscou para captar algumas cenas e claro, metade da equipe dormiu. Saímos correndo no intervalo, e nem me senti culpada pela heresia cometida. Filmamos cenas no metrô, nas ruas, no mercado. A câmera grande causa estranheza e falta de naturalidade nas pessoas. A câmera pequena, que estamos usando para este tipo de cena, passa quase desapercebida. O Charly não tem o costume de dar o AÇÃO, talvez por que este filme não seja só uma ficção, mas também o costume de ir captando o que tiver pela frente. Num caso como este o AÇÃO se torna desnecessário ( acho que é esta a lógica dele), mas eu sou uma atriz que ligo um botão quando alguém grita esta palavra.  AÇÃO funciona para mim. E CORTA também, outra coisa que não existe aqui. Geralmente eu e Manu andamos quilômetros desnecessários por falta de um CORTA. 

quarta-feira, 12 de março de 2014

o diário do filme do diário





7 de março de 2014
É um non stop shooting isso aqui. Do aeroporto de Guarulhos, onde gravamos a primeira cena, e onde gentilmente o Charly berrou para a equipe: “A cena ficou boa, embora a Martha esteja totalmente over-acting.”, até em meus sonhos, estamos sempre a filmar. Não sei como não fomos expulsos do avião, tamanho o circo que armamos para filmar. Todos foram muito gentis a pacientes à nossa volta. Eu teria matado alguém se tivesse que viajar na classe econômica e ainda por cima ter de aturar uma equipe de cinema de baixo orçamento filmando sem autorização durante a viagem. A primavera chegou mais cedo em Moscou e quem diria, tivemos que “fakear” o frio em nossa primeira cena na cidade. Algo em torno de 5 graus.


8 de março de 2014
Nossa equipe é adorável,  e nossos atores impagáveis. Luis, que está sempre a procura de uma tomada para recarregar seu i phone. Tatu, nosso muso argentino, é ruivo de queimar os olhos. E tem também Flor, a caçula de longos cílios, prima do Charly e argentina também. No mais, eu, Manu e Soraia.  Manu continua com seu habitual mau humor e eu continuo com a questão do casaco, que cinco anos depois, ainda é um problema. A Manoella trouxe um de Londres a pedido de Andreia, nossa figurinista. Um casaco de pele que precisa ser rasgado no segundo terço do filmo e que eu carinhosamente apelidei de Sarita. Por que parece feito de um macaco, ou melhor, macaca, a macaca Sarita. Sarita está muito démodé, por que ao contrário de 2009, quase ninguém mais usa pele verdadeira em Moscou. Só eu e algumas senhoras muito antigas. O caso é que o casaco já veio rasgado, no mesmo lugar onde rasgou da última vez. Sério, parece até que a Manu fez de propósito: entrou no brechó e pediu um casaco de pele com potencial para rasgar embaixo do sovaco direito.

quarta-feira, 5 de março de 2014

um set em moscou


São Paulo, 5 de março
Quarta-feira de cinzas e de chuva. Na fila do centro espero para tomar um passe antes da viagem. O homem na janela incorpora um caboclo animado enquanto eu penso na Rússia. O fato de ter de usar as roupas da personagem vinte e quatro horas por dia me dá um vislumbre de que também eu vou acabar incorporando alguma coisa. No mínimo eu mesma. Versão gelada, vermelha e russa. Não sei quantas câmeras vão conosco na viagem, mas a equipe tem mais ou menos quinze pessoas, entre elas seis atores. Da viagem original de 2009 somos eu,  Manu, Soraia, a portuguesa, Alina, a tradutora e o Lênin, que continua embalsamado. O resto é ficção. Tudo é ficção. Estou pronta para o creme azedo boiando na sopa rosa-choque, para o papel de parede mofado do quarto do alojamento e o frio petrificante na ponta do nariz. Só não estou pronta para este filme ficar uma merda. E é claro que não vai ficar, mas que passa pela minha cabeça, passa, ah passa. E pesa nas costas. Haja cervical e lombar. Ó céus, livrai-me da ansiedade e do medo de falhar. Quero viver cada vão momento. Só isso. Minhas duas malas que podem comportar vinte e três quilos cada, estão abertas na sala de casa, e eu pretendo usar cada grama que a companhia aérea me conceder.  Minimalismo nenhum. Foi dureza fazer a prova de roupa com mais de 30 figurinos para o frio russo durante o calor paulistano, mas eles agora existem, e me olham ansiosos do chão de taco lá de casa.

ps: Moscou fica a 1000 quilômetros da Ucrânia. É suficiente?

segunda-feira, 1 de julho de 2013

a noite um passarinho


Ontem, meia noite e trinta e dois, quando conversava com minha mãe no telefone, ela adora me ligar de madrugada, sim meia noite e meia já é madrugada, enquanto falávamos sobre meu avô e Bob Wilson, um passarinho entrou desatinado pelo quarto. No susto desliguei o telefone e olhei para o gato. Um lord. Impassível. Cadê seu espírito caçador de felino selvagem? eu disse e ele luflas. Coloquei a capa de chuva contra o corpo e com medo do passarinho fui até a sala. Suas asas batiam a mil por hora e ele errava a janela de vidro, errava o corredor e errava em minha direção. Protegida por uma capuz esperei ele pousar em algum lugar da estante, ansiosa, para ver de quem se tratava. Mas ele batia as asas tão vertiginosamente que só pude ver que não se tratava de nenhum morcego ou mariposa gigante. E sim de um passarinho bege escuro desesperado. No que ele foi para o quarto pela segunda vez corri até o janelão da sala. Abri. Ele voltou como se já soubesse e atravessou a janela para a noite na cidade. Fiquei feliz, embora ele tivesse  acabado de transformar minha casa numa gaiola gigante.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

meu avô Alex

Meu avô morreu na quinta-feira santa. Ele já estava há algumas semanas na UTI, por isso sua morte era anunciada e até querida. Ainda assim foi duro perdê-lo para a eternidade. Perder um avô é perder uma pedaço da infância, de sonho, da leveza que existe e que a gravidade não consegue diminuir quando um avô e uma neta estão juntos.

Eu nunca consegui dizer o nome dele por inteiro, um nome inglês, difícil. Para mim era o vovô Alex.

Um homem colérico, entusiasmado e generoso. Sempre falei muito da minha avó, da sua coragem, força, mas quase nunca dele. Quando lembro do meu avô, penso em como ele era bricalhão,  na gula que ele tinha, nos molhos mirabolosos de salada que ele inventava, nas viagens que fazia, no gosto que tinha com os filmes, as peças que via. Mas penso sobretudo na audácia que ele teve quando casou com minha avó: uma mulher que além de cega, ele teve que dividir durante toda sua vida com a causa pela qual ela lutava. E o quanto ele a ajudou e a apoiou em sua missão.

Ponto para o meu avô, sei que não foi fácil.

Que homem corajoso e que sorte a minha de herdar dele esse Nowill difícil de pronunciar. Esse Nowill que se me faz ser tão impulsiva, colérica, mal educada às vezes e tão ansiosa, também me dá a coragem, a elegância, o talento para o fogão, o humor, a braveza, a esperteza e a pontualidade quase sempre britânica em minha vida.  Pensando bem acho que a pontualidade não é muito característica dos Nowill não, isso é meu mesmo.

O Nowill me coloca para frente, embora o nome sugira o contrário à primeira vista.

Quando Alex foi marcar o primeiro encontro com minha avó Dorina pelo telefone foi logo avisando: "Olha, eu sou feio, viu!", no que ela retrucou: "Tudo bem, eu sou cega mesmo." E assim começou a nossa familia.

Havia muito amigos e familiares no velório, mas o que mais se via eram os netos rodeando seu caixão. Não sei o que meus primos estavam sentindo além da tristeza e do vazio. Eu senti gratidão.
Gratidão e amor. E quando chegou a hora de levar seu corpo ao cemitério, acabei por acaso embicando meu carro atrás do carro do serviço funerário que era conduzido por um sujeito magricela, e que fumava um cigarro com gosto enquanto desfilava calmamente o corpo do meu avó pela cidade. Lembrei do poema do Bandeira:

momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto longo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava 


Não que alguém tivesse tirado o chapéu enquanto a gente ia da São Carlos do Pinhal até o cemitério da Consolação, mas eu fiquei honrada de ser o primeiro carro a seguir meu avô, me senti guardiã daquela travessia. E embora os pedestres não saudassem o esquife como sugere o poema, e um taxista insistisse em furar a nossa fila, o cortejo me pareceu digno de um lorde inglês.  Nosso lorde.

E aí parei para pensar no poema que eu costumava declamar entre os meus dezessete e vinte anos. Naquela época eu pensava, é, a vida é mesmo uma agitação feroz e sem finalidade, achava a frase bonita, sonora.

 Hoje minha vida continua feroz, agitada, mas eu descobri sua finalidade, e tenho certeza de que você cumpriu a sua vovô, por inteiro, por isso descanse em paz.  E todo meu amor para você.

                                                    com ele, preparando um molho de salada....
 





quarta-feira, 21 de novembro de 2012

ternura pelos homens na academia


Ternura pelos homens na academia. Não de letras. De ferros. Os homens com suas cores neon, seus bíceps, tríceps, psoas. Os homens que batem as mãos uns nos ombros dos outros saudando músculos, ossos, força. Consumindo e falando proteínas. Ternura por esses homens tão doces em sua boçalidade, tão honestos em suas vontades. Parecem viver no intervalo entre uma coisa e outra, no recreio da vida adulta. Os homens que se divertem entre si numa espécie de confraria da qual nunca farei parte no canto mais à esquerda do salão. Perto dos halteres, das rodas de metal. Passo por eles como quem caminha na parte mais densa da selva: as conversas entrecortadas pelos exercícios, a camaradagem, tatuagens desbotadas e esdrúxulas, os pinos, clavículas e uma cartilagem mais desgastada no joelho direito. E como se roubasse o ar alheio, inspiro por um instante a alegria que paira entre suas cabeças antes de voltar para minhas obrigações. Abaixo o rosto no bebedouro de metal e sorrio. Se eles não fossem tão ternos, tão bobos, simples e adoráveis, eu morreria de inveja.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

E se a gente?


Se eu estivesse em Paris agora em excelente companhia seria sim primavera. Eu e minha excelente companhia do sexo oposto atravessaríamos a rua com alguma altivez, por que apaixonados tem altivez própria, luz própria, ritmo. Eu diria para minha excelente companhia com a barba por fazer: tenho fome. Ele riria: você e sua fome. Que posso fazer? Eu retrucaria num pretérito muito aquém do perfeito. "Nada, vamos comer.", minha excelente companhia com a barba por fazer em camisa de linho mal passado me puxaria em direção ao supermercado e nós compraríamos uma garrafa de vinho tinto a 6 euros, um pacote de cerejas maduras a preço de banana, uma bandeja de salame, queijo e uma grande e crocante baguete. Minha excelente companhia com a barba por fazer em camisa de linho amassado e um sapato formidável seguraria minhas ancas na fila do caixa e diria: nosso primeiro piquenique.
"Meu Deus, não temos uma toalha xadreza!"eu gritaria, e ele com seu sorriso: on s'en fout! Sim , foda-se, completo eu, vamos usar sua camisa no lugar da toalha. E me encanto por uma senhora em conjunto de tailleur cor-de-rosa-bebê e chapéu combinando que aguarda na fila do caixa ao lado, enquanto minha excelente companhia, sua barba camisa e sapato, e eu vejo que ele tem o pensamento longe, entrega uma nota de vinte euros para a moça. Ele segura minha mão, “cuida das cerejas”, ordena e voltamos para a rua. Eu e minha excelente companhia de barba por fazer camisa amassada olhos doces e brilhantes como um alazão atravessamos um grupo de crianças entre cinco e oito anos vestidas em uniformes encardidos na saída da escola. Pequenos parisienses eu digo,  ao que minha adorável companhia sorri: futuros parisienses mal humorados, retruca. Minha excelente companhia ri para dentro enquanto rio para fora e sei que o ar que utilizamos para nos comunicar se encontra e se mistura em algum lugar no meio do caminho entre nossos pulmões e a estratosfera. Olho para a garotinha francesa que carrega uma mochila maior do que ela, como era chato usar uniforme, penso. Depois repito o pensamento em voz alta, feliz por estar de vestido, sapatos e bolsa a tiracolo. Minha companhia em barba por fazer, sapato de couro, olhos de cavalo, oscila entre um grande coração e sua ironia pontiaguda enquanto fala em voz grave baixa: tem um parque bonito ali. Minha mão não transpira há anos, mas tenho medo que o barulho da rua seja menor que os saltos que meu coração dá. Meu coração é mesmo um atleta, penso dentro do vestido coral, sapato e bolsa conhaque. Me empresta a baguete? digo, e só nos falta uma bicicleta para parecermos objetos de cena de um filme da Nouvelle Vague. Eu em coral e minha excelente companhia com  sua ironia pontiaguda, calça e cabelos cor-de-burro-quando-foge adentramos um parque tipo folha de calendário sem um só eletrônico nos bolsos. Nosso pequeno mundo não tem wifi, sinal de celular ou feed de notícias. Quebro a ponta da baguete e mastigo com furor um pedaço de pão enquanto minha adorável companhia com olhos de alazão, barba por fazer, sapatos formidáveis e mãos de agricultor procura um abridor de vinho no café mais próximo. Aproveito para montar o melhor sanduíche do mundo, e sim, arranco um punhado de grama e coloco entre  o queijo e o pão. Ou não, melhor não. E eis que volta minha linda companhia dentro de sua camisa mal passada, passando suas mãos de agricultor na barba que está por fazer, me olhando com seus olhos tristes de alazão, pisando firme em seus sapatos aceitáveis e sorrindo como se fosse o sacana que ele não é. Traz um abridor na mão. E por que você não abriu a garrafa lá?, pergunto. "Mas vai que a bêbada aqui resolve comprar outra garrafa no caminho...", ele ri. "E afinal, ganhei o abridor de cortesia." Eu também te daria um abridor, meu bem, se você fosse ao meu café com essa cara de excelente companhia que só você tem. Ao que meu par me pede como se me pedisse em casamento: 

“E se a gente fizesse tudo diferente? Tudo diferente do que já foi feito até hoje! Eu sei, eu sei”, ele emenda, “que talvez a gente acabe ainda mais igual por conta disso. Eu sei, mas e se? E se? E se a gente?” 

Eu sei do que ele está falando, minha adorável companhia, meu par, com sua barba pontiaguda, seu humor por fazer, seus olhos amassados, sua camisa formidável, seus sapatos cor-de-alazão e seu coração de agricultor. Minha excelente companhia quer reinventar a roda, o quadrado, o triângulo isósceles, o amor. “E se? E se a gente?”. A frase repercute em todos os cantos tristes e felizes do meu corpo, em cada quina da minha euforia. E antes que ele possa ter a chance de proferir o próximo “vamos”, mesmo sabendo que o mais provável é que fracassemos, antes mesmo que ele possa tomar ar para o começo da próxima frase, salto por cima dele e tasco-lhe um beijo afobado e confiante, derramando metade da garrafa de vinho que escorre por cima dos cabos de cereja, grama e farelos de pão. “E se?". Agarro sua nuca com minhas duas mãos e digo: vamos.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A primeira confissão


A primeira confissão, por Martha Nowill

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MARTHA NOWILL
ESPECIAL PARA A FOLHA
Quando eu tinha oito anos, tudo o que queria era uma Bic de dez cores e sentir Deus dentro de mim. Me frustrava não poder entrar na fila da comunhão com os adultos.
Só me restavam as funções menos nobres de cumprimentar a igreja inteira quando o padre mandava saudar a "paz de Cristo" e a de depositar dinheiro na cesta de doações. Obrigações que cumpria com a eficiência de um coroinha, já que, no tempo restante da missa, eu me abandonava, nos bancos gelados de madeira, à espiral das minhas inquietações infantis.
Arquivo pessoal
A atriz Martha Nowill, aos oito anos, na primeira comunhão, em 1989
A atriz Martha Nowill, aos oito anos, na primeira comunhão, em 1989
Tinha perto de casa uma igreja que eu achava muito feia. Era toda de madeira e pedra, sem cor nenhuma, sem dourado na borda, sem santo nem auréola, nem qualquer umas daquelas imagens assustadoras de lanças e dragões que eu adorava observar durante o sermão. A gente tinha se mudado havia pouco, e foi lá que passei a imaginar, a cada domingo, como seria meu encontro com Deus.
Se a gente mordesse a hóstia, sairia sangue de Jesus de dentro? E se a gente comesse muito, o corpo de Cristo iria se misturar à macarronada de domingo? Essas questões me atormentavam, e eu não via a hora de ser adulta para dormir tarde, ir ao baile de Carnaval, comungar e matar minha curiosidade. As noitadas teriam de esperar, já Deus eu conheceria em breve, nas aulas de catequese.
Um homem que abria o mar com um cajado, uma mulher que engravidava de uma pomba, um planeta inundado e uma arca com todos os bichos dentro, um grande pai que era três e que ainda por cima me amava, embora eu talvez não merecesse. De que mais uma criança de oito anos precisava?
De um vestido. E começavam os burburinhos na escola em torno do tema. Minhas amigas já tinham ido à costureira meia dúzia de vezes, já tinham as pérolas do bordado, as rendas no colarinho, ao passo em que eu era enrolada no caos da agenda da minha mãe.
Ela estava grávida de muitos meses, e toda atenção que deveria estar voltada à minha primeira comunhão era diretamente desviada para a chegada da caçula. "Não se preocupe, é uma bata de seda lindíssima", ela dizia. E eu repetia no recreio: "Ainda não experimentei, mas é uma bata de seda lindíssima". Por algum motivo a palavra seda causou certa impressão nas colegas e em mim. Seda, seda, seda. Aquilo me confortava.
Minha madrinha, a par da minha ansiedade, me arrumou hóstias não consagradas para que eu pudesse matar a curiosidade do gosto. "Essas se pode comer, ainda não são o corpo de Cristo", ela me disse, colocando algumas na palma da minha mão. Devorei-as por gula, mas sem grande deleite. Apavorada, pensava: "Ainda bem que não são o corpo de Cristo, imagina se deixo Jesus cair no chão..."
Para ir ao encontro de Deus eu precisava ainda de uma lista de pecados. Às vésperas da minha primeira confissão, passei uma tarde de sábado, em vão, tentando enfileirar alguns nas linhas do papel. Por fim, inventei um ou outro, com medo de que o padre não acreditasse na minha inocência.
No dia 2 de dezembro de 1989, na igreja de Santa Terezinha, me aboletei num banco com minha bata branca, que de seda nada tinha. Eu era uma espécie de franciscana com uma cruz de madeira pendurada ao pescoço e uma coroa de flores que me pesava como se fosse de espinhos.
As meninas eram minidebutantes, e só não me aborreci mais porque, de algum jeito torto, acho que intuí que minha veste simplória resistiria melhor à atemporalidade do álbum de fotos. E elas não escondiam a decepção. "Mas não era de seda?", repetiam enquanto desfilavam seus vestidos rodados, rendados, bordados.
Mas o mais importante era que finalmente eu era digna da visita de Deus. Isso me enchia de vaidade, amor e alegria. Não senti nada quando a hóstia começou a derreter na língua, mas senti Deus explodindo nas minhas veias a cada passo da ida ao altar, em cada gesto dentro do figurino branco, diante das câmeras VHS, dos pais, tios e curiosos da plateia cheia. Minha primeira caminhada como atriz.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

teria graça se fosse de outro jeito?





É um filme. Tem o personagem do homem que vai ao cassino. É um meio de tarde e ele nem está tão arrumado quanto pediria a situação.  Num único ato de imprudência ele junta todas suas fichas, as pretas, verdes, vermelhas listradas de branco, todo o seu carrossel milionário de cores e aposta tudo numa jogada só. Lembra dessa cena?  De alguma parecida? O homem sente um frio enjoativo na barriga, um sopro no coração, uma câimbra nos dedos da mão. Uma senhora ao lado mordisca a segunda azeitona do Dry Martini enquanto lembra da última vez que teve tanta ousadia. 

Ele vai perder, arrisca o palpite. 

Uma dupla de turistas japoneses ri. O funcionário da casa repara que  o pulso de sua camisa branca está consideravelmente amarelado enquanto recolhe guardanapos amassados.

A roleta gira vagarosamente aos olhos do apostador, rápida aos do expectador. Metade da sala do cinema acha que ele vai perder. A outra metade torce pela sorte do herói. O homem se contorce em cálculos matemáticos renais enquanto o cheiro de fritura escapa da cozinha do cassino. A medida que a roleta gira ele dissolve. E sentir é o que basta para ser.  Desavisadamente, é o que eu quero que você faça. Aposte tudo o que você juntou na vida inteira. Em mim. Veja bem, eu não sou aquela moça do casaco de pele que fica na ponta da mesa de feltro verde e que vai beijar seus dados para te dar sorte. Eu não sou a fortuna que você está prestes a ganhar ou perder. Eu sou a própria roleta. E nós não estamos na tela do cinema. Ninguém torce contra ou a favor de nós.  Eu não posso te garantir nada. Mas não consigo te pedir menos do que tudo.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

só garotos




Amigo é um negócio importante. Fazer um filme sobre amizade, entre amigos, é um negócio sublime.
Tenho vivido em absoluta suspensão. Não tenho mais casa, meu gato não pode ficar comigo, não tenho mais namorado, não tenho uma garagem. Tenho um carro amassado e um filme para fazer. Tenho uma mãe que me abriga provisóriamente. Espero. E uma amiga que me empresta a garagem. Tenho projetos, vontade de concretizá-los, preguiça de produzí-los e um saldo bancário a beira da catatonia. Tenho minhas orelhas, meus pés, a vida: como diz aquela música que a Nina Simone canta e faz meu coração disparar quando escuto. De modo que enquanto não sei o que irá acontecer, tenho gostado de viver assim, quase no espírito cigano vindo do deserto do rajastão e a ideia de pertencer a uma trupe mambembe de teatro saída de um filme de Bergman. A verdade, é que tudo está em suspensão. O que acontece é que às vezes nossa percepção em relação a isso fica mais aguda. E isso pode ser libertador. E eu prometo solenemente manter-me fiél a isso, mesmo estando empregada, contratada, casada, cronogramada, com filhos, com milhões de compromissos, com uma casa cheia de garagens para gerenciar. Eu prometo manter meu coração, meus desejos e meus dias em leve suspensão, ainda que eles pareçam enraizados na terra mais próxima a mim.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

fato

-o 3G da tim é uma piada
-cara
-o 3g da tim não resiste a uma garoa paulista
-São Paulo sem chuva judia dos nossos pulmões
-com chuva judia de todo o resto
-gentileza é ouro
-é deselegante entrar no carro de alguém falando no celular e assim permanecer durante todo o percurso
-amor não tem especificidade
-não, eu não tenho cartão Mais
-o verbo instagramar deixou o googlar obsoleto
-obsoleta sou eu, no meio da chuva e da pista de vinte poucos anos do lolapalooza
-eu não tenho mais vinte e poucos anos
-não, eu não estou em cartaz
-mato ruim cresce depressa
-enquanto a gente atua, dança e sapateia, tem um pessoal ganhando muito dinheiro por aí
-ainda não consegui o contato desse pessoal para futuros patrocínios
-eu hei de conseguir
-não, eu não tenho what´s up
-por que não
-quem tem vergonha na cara ruboriza
-mascando chiclete qualquer um tem o ar estúpido
-eu só masco chiclete escondida
-um bom haikai pode salvar o dia
-um cigarro pode salvar a foto
-nem um grande ator pode salvar uma pessima ideia
-mas um vestido pode salvar uma mulher
-ideia não tem mais acento, de resto, creio não ter absorvido as novas regras da língua portuguesa
-em voz alta, a língua mais linda do globo é o italiano
-pena que aprender espanhol seja mais produtivo
-lindos os italianos também
-não, a balança não está desregulada, você é que comeu demais
-como é bom comer
-como é bom ter amigos
-como é bom conseguir uma carona fim de noite
-como é bom subir os vinte e três andares sem ninguém no elevador
-como é bom cinema, pipoca e mãos
-como é ruim a projeção do Bristol
-eu deveria parar de ir ao Bristol
-eu deveria parar de ir em testes de publicidade
-eu nunca mais vou num teste de publicidade
-a não ser que o cachê seja mais de quinze mil
-como eu sou barata
-haja dinheiro para ser solteiro
-haja tempo para ser polígamo
-haja fé para o amor
-haja amor para descartar a fé
-eu acredito em mim, em bruxas, duendes, ETs e café turco
-no mais, depois de entupir os bueiros, as águas correm para o mar

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

o dia em que eu fiz as malas para sair de casa

(eu e os pinguins)


O dia em que eu fiz as malas para sair de casa foi antecedido por aventuras exóticas, exuberantes e um carnaval paulistano nas trincheiras de uma escola de samba.

Comecei o ano num SPA linha dura no interior de São Paulo a fim de emagrecer os quilos que estapearam minha cara na última fez que me vi na televisão. Ser atriz e escrever suas medidas em todos os termos de compromisso, além de ser um saco, te faz lembrar o tempo todo o quão inadequada é a dobradinha tv + pipoca durante a madrugada.

Então fomos ao SPA, eu e meu corpinho.

Chegando lá o médico me mediu, me pesou, me fitou e perguntou seu me considerava normal, com sobrepeso ou obesa. "Eu me considero bem normal.", respondi, "mas acho que para o mundo atual estou mais para o sobrepeso.". Não, ele não riu da minha piadinha e ainda me colocou numa dieta, pasmem, de 300 calorias por dia. Sim, aquela garfada de arroz com purê de mandioquinha já contabiliza isso facilmente. Agora, divida essas calorias entre seis refeições de diárias compostas de vento, clorofila, aspartame, gelatina e uma média de sete grãos de arroz no prato do almoço.

É por isso que o SPA é um local onde se fala basicamente sobre: COMIDA. Não há lugar melhor no mundo para passar fome e trocar receitas, dicas de restaurantes, segredos e preços do mercado gastronômico. É claramente um ato de tortura, onde boa parte das pessoas volta a engordar quase o dobro do que emagreceu, quando sai de lá.

Intimidade é uma coisa que se pega fácil também, já que ninguém tem o menor pudor em te perguntar seu peso, seu índice de massa corporal, seu resultado da bioempedância, se seu intestino funciona bem ou não, se seu xixi tá muito amarelo, enfim, essas coisas que na mesa e na vida real não se fala, mas no SPA, é lugar comum. Sexo também, embora figure no regulamento interno que não se pode visitar o quarto dos companheiros, se fala e se pensa muito em sexo num SPA. Isso por que você tira do sujeito a comida e a bebida, fontes primordiais de prazer. Então o que é que sobra e que não engorda? Bingo. Por isso o SPA é um ambiente familiar, mas altamente erotizado, dependendo da roda onde você circular.

(comida de spa: repare na sobremesa de um centímetro e meio)

Eu, como não podia ser diferente, logo me juntei a gang, liderada pelo Marcão, figura que já está em sua quarta operação de estômago e décima visita ao SPA. Marcão tem histórias que já constam nos autos do imaginário da população acima do peso, como as dos dois patos que habitavam a lagoa. Foram capturados, por ele e seu comparsa, que usaram como armadilha um cobertor. Depois foram mortos e depenados na banheira do quarto e junto com os temperos guardados de uma semana (sim, o sal e a pimenta também são controlados por lá), os patos foram levados a sauna no meio da madrugada a fim de serem assados. Como a sauna não deu conta, e já quase amanhecia, os autores do crime pegaram logo um ferro de passar roubado da lavanderia e fizeram os patos a moda da casa: torrados na chapa, sabor eucalipto.

Ficou uma merda, segundo eles, mas a fome era tanta, que tiveram que tentar. Bom, por aí fica a ideia do tipo de gente criativa, engraçada e subversiva que pode circular num SPA. Lugar onde ninguém é alguém, ninguém tem profissão, status, beleza ou feiúra. Tudo isso se dilui numa única meta comum: fazer os ponteiros da balança despencarem.

Os meus cairam quatro quilos em uma semana e eu voltei para casa feliz. Meu único problema é que de lá eu continuava as férias com uma viagem de navio pela Patagônia, acompanhada de trinta e uma pessoas da família para comemorar os sessenta e quatro anos de casamento dos meus avós. Para quem não sabe, navio é um SPA de engorda, onde comidas maravilhosas , vinte e quatro horas por dia são distribuidas aos quatro ventos. E entre ventos, marés, tormentas, geleiras, pinguins e drinks coloridos, eu tive que passar metade das horas do dia na academia do navio para não desperdiçar o dinheiro investido no anteriormente. Quanta esperteza, já que o ideal teria sido organizar o cronograma de forma inversa. Mas bem, saiu desse jeito.

De volta para São Paulo caí na loucura dos projetos, testes, editais e de uma separação.
E não há nada que eu possa escrever sobre o amor ou uma separação que não deixe de fazer sentido antes mesmo da frase ser concluida em minha mente. Por isso há nada a ser dito, a não ser sobre as geleiras.

As geleiras azuis que vi no fim do mundo e que me fazem lembrar que um dia elas não estarão mais lá. Ver uma geleira derretendo é triste, como é triste o fim do amor. Mas a ideia de que elas não acabam, só se liquefazem, me ajuda a entender as coisas que se passam no meu coração. E só posso agradecer a este homem, que além de encarar uma mulher como eu (aqui caberia um parênteses extenso, já que tenho consciência de ser uma mulher bacana de conviver, mas não exatamente simples ou fácil), enfim, agradecer a este homem que me mostrou o amor com tanta generosidade.

No dia em que eu fiz as malas para sair de casa, era uma quarta-feira de cinzas e fazia calor. Por isso só levei as roupas de verão. Nas semanas subsequentes voltei para buscar as peças de frio, embora não tenham qualquer utilidade no momento.

Tenho sentido desejo de comer manga com morango toda manhã, tenho sonhado com mortes noite sim, outras não, e esquecido de escrever as sílabas finais de todas as palavras no bilhetes redigidos a mão. Não, não estou grávida. Estou feliz, melancólica, esquisita. E pronta.


(um pedaço de geleira azul, onde a foto não faz jus a realidade)